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| Reportagem:
Ana Paula Sabbag Edição:
Guilherme Maciel Fotos: André
Conti |
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ENCONTROS FOTOGRÁFICOS,
parte do PROGRAMA DE ESTÍMULO Á
FOTOGRAFIA FNAC/FOTOSITE, reuniu quatro
curadores de fotografia em São
Paulo
No
último dia 30 de novembro, A FNAC
Paulista foi palco da última edição,
em 2004, dos ENCONTROS FOTOGRÁFICOS,
um dos pilares do PROGRAMA DE ESTÍMULO
À FOTOGRAFIA FNAC/FOTOSITE, e que
reúnem especialistas de diferentes
áreas da fotografia – de
fotógrafos a teóricos –
para debater sobre temas previamente definidos.
Desta vez, compareceram quatro dos principais
curadores de fotografia do Brasil: Diógenes
Moura, 47 anos, curador de fotografia
da Pinacoteca do Estado de São
Paulo; Eduardo Brandão, 46, professor
e sócio-proprietário da
Galeria Vermelho, de São Paulo;
Rosely Nakagawa, 50, arquiteta e pesquisadora
de fotografia; e Rubens Fernandes Junior,
53, diretor da Faculdade de Comunicação
da Fundação Armando Álvares
Penteado, a Faap. A idéia do encontro
surgiu depois da publicação
da matéria “Olheiros”,
na REVISTA FOTOSITE #2, feita pelo fotógrafo
e jornalista Eder Chiodetto, que mediou
a conversa entre os quatro. Tadeu Chiarelli,
48, professor da Escola de Comunicação
e Artes da Universidade de São
Paulo, ECA-USP, e o quinto curador entrevistado
na matéria de Eder, não
pôde comparecer ao evento.
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| O
público lotou o evento
na Fnac Paulista |
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“Olheiros”
rendeu algumas polêmicas entre leitores,
que foram à sala de exposições
da FNAC para esclarecer suas dúvidas.
Entre o público presente, estavam
fotógrafos de vários segmentos,
de Thomaz Farkas a Maurício Lima,
de Antonio Gaudério a Bob Wolfenson,
passando por Roberto Cecato e Cláudio
Edinger, além de historiadores,
como Boris Kossoy, estudantes e curiosos.
A conversa começou com a questão
do papel do curador dentro do universo
fotográfico. Cada convidado expôs
seu ponto de vista sobre a profissão
e tentaram esclarecer o rumo que a arte
fotográfica e o mercado estão
tomando. A participação
do público foi fundamental para
enriquecer o debate e colocar novas questões
aos curadores. E o encontro não
parou depois que a Fnac encerrou as atividades.
Os fotógrafos Cristiano Mascaro
e Juan Esteves, presentes no encontro,
escreveram um artigo cada um para esquentar
a discussão.
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| Direto
ao assunto: |
Repercussão: |
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| Rosely
Nakagawa: "Todo mundo é
curador agora, de qualquer coisa" |
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Rosely
Nakagawa: Estou considerando
o termo curador de outra maneira. Comecei
a trabalhar como coordenadora de exposições.
Com maior ou menor clareza o nome curador
foi sendo usado de uma maneira um pouco
mais insistente, eu mesma fui usando.
Mas de uns dois anos pra cá comecei
a questionar este termo, porque acho que
o curador tem uma responsabilidade sobre
o que ele expõe de uma maneira
mais longa, com vínculos mais fortes:
uma preleção, que se transforma,
e depois fica em um acervo mais fixamente.
Eu me encontro diante de uma crise de
definição do meu papel,
do conceito e da maneira como eu tenho
trabalhado até agora. Existe uma
onda nova de curadores que surgiram. Todo
mundo é curador agora, de qualquer
coisa, e não são nada de
fotografia. Alguém acha interessante
um assunto, acha interessante um artista,
sai com ele por aí expondo, e é
curador. A minha crise é essa,
não sei se sou eu ou se é
o termo, se é o panorama. Mas acho
que não é uma crise ruim,
não estou me sentindo mal com isso.
Gosto de rever as palavras e os conceitos.
Diógenes Moura:
Quanto a esta questão, até
engraçada, que a Rosely colocou
sobre a curadoria, isto se completa no
dia-a-dia da vida das pessoas, não
só na exposição.
Eu fui a uma abertura e uma pessoa perguntou
a uma baiana do acarajé quem fazia
a curadoria da comida [risos]. Não
me sinto como uma pessoa que tenha uma
intelectualidade e resolve o olhar de
outra pessoa. Existem fotógrafos,
de uma certa forma, contextualizados,
e existem fotógrafos novos que
chegam realmente precisando de ajuda,
precisando entender como é que
se faz uma exposição. Tem
que explicar como é a questão
espacial, da iluminação,
das cores; é mais um trabalho de
modernização talvez. É
muito mais o fato de estar junto e dar
uma certa linha, no meu caso, na Pinacoteca.
Este ano nós fizemos três
leituras de obras na Pinacoteca, Carlos
Moreira, Fernando Lemos e agora Adenor
Gondim, que está com a exposição
Itaylê Ogun. Faz 20 anos que trabalhamos
juntos, e consegui ver como o trabalho
do Adenor, muito dedicado e muito simples,
se projetou nesta questão de arte
e religiosidade. Foram cinco anos trabalhando
para que a exposição fosse
aberta no sábado passado [20 de
novembro de 2004]. O objetivo é
mostrar o fotógrafo no seu melhor
momento. Às vezes conseguimos mais,
outras vezes, menos.
Eduardo Brandão:
Eu, como muitos de vocês, tenho
um amor pela fotografia. Aprendi a fotografar,
a entrar em um laboratório, aos
12 anos. Fiz uma faculdade de fotografia,
a Brooks, e ali descobri uma outra paixão,
pela história da fotografia. Voltei
para o Brasil e senti uma grande necessidade
de dividir isso com outras pessoas. Sou
professor de fotografia, continuei fotografando.
Aí veio esta questão de
curador, não tenho nenhuma formação
como curador de fotografia, se é
que tem alguma formação
que a pessoa tem que ter. O meu viés
é a paixão pela imagem e,
depois, um estudo que fui fazendo ao longo
dos anos. Conheci vários trabalhos
que estavam ao meu lado. Fui desenvolvendo
algumas questões que eram mais
gratas, e cheguei a montar, a curar, como
se diz por aí, algumas exposições.
Foi uma vivência muito boa e agora,
falando sem medo, conhecer a foto do outro,
a produção do outro, intervir
e conversar como qualquer outra coisa
na vida. Você trocar as coisas que
tem. Não acho que na fotografia
seja diferente. Acho que vai surgindo
uma produção ao seu lado
e você vira um arrumador de fotografia,
colocando para os outros verem.
Rubens Fernandes Junior:
Esta palavra, curadoria, entrou
recentemente no mundo das artes, se pensarmos
nos idos dos séculos XIX e XX,
nos salões que aconteceram em Paris
e em outros centros de exibição.
Tínhamos um salão de arte,
onde se juntavam uma série de trabalhos
de diferentes artistas e diferentes origens.
Foi no meio dos anos 80, na virada para
os 90, com os grandes encontros de arte,
principalmente a Documenta de Kassel,
Bienal de Veneza, e conseqüentemente
a Bienal de São Paulo, que começa
a surgir uma nova figura do curador. Enquanto
o crítico de arte, de um modo geral,
encontrava seu espaço no jornal,
nas revistas especializadas, nos seus
ensaios, nos livros; o curador começa
a encontrar o seu espaço dentro
das exposições, e começa
a ganhar um status, inclusive na mídia.
Sempre achei que eu era uma espécie
de coordenador, de organizador, chamando
as pessoas, abrindo espaço para
exibirem os trabalhos. Foi só a
partir de 95, aproximadamente 96, que
comecei a assinar algumas exposições
como curador. A palavra curadoria é
assustadora porque tentava dar conta de
uma coisa que nem todos que se diziam
curadores estavam capacitados. Acho que
nesta última década ela
se esvaziou completamente, na medida em
que qualquer pessoa, e digo qualquer com
a maior naturalidade, se arvora como curador
de alguma coisa, seja de comida, seja
de qualquer coisa. Então se organiza
uma coleção de malas, surge
um curador; uma exposição
das pin ups dos anos 40 e 50, surge um
curador. Tem sentido falar em curador,
em curadoria, se você tem uma coleção
dentro do museu, se você tem uma
coleção dentro de uma instituição
pública que, com freqüência
esta coleção é ampliada.
Aí vem a figura de um curador,
como foi o Szarkowski, no MoMA de Nova
York, ao longo de 40 anos, adquirindo
fotografia com o mesmo intuito, mesmo
olho, mesmo printer, dando para aquela
coleção uma dimensão
estética e histórica que
nós conhecemos hoje.
Marcelo Greco, 38 anos, fotógrafo,
da platéia: Depois que
eu li a matéria na revista, fiquei
curioso para entender o que significava
a palavra curador de fato, já que
tinham tantas questões. Fiz o processo
mais elementar possível, fui atrás
da origem da palavra, é uma palavra
de origem latina. Ela significa cuidar
do bem, cuidar ou administrar o bem de
outrem. Acho que tudo o que vocês
falaram, se você vai dar o nome
de organizador, coordenador, curador,
tudo cabe dentro dessa palavra, porque
o conteúdo dela, apesar de ser
extremamente simples, é extremamente
complexo. Eu acho, Rubens, que às
vezes, uma exposição fugaz
que acontece, merece sim ter um curador,
porque foi feita com muita seriedade,
muita compenetração, muita
dedicação. Mas também
tem outras exposições assim
que não são. E eu acho que
este mesmo problema se estende, da qualidade
do conteúdo. Estamos vendo, na
minha opinião, muito espetáculo
e pouco conteúdo. Temos que discutir
conteúdo, e não se o termo
curador é adequado ou não.


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| Eder
Chiodetto mediou o debate |
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Eder
Chiodetto: Na matéria,
o Eduardo Brandão colocou um certo
preconceito que ainda existe em respeito
à fotografia contemporânea,
que ainda não consegue penetrar
em alguns espaços, e ainda sofre
uma grande resistência de pessoas
que produzem uma fotografia “convencional”.
Mas, como sabemos, dos anos 90 pra cá
houve uma mudança radical neste
fazer fotográfico, que é
muito mais voltado a uma subjetividade.
O Brandão também levantou
uma questão da fotografia preto
e branco, que para ele, já estava
saturada.
Brandão:
Vamos começar pela questão
pb. Eu não sou um de fora. Comecei
na fotografia, fazendo fotografia, revelando
e adorando as minhas fotografias em preto
e branco. Não é nada disso
que eu tenho uma questão contra.
Sou professor na FAAP e todos os meus
alunos passam por uma aula que aprendem
a fazer fotografia em preto e branco.
Eles saem na rua e trazem a mesma imagem.
Claro, pela mesma razão eu entrei
na fotografia, pelo amor a fotografia,
eu fui lá e fiz a mesma coisa,
óbvio. Só que tem uma hora
que você percebe que ela está
desgastada, e foi isso o que eu quis dizer.
Você repete o ‘a’ igual
te ensinaram, óbvio, não
estou negando isso. Agora, quando isso
é colocado como um ponto final,
temos que pensar. Foi essa a minha questão
do preto e branco. É um desgaste
com uma fórmula, como ela foi usada
e como ela continua sendo usada, e não
com o que está sendo dito. Quem
resolveu bem isso pra mim foi o Eduardo
Castanho. Ele levou o trabalho dele para
um grande fotógrafo ver e apresentou
o trabalho como arte. O fotógrafo
disse, ‘olha garoto’, ele
devia ser garoto, ‘tem uma diferença
entre arte e artístico, as coisas
podem ser artísticas, mas isso
não significa que elas sejam arte’.
Isso me ajudou um pouco a entender meu
próprio percurso. Não tenho
nada contra a fotografia preto e branco,
muito pelo contrário, eu acabei
de sair da Pinacoteca, aqui junto com
o Diógenes, estou montando uma
exposição da Cláudia
Andujar, e passei dois dias no Silvio
Pinhate, que todo mundo conhece.
Rosely: O mesmo desgaste que
sinto em relação à
curadoria, sinto em relação
à fotografia. Nem tudo o que se
faz hoje com recursos digitais é
fotografia. São instrumentos de
comunicação, eu acho que
é uma revolução,
como foi, imagino, o lápis. Quando
surgiu, o lápis possibilitava escrever
em uma superfície qualquer e você
podia carregar ele no bolso, imagina que
coisa maravilhosa, não precisava
nem de bateria, nem de impressão,
de nada. Era direto, como é hoje
poder produzir e anotar qualquer coisa
e transformar aquilo em uma imagem que
vai pela internet para qualquer lugar.
Agora, isso não é fotografia,
acho que é um instrumento de comunicação
poderoso, interessante, com uma resolução
maravilhosa. E acho também que
nem tudo o que se faz usando a máquina
fotográfica profissional, com negativo,
com papel, é fotografia. Nem tudo
é obra de arte.

Eder: Em uma palestra recente
no MariAntonia o Cristiano Mascaro (presente
ao debate) se referiu a fotografia digital
como ‘outra fotografia’, e
a fotografia com negativo como a fotografia
ela mesma, se diferenciando um pouco do
que seria a fotografia digital.
Cristiano Mascaro, 60, fotógrafo
e arquiteto, na platéia: Não
é uma fotografia diferente, ela
não é contemporânea,
ela é antiga, quando ela está
sendo produzida em tempo. Então,
acaba tendo um caráter meio pejorativo.
Agora sai esse termo: você não
é contemporâneo, você
é documental. Outro dia vi uma
matéria que dizia, fulano é
documentarista, não é contemporâneo,
não entendo como é que pode
ser.
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| Eduardo
Brandão, curador |
Brandão:
Em contrapartida ao contemporâneo
usa-se clássico. E o clássico
da fotografia está ligado a uma
produção que é a
clássica, teve o pictórico,
produção que vem depois
dos anos 20, chama-se de clássica
e tem até hoje. Então tem
fotografias com características
que foram ali fundadas a partir dos anos
20, que é clássico, contrapondo
ao contemporâneo.
Cristiano Mascaro: Parece
que há uma queixa do Eduardo Brandão
quanto a um certo preconceito com a fotografia
dita contemporânea, essa produção
mais recente, que se pode chamar contaminada,
talvez aquela que precise de anticorpos
para resistir. Os curadores tradicionais,
vocês, ligados à fotografia,
certamente estão ligados a esta
fotografia ela mesma, como chamei lá
na MariAntonia. Acho que é o inverso,
o preconceito existe destes curadores
mais ligados às artes plásticas.
Nestas novas Bienais; Museu Reina Sofia,
em Madri; uma série de mitos que
revolucionaram as cabeças de jovens
artistas e fotógrafos, eles jamais
escolheram imagens ou fotógrafos
que chamamos tradicionais. Sempre são
aqueles trabalhos que eu aprecio e outros
nem tanto, como da Rosângela Rennó,
Miguel Rio Branco, que deixaram de fazer
fotografia mesmo, mas começaram
a agir de uma outra forma. Então
o preconceito, acho, está invertido.
Existe um preconceito, a fotografia, esta
que estamos vendo aqui, essa 30 por 40
preto e branco do Luiz Braga [à
época do debate, o fotógrafo
paraense Luiz Braga estava com a exposição
Luiz Braga em Preto e Branco na FNAC Paulista],
não vai para os grandes eventos
que estão a cargo dos curadores
originários das artes plásticas.
O preconceito maior é esse que
está existindo, a ponto de até
mesmo ficarmos um pouco complexados, achando
que o que fazemos está fora de
ordem.
Brandão: Vou discordar
um pouquinho, porque a décima Documenta,
que foi talvez uma das mais discutidas
e polêmicas mostras de arte do mundo,
estruturou toda a exposição
em cima de fotografia, de Robert Adams.
Acho que tem sido dada muita atenção
à história da fotografia
depois dos anos 70, não tem como
dizer não ao que a fotografia trouxe
a discussão às artes plásticas.
Discordo que tem um preconceito, tem uma
revisão, e acho que está
sendo dado um grande valor para o que
fizemos como fotógrafo.
Cristiano Mascaro: Eu
disse em relação ao que
acontece aqui no Brasil, não nos
Estados Unidos ou no Japão. Acompanho
de certa forma, não como vocês,
não estou neste universo como curador,
mas certamente a Diane Arbus foi uma importante
estrela da Bienal de Veneza, faz uns 15
anos. No Brasil, não há
um fotógrafo brasileiro, como eu
ou Thomas Farkas, Juan Esteves e vários
outros, que tenha participado desses eventos.
Não estou me queixando, absolutamente.
Só para encerrar outra questão
em relação ao que falei.
A fotografia digital, pegando a fala da
Rosely, não pode ser fotografia
literalmente. Fotografia é feita
com a luz, a digital não é.
Então faço só essa
diferença, fotografia ela mesma,
que pode ser contemporânea, inovadora
e perturbadora, em relação
à fotografia mix, expandida, contaminada
ou o que seja.
Rubens: ‘Fotografia
Expandida’ é um conceito
de natureza híbrida enquanto processo.
Ela não precisa ser necessariamente
de novas tecnologias. O trabalho que eu
desenvolvi aponta para várias situações,
nas quais você pode trabalhar diferentes
procedimentos e os diferentes procedimentos
é que apontam para essa idéia
que chamei de ‘Fotografia Expandida’.
Outros autores chamaram de fotografia
híbrida, fotografia contaminada,
etc. O que é importante, no meu
entender, é como o fotógrafo
opera o nível da sintaxe, da forma,
e dentro dessa idéia de ‘Fotografia
Expandida’, associada ao procedimento
que o fotógrafo desenvolveu para
chegar a sua imagem. Aí, eu trago
um pouco o Flusser [Vilém Flusser],
no clássico ensaio, Filosofia da
Caixa Preta, no qual ele diz que a câmera,
mais o filme, mais os procedimentos clássicos
de revelação e ampliação
são programas, espécies
de softwares. O fotógrafo que subverte
os programas é o que provoca o
surgimento disso que tenho chamado de
‘Fotografia Expandida’, a
hora em que o fotógrafo resolve
alterar a sensibilidade do filme, a hora
em que, pensando na fotografia fotoquímica,
resolve esquentar o banho, que ele ganha
com uma revelação a 30 graus
e não a 20 graus, a hora em que
ele agita mais ou menos, enfim, a hora
em que ele começa a operar, não
no programa, mas na busca de uma gramática
pessoal. É aí que nasce
uma fotografia em expansão, porque
você subverte o modelo instituído
pelo fabricante, quebra aquela bula, desobedece.
Rosely: Muitas vezes
não consigo me envolver com o que
o Rubens chama de fotografia expandida.
Não me emociono com algumas coisas,
como não me emociono com algumas
obras de arte, que são tão
distantes de uma comunicação
mesmo. Acho que tem algumas obras que
não falam com ninguém, não
conversam com as pessoas. É a história
da nova roupa do rei, acho que todo mundo
lembra. Dois caras produziram uma roupa
de um fio que não existe e saíram
pela cidade. Eu me sinto dentro desta
história, vendo o rei nu e não
posso dizer que ele está nu, porque
vão dizer que sou uma ultrapassada,
uma conservadora. Mas confesso que me
sinto uma criança com vontade de
dizer que o rei está pelado.

Maurício Lima, 28 anos,
fotojornalista da agência France
Presse, na platéia: Sempre
que se fala em fotografia no Brasil, se
exclui o fotojornalismo. Quando se fala
em fotojornalismo, se fala do trabalho
do Sebastião Salgado, que tem um
caráter informativo. Vocês
acham que falta conteúdo para esse
nicho da fotografia entrar também
no circuito da exposição?
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| Farkas
na primeira fila ao lado de Cristiano
Mascaro |
Thomaz
Farkas, 80 anos, fotógrafo modernista
e cineasta, na platéia:
Me desculpem, não sei se vocês
viram, depois da posse do Lula, fizeram
uma exposição no viaduto
Santa Efigênia, um túnel
de fotografias, que é uma coisa
muito interessante. Os fotojornalistas,
não sei quantos foram na posse,
fizeram um túnel da posse do Lula.
O que passava de gente parando e comentando.
Eu fui lá, e fiquei admirado com
o número de pessoas que param e
falam daquilo que está lá.
Achei isso uma demonstração
muito interessante, talvez única
que tenha percebido de grande repercussão
foi essa pequena exposição
que fizeram na Santa Efigênia.
Rubens: O fotojornalismo
está incluído nestas questões
que estamos discutindo aqui. A produção
fotojornalística está mais
pobre do que nas décadas anteriores.
Não é nenhum preconceito
em nenhuma escala, porque os prêmios
continuam aí, várias fundações
dando prêmios para o fotojornalismo,
aqui no Brasil e no exterior. Os anos
70 e 80 foram um rompante de criatividade.
Foram os fotógrafos desse período
que trouxeram a vida inteligente para
os jornais, que estavam sob censura, e
os censores não sabiam ler imagens.
Hoje, empobreceu talvez por causa do excesso
de pautas que o fotógrafo tem que
cumprir, talvez por causa da pressa que
o jornal tem que ser produzido, talvez
porque quando o fotógrafo chega
sempre a coisa já aconteceu e está
sempre alguém lá com o celular,
uma digital, que faz a fotografia antes.
Eu acho que vai mudar um pouco o caráter
do fotojornalismo. Espero que seja mais
de reportagem mesmo. O que não
se tem com freqüência são
balanços de décadas, que
poderiam ser organizadas através
das várias editoras que produzem
o fotojornalismo diário ou semanal,
que poderiam disponibilizar o seu material
para podermos trabalhar e expor.
Pisco Del Gaiso, 38, fotógrafo
e editor da REVISTA FOTOSITE: O
fotojornalista brasileiro tem pouco hábito
de se remeter [a um curador] e de conseguir
construir um trabalho, entender o caminho
de volta. Poucas pessoas conseguem reunir
um trabalho e apresentá-lo. Acho
que é um pouco de comodismo, o
sujeito entende por fotojornalismo pelo
que sai no jornal. Acho que é um
pouco mais amplo. É essa a pergunta
que eu queria abrir aqui. Qual o momento
que um fotojornalista tem que procurar
o curador? Estou falando como se eu precisasse
de um médico, de um psicólogo.
Eu estou ficando louco com o meu trabalho...este
é o momento?
Diógenes: Acho
que existem fotógrafos mais interiorizados,
mais discretos, que talvez esperem que
alguém vá descobrí-los.
Isso não depende talvez de nós,
que organizamos as coisas, depende do
momento em que o fotógrafo acha
que deve mostrar, ou quer mostrar, porque
tem pessoas que não gostam também.
O Adenor Gondim mostrou muito pouco até
se revelar com as 90 imagens que estão
expostas agora. Realmente, não
sei como é que se faz essa passagem
entre o fotógrafo e curador, e
vice-e-versa.
Rosely: Uma coisa que
nos atrapalha muito é pensar, por
exemplo: eu sou fotojornalista e trabalho
dentro de um segmento. Acho que reduz
demais a produção do fotógrafo
para que ele possa enriquecer essa linguagem
dele, discutir, mostrar. Assim ele se
coloca dentro de um nicho muito fechado.
O fotojornalista, antes de tudo, é
um fotógrafo, tem que investir
em uma linguagem; utiliza uma série
de recursos gráficos, plásticos,
e é por isso que acabamos perdendo
chance de desenvolver um trabalho mais
pessoal dentro da fotografia aplicada.
O dia-a-dia, o cotidiano, a solicitação
vai fazendo com que o seu trabalho fique
um pouco automatizado e isso precisa ser
sempre voltado para uma produção
pessoal. Questiono muito quando a pessoa
diz: ‘quer ver o meu trabalho autoral,
ou quer ver o meu trabalho comercial?”
Não diferencio as duas coisas,
acho que o fotógrafo tem que ter
o trabalho dele e o máximo possível
conseguir colocar esse trabalho em uma
outra linguagem. Eu me surpreendo sempre
com os jornais diários, gosto muito
de olhar e ver quem fotografou. Outro
dia vi um retrato do José Dirceu
maravilhoso, acho que era do Marcelo Min
[fotógrafo da Folha de S. Paulo].
Poderíamos usar em qualquer exposição
de retrato. Essa de se colocar em um nicho,
‘sou fotógrafo de arte’,
porra, no mínimo, né? E
daí o que você faz? Acho
que discutir conceitos é uma coisa
importante, porque através da discussão
desta etiqueta que te dão você
vai procurar no lugar certo. Então
me deram uma etiqueta de curador e eu
não quero esta etiqueta, eu quero
outra coisa, eu quero fazer mais coisas,
quero editar livro, quero fazer exposição
de grande público, de pequeno público,
de 10 pessoas. Quero poder fazer mais
coisas. Então, quero discutir,
sim, os termos para poder ir além
deles e não ficar neles. Acho que
o fotógrafo discute muito pouco
conceito do próprio trabalho, então
ele perde de vista onde quer chegar.
Pisco Del Gaiso: Na maioria
das exposições que eu vi
de fotojornalismo, não há
a figura do curador, uma pessoa que pense
aquela exposição para uma
outra finalidade que não sejam
fatos. As exposições de
fotojornalismo, normalmente são
baseadas em fatos, e não em linguagem.
Queria que você comentasse isso,
Edu, porque você tem uma galeria
e tem um conhecimento da sua participação
na Folha já de longa data. Você
concorda com isso?
Brandão: Mais
ou menos. Acho muito chato ir a uma exposição
de fotojornalismo e fico pensando o porquê.
Adoro acordar de manhã e ver o
jornal com uma boa foto. Fico achando
que tem um esfriamento da imagem quando
você descola ela do jornal e coloca
contra a parede, falta legenda, aí
vira o quê? Não acho que
a arte e nenhuma coisa é maior
do que a outra. Cada um está ali
tentando fazer uma reflexão. O
fotojornalismo tem uma utilidade vital
na sociedade, ele é democrático.
Não preciso ir a nenhum lugar,
ele chega ali na minha mesa. E todo mundo
está tendo a mesma conversa, depois
você sai durante o dia, você
não foi na exposição,
você não sai da sua casa
e você conversa, você viu
aquela foto. Quer dizer, acho o jornal
muito melhor que qualquer parede de qualquer
galeria, de qualquer museu. É maravilhoso.
Então, não sei porque esse
descontentamento do fotojornalismo estar
ali e não sair dali. Outra coisa
é uma discussão de uma linguagem
fotojornalística, sim, mas não
vai acontecer em uma exposição.
Aquela imagem veio para uma coisa ainda
maior do que a linguagem fotográfica,
que é a linguagem da vida, e a
fotografia é uma partezinha daquilo.
Acho o fotojornalismo no Brasil, isso
é uma opinião particular,
maravilhoso. Ele é tão importante
que erroneamente é considerado
arte. Não, ele é fotojornalismo,
e é bom à beça. E
não precisa nem paralelar com arte,
pra quê? É maior do que isso.
Estava na Escandinávia e entrei
em uma exposição de fotojornalismo.
Era muito interessante ver como aquilo
movimentava as pessoas. Eu não
entendia nada, não o que eles estavam
falando, obviamente não entendia,
mas as imagens. Elas descontextualizadas,
sem a legenda, era aquele monte de gente
que eu não conhecia, e a imagem
não tinha uma carga poética,
gráfica ou formal para ela viver,
a não ser ligada com um fato para
um sujeito de outra cultura. Talvez a
grande virtude seja extrapolar as culturas.
Rosely: Existem alguns
episódios que podem deslocar no
tempo, por exemplo, a posse do Lula, que
é um evento de destaque; o 11 de
setembro, em que um episódio histórico
pode ser narrado por uma coletânea
de fotografias, que o tempo faz com que
elas fiquem fortalecidas. E uma das coisas
que se pode discutir é linguagem
do fotojornalismo, e não necessariamente
com a foto do dia. Já fizemos isso
na galeria e foi muito interessante, tudo
o que não entrou no jornal, o que
o fotógrafo faz e não é
visto. Ou o que ele faz entre uma foto
e outra. Fizemos isso com o Estadão:
o fotógrafo sai de uma foto para
outra e, nesse percurso, está com
a câmera. Olhávamos no contato
o que ele tinha visto, além do
que estava pautado. Mostra a dinâmica
do cotidiano dele, e essa rapidez, e essa
linguagem do fato, como ele está
raciocinando, como fotojornalista, mas
em um episódio que não tem
uma pauta cobrando.

Pisco Del Gaiso: Acho que o celular
com câmera digital, é o primeiro
aparelho que coloca a fotografia numa
condição de auto-consumo.
Já temos celulares de 5, 7 megapixels.
Esses aparelhos vão massificar
o universo da fotografia. Vocês
concordam? Acham que vai ter um impacto
grande ou é muito mais para o amador
e que isso não vai influenciar
no trabalho de vocês?
Diógenes: Eu só tenho medo.
Nada mais que isso. Até agora só
tive medo de um celular na minha frente...
A única coisa que posso falar é
isso.
Rosely: Colaboro com
uma ONG de antropólogos que trabalham
com índios da Amazônia. Sempre
me deixou muito perturbada o fato de que
eles não se interessam por fotografia,
eles gostam de fazer vídeo de si
próprios, e são trabalhos
maravilhosos, que é o trabalho
dos Vídeos nas Aldeias. Por que
o índio vai querer fazer fotografia
na aldeia se lá não tem
laboratório? Acho que essa revolução
da fotografia digital vai ser na revelação
de universos de criação,
em lugares muito remotos que não
vamos precisar de laboratório.
Vamos começar a ter uma produção
de imagens liberada desse aparato técnico,
que a fotografia sempre colocou necessário.
Não sei se por telefone, mas pela
internet. Já estou recebendo fotografias
feitas pelos índios, que eu nunca
tinha visto e agora estou vendo pela internet.
A tecnologia está ligando lugares
sem infraestrutura, que vai revelar um
mundo interessante. Não precisa
ficar com medo, não, acho que tem
coisa boa também.
 |
| Rubens
Fernandes Junior: "Não
devemos ter medo de nenhuma
ameaça tecnológica" |
|
Rubens:
Não devemos ter medo de
nenhuma ameaça tecnológica,
porque as tecnologias vão se sobrepondo,
e, à medida que vamos dominando
e incorporando essas tecnologias, as tratamos
com mais naturalidade. Temos que pensar
na quantidade de imagens que serão
geradas, e o que efetivamente vai ficar.
Ainda não temos conhecimento da
durabilidade dessas imagens. Em primeiro
lugar, acho que as imagens feitas por
novas tecnologias apenas atribuem um novo
status para as tecnologias anteriores.
E a produção dessas imagens
vão circular com tal velocidade
na rede que vão desaparecer como
somem os nossos e-mails. Às vezes
procuramos alguma coisa na caixa e some,
mas não sumi com eles, como desapareceu?
Então que memória estamos
produzindo? Estava pensando como iria
recuperar alguns textos que escrevi com
o Word 2, e aí não guardei
o meu Toshiba 1000, então não
posso recuperar o meu Word 2. Então
olha só a responsabilidade dos
museus, das bibliotecas, vai ter que reservar
todo um espaço, não só
para a produção da imagem,
mas para quem quiser pesquisar isso em
um futuro próximo, também
tem que ter, por exemplo, VHS, tem que
ter uma fita VHS, um aparelho VHS, um
televisor VHS, etc. Enfim, a cada evento
tecnológico novo não nos
deve assustar, mas devemos refletir sobre
o que acontecerá com a memória
produzida com esse suporte.
Brandão: Pode
parecer meio macabro, mas acho que a questão
da fotografia permeia a morte. O homem
não agüenta o fato de passar
por aqui e não ter a sua marca.
A fotografia veio para preencher essa
lacuna e nunca nos abandona nisso. O homem
fica criando elementos para que seja lembrado
constantemente. Depois do celular vai
vir outra coisa, e outra coisa, que vai
deixar uma imagem, que nada mais é
que uma pegada dele aqui. No fundo é
uma ansiedade de você perpetuar
o tempo que você fica aqui. Vamos
criar todas as ferramentas necessárias
para aumentar o nosso tempo aqui, não
tenho dúvida disso. As primeiras
fotografias foram de mortos, neguinho
só tirava fotografias de gente
morta. Porque ele vai embora, entendeu?

Platéia: Minha
dúvida é, qual o trabalho
final de um fotógrafo? É
o negativo, do qual podemos fazer um outdoor
ou uma foto pequena, vender em uma moldura
vermelha ou amarela? O que vale? O que
é o trabalho final do fotógrafo
na hora que você está falando
de arte?
Rosely: Acho que a fotografia
tem uma flexibilidade muito rica em relação
à arte tradicional, justamente
por você ter um negativo e ele não
é a sua matriz. A matriz depende
do que você faz com o negativo.
E você pode reproduzir 500 vezes,
de tamanho variado. Agora então,
com a fotografia digital, você pode
fazer do tamanho de um outdoor ou do tamanho
de uma cabeça de alfinete com a
mesma resolução. A galeria
e os museus têm um papel, acho que
mais do que vender, de divulgar, dar visibilidade
para uma produção que tem
essa flexibilidade.
 |
| Diógenes
Moura: " O museu vai até
um determinado ponto, mas realmente
precisa de patrocínio" |
|
Diógenes:
No meu caso particularmente, por trabalhar
na Pinacoteca, o que importa é
o resultado que a fotografia vai ter,
a forma como ela é produzida, e
a forma que o fotógrafo, junto
comigo, no caso, vai expor dentro de cada
espaço. Muitas vezes o trabalho
do próprio fotógrafo é
muito longo, existem algumas particularidades
que o museu oferece, e outras não.
Não existe um orçamento
que você vá lá, apresenta
o seu material e o museu possa bancar
tudo, é um longo tempo de busca
de parceria. O museu vai até um
determinado ponto, mas realmente precisa
de patrocínio. Temos uma vantagem
que é a montagem pela equipe do
museu. Já montei exposições
em outros museus, o fotógrafo teve
que comprar a tinta e pagar o iluminador.
Brandão: Quem decide o
que é arte é o artista.
Depois você corre atrás do
que o cara definiu. Não tem regras.
Dentro da galeria tem várias ações.
Tem artista que faz tiragem de um e é
super criticado, porque como você
tem um negativo e faz uma apenas ampliação.
E aí o sujeito responde para que
fazer duas, a hora que eu faço,
vejo, e na hora que vejo está pronto,
por que ficar repetindo um gesto? Por
outro lado, tem tiragem de três,
de cinco. Tem a Cláudia Andujar,
que não tem tiragem, ela vai e
assina, cada fotografia é uma obra,
é uma imagem, ela vai tomar conta
daquilo outra vez. Tem regras internacionais,
quer dizer, posso chegar e falar: olha
o tamanho é... Mas é o tipo
do papo que não leva a nada. Vi
muita produção sendo feita,
dando aula, e sempre acreditei que isso
tinha que chegar ao grande público.
Nunca tive vontade nenhuma de ser galerista,
sempre foi um sonho ser fotógrafo.
Então a galeria vem de um amadurecimento
de uma escola que tive antes, uma escola
que tinha vários alunos, mas no
final do mês, quem bancava tudo
era eu. Achei que não fazia nenhum
sentido ficarmos ali conversando sobre
uma produção cultural, cultura
pertence à população,
se ela fosse boa, a sociedade teria que
bancar. Nós não vivemos
em uma cidade que tem dinheiro dos setores
governamentais para bancar isso, então
decidi ver se existia um mercado para
imagem. A galeria só tem dois anos
e meio, e se mantém. Tem uma estratégia
sim, acreditei que teria que fazer isso
acessível ao maior número
de pessoas, e obviamente tentar ter um
custo, em determinado momento, que também
não sei decidir o que é
um custo de uma obra de arte. Não
consumir na exposição, mas
consumir para levar para casa. É
isso o que eu acho mais importante, a
convivência com a obra de arte,
o que você pode proporcionar para
o seu filho, entendeu? É cultura,
é ele conviver com cultura. Resumindo,
estamos tentando ver se existe mesmo um
mercado, mas eu acredito que sim, porque
a produção está aí,
e não tenho dúvida de que
tem boas fotografias. As pessoas entram
na galeria e perguntam se tem pintura,
depois escultura, depois fotografia. Eu
jamais daria conta, em uma galeria, de
representar artistas, porque chega muito
trabalho que eu gostaria de representar,
mas não teria como, infraestrutura,
ficaria demais. Agora, só garante
mais se tiver um mercado, porque senão,
quem vai ficar pagando tudo isso?


Marcelo Greco: Acho que
tem poucas pessoas escrevendo, analisando
as exposições. Quando vou
a uma exposição, aprendo
muito. E se houvesse mais crítica,
acho que todo mundo aqui estaria sabendo
muito mais o que estamos discutindo.
Juan Esteves, 47, fotógrafo,
na platéia: Também
tem o fato de que a maioria dos fotógrafos
não aceitarem a crítica
com o seu trabalho. A maioria considera
seu trabalho acima de toda a crítica.
Nós não temos a cultura
da crítica de fotografia.
Rubens: Acho que a crítica
perdeu espaço na mídia impressa,
não tem jeito. Eu me lembro que
fiz um rápido exercício
na Folha de S. Paulo, entre 87 e 93, e
quando mudou a editoria da Ilustrada,
a nova editora, a Marion Strecker, me
chamou e disse assim: ‘você
não quer escrever sobre vídeo?’.
Falei: ‘não, gostaria de
continuar escrevendo sobre fotografia’.
Isso foi a minha última colaboração
no jornal, e nunca mais abriu-se um espaço
naquela época para se falar de
fotografia com essa característica.
E tinha sido todo um trabalho anterior,
em O Estado de São Paulo, pelo
Boris Kossoy; também pela Stefania
Bril, no Jornal da Tarde; com o Moracy
de Oliveira, na própria Folha;
pelo Fernando Lemos, enfim, tinha um exercício
interessante na década de 70 e
80, que propiciava uma certa continuidade
nessa questão. Mas infelizmente,
com o avanço tecnológico,
que já vimos que está presente
no fazer da fotografia, também
ele adentrou nas máquinas operadoras
de jornal. Hoje chegam para escrever de
uma exposição, ou de um
filme, ou de um artista de televisão,
não importa o que se diz, o que
importa é que você tem 3
colunas e uma ilustração.
Dificilmente você pega no jornal
uma página bem produzida. Você
tinha nos idos dos anos 70 o complemento
literário n’O Estado de São
Paulo, em que tinha crítica de
literatura, de teatro, de música,
de fotografia, de cinema. Era um aprendizado
semanal. E o que você vê hoje
no jornal são comentários,
breves comentários, ou pinçar
frases de releases para colocar, com raríssimas
exceções, que vemos hoje.
Assim, os trabalhos do Eder Chiodetto,
do Juan Esteves, da Maria Hirzman, são
regulares e que estão tentando
resgatar uma leitura crítica de
imagem.
Thomaz Farkas: Deixa
só eu falar uma coisa. Acho que
o que mais me pega é o sentimento.
A fotografia me comunica um sentimento,
não precisa explicar. Não
tem técnica, não tem explicações,
é o sentimento que você sente.
Muitas vezes eu estou em frente a 10,
20, fotógrafos e dois ou três
não falam comigo. É uma
questão de sentimento. Para mim
a palavra curadoria é uma palavra
tão estranha, para mim é
alguém que cura, eles estão
curando alguma doença, alguma coisa
um pouco mais complicada. Mas não
tenho nada contra. Adoro a palavra de
fazer coisas, de ajudar, isso é
maravilhoso. Quanto ao fato jornalismo,
nós na ECA, quando demos aula de
fotografia, levávamos muita fotografia
de fotojornalista, muita fotografia excelente,
de fotógrafos principalmente do
Correio da Manhã. Nunca me esqueço
de uma reportagem feita por um fotógrafo
sobre o caçador de cachorro. É
uma coisa emocionante. Você olha
aquela reportagem, com 5, 6 fotos, e chora,
quando vê os meninos querendo proteger
os cachorros e o cachorro sendo laçado.
Então são coisas de emoção.
Não consigo criticar, consigo sentir.
É a única coisa que consigo
fazer. Mesmo na Pirelli, quantas brigas
nós tivemos e fazemos sobre o que
é fotografia, como é que
é, como é que não
é. Eu digo: ou sinto ou não
sinto. Não consigo exprimir de
outra forma. Vocês me perdoem, não
consigo analisar, não consigo dizer
como é que tem que ser, como é
que não tem que ser, conceitos
assim. Não sei o que é isso.
Falo com o meu coração,
meu sentimento, mas é a única
coisa que eu posso colaborar com vocês.
Talvez não adianta, mas é
isso aí (aplausos).
Diógenes: Todas as vezes
que me perguntam sobre essa questão
de curadoria e dou essa resposta de Thomaz,
imediatamente sou considerado menos intelectual.
Ou seja, você tem sentimentos, passa
a ser burro automaticamente.
| COLUNAS
- Cristiano Mascaro e Juan Esteves |
 
Por Cristiano Mascaro
O debate promovido pelo Fotosite
entre curadores e um imenso e interessado
público no último dia 30,
na Fnac Paulista, foi um enorme sucesso.
No entanto, são tantas as questões,
interpretações e contradições
que rondam atualmente a linguagem fotográfica
que saí de lá com a sensação
de que há ainda muita coisa a ser
discutida com a profundidade que ela merece.
Por exemplo, um dos temas mais controversos
atualmente no universo da fotografia é,
certamente, o impacto da tecnologia digital
que se abate sobre ela. “Estamos
no olho do furacão”, disse
certa vez Eder Chiodetto, com quem concordo
apenas em parte pois, se por um lado não
há dúvidas de que a fotografia
digital provoca infindáveis discussões,
veio para ficar e vai influir expressivamente
na maneira do fotógrafo lidar com
o mundo; por outro, o que mais se assemelha
a um rodamoinho, não é esta
ou alguma outra novidade tecnológica,
mas a atuação cada vez mais
presente, e por muitos considerada indispensável,
de curadores junto à produção
dos fotógrafos. E sobretudo, uma
nova conceituação definida
por estes profissionais do que vem a ser
“fotografia contemporânea”.
Mas vamos por partes. Não há
como negar a importância do papel
dos curadores, profissionais que atuam
há tempos, muitas vezes com outras
denominações, no mundo das
artes. Originalmente oriundos do meio
acadêmico (historiadores da arte,
pesquisadores) e do jornalismo (críticos
de arte, editores) cumpriam e muitos ainda
cumprem o papel fundamental de, diante
da imensa produção artística
passada e contemporânea, revelar
ao público, de forma didática
e criativa, as inúmeras maneiras
de se observar a obra de um ou mais artistas.
Sem mencionar o papel fundamental que
desempenham como mentores de coleções
privadas e de museus. Exemplos que me
marcaram não faltam. Lembro-me
da exposição O erotismo
na coleção da Pinacoteca,
realizada por Ivo Mesquita; do trabalho
de Ana Beluzzo, Brasil dos Viajantes,
extenso levantamento de como o país
foi retratado pelos artistas que por aqui
aportaram nos últimos séculos,
e por aí vai. Na fotografia o caso
mais emblemático, para citar um
exemplo pioneiro, é, sem dúvida,
The Family of Man, grande exposição
com imagens realizadas por fotógrafos
do mundo inteiro com a curadoria de Edward
Steichen para o Museu de Arte Moderna
de Nova York em 1955.
Hoje, no entanto, as coisas mudaram. Há
uma corrente de curadores que se auto-nomearam
verdadeiros personal trainers de fotógrafos.
A eles, parece não mais bastar
a reconhecida atuação como
coordenadores de projetos, indispensável
para a divulgação e compreensão
da obra dos artistas. Tornou-se necessário
um aconselhamento permanente, ombro a
ombro, ou melhor, tête à
tête, durante o próprio processo
de criação. Para que o fotógrafo,
supostamente aquela pessoa incapaz de
tocar seu próprio trabalho, não
se perca e acabe tropeçando em
suas próprias pernas. Só
ainda não tenho idéia se
é necessário, igualmente,
a presença de um divã.
Sinceramente, não consigo imaginar
nenhum artista submetido a este processo.
Até porque são suas dúvidas,
suas incertezas e fundamentalmente seus
conflitos que impulsionam suas obras.
O que não o impede, absolutamente,
de buscar um diálogo permanente
com outros artistas ou quem quer que seja,
na medida em que isto não se torne
uma relação profissional
o que, certamente, resultará em
conseqüências nefastas. De
fato, há curadores que trabalham
para instituições como museus,
centros culturais, universidades, etc.
e que por esta razão podem atuar
sem nenhum constrangimento. Há,
no entanto, outros, ligados diretamente
a instituições que comercializam
obras de arte, o que faz com que, inevitavelmente,
tenham seus olhos voltados para o mercado
e isto é mortal. Não, evidentemente,
para os bons negócios, mas para
a alma do artista.
Não bastasse isto, há no
ar um conceito “da hora” que
define o que é contemporâneo
como sendo a “fotografia contaminada”,
aquela que é o resultado da utilização
pelo artista plástico-fotógrafo
ou fotógrafo-artista plástico
de diversos meios de expressão
além da própria fotografia.
Estes são os trabalhos atualmente
considerados pelos curadores como a vanguarda
e o futuro da imagem fotográfica
em detrimento da fotografia, digamos assim,
convencional, considerada um modelo esgotado.
Não devemos estranhar. Historicamente,
algumas vezes a fotografia passou por
este processo como conseqüência
da necessidade de alguns fotógrafos
desejarem ser reconhecidos como artistas,
o que resultou no chamado Movimento Pictorialista.
No final do século XIX, muitos
deles, inconformados com o excessivo realismo
de suas imagens ou incapazes de criar
algo novo, expressivo e pessoal com os
parcos recursos de uma câmera (e
é aí que está o “x”
da questão), borravam seus negativos
transformando suas fotografias em verdadeiras
pinturas impressionistas. Foi necessário
o aparecimento de Alfred Stieglitz, Paul
Strand e de alguns outros fotógrafos,
todos munidos de anticorpos o suficiente
para não se deixarem contaminar
pelo retrocesso, para que a fotografia
assumisse seu verdadeiro papel revelador.
Entendo que a época era outra.
Afinal o pictorialismo teve seus momentos
de glória, um tanto opaca, é
bom frisar, há mais de cem anos
e talvez o paralelo seja considerado improcedente.
Mas as razões que têm movido
alguns adeptos açodados da vanguarda
a satanizar a fotografia pura e simples
permanecem as mesmas. A história
se repete com a admiraç&atild
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