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Por Simonetta
Persichetti e Juan Esteves (fotos)
Aos 65 anos e 40 de carreira, Ralph
Gibson tem na fala a tranqüilidade
de quem já elaborou alguns
conceitos e nos olhos a curiosidade
que transparece nas suas imagens.
Sempre com sua Leica em punho, a cada
pergunta ele se perde numa série
de reflexões e nos leva com
ele pela sua linha de pensamento.
Uma viagem pela filosofia, pela semiótica,
pela construção da imagem,
para chegarmos ao resultado de perceber
que o que vale mesmo é o registro,
a fotografia e todo o resto na verdade
é o resto...
Ralph Gibson veio a São Paulo
a convite da Leica para ministrar
um workshop para fotógrafos.
Bem-humorado, ele recebeu a equipe
do Fotosite com exclusividade na sexta-feira,
dia 8, para um bate-papo.
Fotosite: O senhor
começou muito cedo, aos 20
anos, como assistente da Dorothea
Lange e em seguida trabalhou com o
Robert Frank. Como foi isso?
Ralph Gibson: Na
verdade tive muita sorte. Comecei
nos anos 60, e lembre-se que nessa
época estávamos todos
obcecados pela técnica. Eu
sabia a técnica fotográfica.
Todo mundo ficava estudando técnica.
Durante algum tempo também
freqüentei a escola de arte até
ser convidado para trabalhar com a
Dorothea Lange. Aliás fui convidado,
justamente porque era muito bom tecnicamente
falando. Para minha surpresa, a primeira
coisa que descobri e que ela ao contrário
não era muito boa em técnica
e que a força da sua fotografia
estava muito mais no seu desejo de
expressar algo do que na qualidade
de seus negativos. Trabalhar para
Lange foi uma experiência muito
interessante. Às vezes
passávamos o dia inteiro no
laboratório trabalhando num
mesmo negativo e de repente usando
apenas sua intuição
ou seu lado emocional ela dizia: "essa
é uma boa foto".
Nunca sabia como havíamos chegado
a tal resultado e nem porque as outras
fotos não eram boas, mas sabia
apontar a certa, porque estava cheia
de emoção.
Lembro de uma vez em que estávamos
vendo uma imagem de uma menina com
olheiras e pedi para ela me contar
a história da menina. Ela me
respondeu que não era uma jovem,
mas uma criança portadora de
deficiência mental e que as
outras crianças costumavam
atormentá-la. Enquanto ela
me contava a história começou
a chorar. Eu a vi chorando
sobre uma foto que havia feito há
30 anos. Essa foi para mim
a maior lição sobre
a importância do conteúdo
de uma imagem e não da forma.
A forma é a qualidade do negativo,
o conteúdo é o que diz
a fotografia. Ao mesmo tempo comecei
a trabalhar para o Robert Frank. Todos
os fotógrafos da minha época
eram fascinados pelo seu livro "The
Americans". Novamente me encontrei
frente a um trabalho técnico
não tão bom. Aí
pensei que todos os grandes fotógrafos
tinham negativos ruins (risos).
Fotosite: O que ficou
dessa experiência, como o fotodocumentarismo
o influenciou?
Ralph Gibson: Ficou
que sempre gosto de colocar minha
alma frente à técnica.
Freqüentemente eu primeiro
faço a foto e depois verifico
se a exposição estava
correta ou não. Muitas vezes
descubro que meus erros são
mais interessantes que os meus acertos,
ou que a minha exposição
correta...
Fotosite:
Talvez porque não
sejam erros, visto sua formação
técnica....
Ralph Gibson: Veja.
Isso que eu falei é importante,
porque os artistas podem aprender
com seus erros, aliás eles
aprendem com seus erros e isso é
interessante pois errar não
é permito a um engenheiro ou
a um neurocirurgião.
Fotosite: Muitas
vezes suas imagens são catalogadas
como surrealistas. O senhor concorda
ou gosta dessa definição?
Ralph Gibson: Houve
um tempo, quando era jovem, que era
muito fascinado pelo aspecto visual.
Hoje em dia esse aspecto do surrealismo
já não me interessa
tanto, estou mais preocupado na posição
intelectual do movimento. Existem
muitos "ismos" nas artes:
impressionismo, cubismo, modernismo,
etc. Mas, para mim, o surrealismo
parece ser o único "ismo"
que é também uma filosofia.
Não penso muito nisso hoje
em dia, mas sem dúvida ainda
é possível encontrar
algumas particularidades surrealistas
em meus trabalhos. Quando
você trabalha há tanto
tempo como eu, não tem mais
essa preocupação de
saber o que falam ou não do
seu trabalho.
Fotosite: Além
de fotografar, o senhor gosta muito
de escrever. A palavra é muito
importante para o senhor. Como se
dá a ligação
entra as duas?
Ralph Gibson: Uma fotografia
não vale mil palavras, mas
é uma palavra. O estudo
da semiótica em diferentes
culturas nos permite entender como
a fotografia fala. Ela pode não
ser uma linguagem articulada, mas
é muito eloqüente, assim
como a música.
A palavra é interessante porque
uma vez criada por uma cultura ela
não muda, está lá.
No entanto culturas diversas chamam
o mesmo objeto com nomes diferentes.
O mesmo princípio pode ser
aplicado à nossa sintaxe visual,
ao nosso vocabulário ou gramática
visual. Uma vez a Dorothea
Lange me falou que a única
expressão universal é
o sorriso. Para fotografar,
para ter acesso aos lugares, precisamos
ter a postura e entender a cultura
local. Esta é a quarta vez
que venho ao Brasil. Antes para mim
ele era um lugar, agora já
é um sentimento e percebo que
posso fotografar qualquer coisa que
eu queira.
Fotosite: Mesmo hoje
com a quantidade de informação
visual que temos é possível
fotografar qualquer coisa que se queira....
Ralph Gibson: Eu
posso interpretar sua pergunta de
várias maneiras. Mas essa é
a típica questão que
não me coloco, porque não
tenho tempo. Tenho quase 65 anos e
se eu tiver mais 15 ou 20 pela frente
serei um homem de sorte. Os últimos
20 anos passaram muito rápido.
Eu sigo um conceito sócio-antropológico
que aprendi há muito tempo,
chamado de "primeira visão",
ou quem sabe de "primeiro impacto".
Isso é a forma como você
vê as coisas pela primeira vez.
Eu sempre procurei ao longo da minha
carreira manter essa característica.
Nunca quis ser corriqueiro. Não
tenho apartamento em Paris ou Roma.
Sou um turista perpetuo. Isso faz
parte da minha técnica.
Fotosite: Ser um
flaneur perpetuo...
Ralph Gibson: Isso,
sempre flanar. Anos atrás tive
um problema no joelho, estava prestes
a completar 50 anos e fiquei deprimido
com a possibilidade de perder essa
possibilidade de flanar pelas cidades,
de deixar meu olho se surpreender.
Fotosite: O senhor
fotografa em cores e pb, mas existe
um grupo aqui em São Paulo
que afirma que a fotografia pb não
é contemporânea. O que
o senhor acha disso?
Ralph Gibson: Ser
contemporâneo ou não
é algo que você se preocupa
quando é jovem ou quando que
marcar alguma posição.
Houve um tempo em que eu também
queria ser avant-garde, estar no topo.
Mas você não pode ser
de vanguarda sem uma posição
estabelecida. Ela é uma coisa
relativa à outra coisa. Provavelmente
quem afirma tais coisas procura uma
satisfação fácil.
A verdade é que a realidade
é colorida e fotografar em
preto e branco requer um outro nível
de abstração.
Ao mesmo tempo você tem mais
drama. O grande desafio é fazer
uma foto colorida que tem tanto poder
quanto uma foto em preto e branco.
Discuto muito isso com o Cartier-Bresson.
Ele por exemplo abomina a fotografia
colorida. Eu não sou tão
radical. Fotografo em preto e branco
e colorido. Para mim a fotografia
é como a eletricidade. Sabemos
como usá-la, mas não
sabemos exatamente o que é.
E eu ainda me divirto com ela. Eu
não quero fazer fotografias
eu quero fazer A fotografia. Gosto
de pensar que um dia vou encontrar
um novo tema.
Fotosite: O senhor
estudou numa escola de artes. Aqui
em São Paulo temos uma Faculdade
de Fotografia, onde aliás eu
ensino. O que o senhor acha da formação
para fotógrafos?
Ralph Gibson: Você
deveria ter me dito isso antes! (risos).
Obviamente você precisa aprender
os fundamentos do meio e a história
do meio. E isso evidentemente leva
algum tempo. Eu acho que um
grande fotógrafo é alguém
que tem muita cultura, no sentido
que essa palavra tinha no século
XIX. Mas isso não
se dá para um jovem de 19-20
anos que está interessado em
estudar fotografia. Então,
você começa por ensinar
a técnica e uma vez que eles
entendem como o meio funciona, eles
vão ter o desejo de produzir
alguma coisa maior. Aí sim
eles vão querer ampliar seu
conhecimento.
Fotosite: Então
a escola e a formação
são importantes?
Ralph Gibson: Claro.
Os franceses falam em "formação
perpétua". Eu ainda estou
aprendendo.
Fotosite: O que o
senhor conhece da fotografia brasileira?
Ralph Gibson: Conheço
alguns fotógrafos e acho todos
muito bons. Miguel Rio Branco, por
exemplo. Mas tenho visto também
muito o cinema brasileiro, "Madame
Satã", "Cidade de
Deus", "Central do Brasil"
e o que vejo nesses trabalhos é
que os brasileiros são muito
passionais. Parece o começo
do neo-realismo italiano. Acho
o Brasil muito forte na imagem documentária.
Fotosite: Então
podemos dizer que existem diferenças
entre a fotografia
latino-americana, a americana e a
européia....
Ralph Gibson: Isso
é o que podemos chamar de uma
pergunta retórica. Você
me pergunta se sim ou se não.
Conheço esse truque (risos).
Eu diria que a fotografia reflete
a cultura quando o fotógrafo
quer que isso aconteça. Ao
mesmo tempo, acho muito difícil
fazer uma foto que não reflita
a cultura. Você pode dizer que
Lee Friedlander é um fotógrafo
norte-americano, mas não pode
dizer o mesmo de mim. Eu apenas moro
lá.

Fotosite:
Sim, mas existem diferenças
de luz....
Ralph Gibson: A luz
é sempre perfeita. Qualquer
clima também é perfeito.
Algumas coisas existem no absoluto.
Se afirmamos que toda luz
é boa, então a questão
é como trabalhar com ela. Ou
você a controla ou você
se submete.

Fotosite:
E quanto aos formatos, você
trabalha com a Leica, na verdade com
um único corpo e uma única
lente....
Ralph Gibson: às
vezes dois corpos e duas lentes, quando
quero também fotografar colorido.
Mas vamos lá. Comecei aos 20
anos fotografando com câmeras
de grande formato 8X10. Com o tempo
fui percebendo que estava mais interessando
em sentir do que simplesmente olhar
para alguma coisa. Tentei minimizar
todas as interrupções
do ato de ver e queria uma câmera
que se incorporasse ao meu ser, fosse
uma extensão do meu corpo,
que eu pudesse de alguma forma esquecer
da sua existência. Não
queria trabalhar com vários
formatos. Decidi por um. Hoje,
basicamente ando pelo mundo só
com uma câmera, uma lente 50
mm e muitos filmes. Acho que é
só disso que precisamos.

Tradução
Mônica Nagelschmidt
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