fotos por Cris Ameln
"Os fotógrafos Miro, Bob Wolfenson, Daniel Klajmic, a editora da revista Elle, Jussara Romão, o diretor de estilo e criação da Osklen, Oskar Metsavah e a modelo Sabrina Gasperin falaram para uma platéia de 150 pessoas, que lotou o auditório da Fnac Pinheiros, em São Paulo, no último dia 19 de abril. O encontro também marcou os cinco anos do FOTOSITE e o lançamento da quinta edição da REVISTA FOTOSITE.
A conversa foi além das discussões técnicas inevitáveis nos dias de hoje, como fotografia convencional x digital. Gerou polêmicas, idéias, sugestões e, ao final, uma saudável discussão. E a conversa foi quente, passando por temas como a crise do mercado. e terminando com questões e opções para integrar mais o trabalho de cada um desses elos – fotógrafo, editor, estilista e modelo – para se obter um produto da moda mais consistente. Acompanhe a íntegra do encontro.

Jussara Romão – Boa noite, para quem não me conhece, trabalho há dez anos na revista Elle, comecei como assistente de produção e, há cinco anos, sou editora de moda da revista. Esta reunião aqui, pra nós, é diferente porque não estamos acostumados a falar em público, mas acho que vai ser interessante, porque a gente está aqui com o melhor da fotografia, sem desmerecer os que não estão aqui, mas grandes fotógrafos, Miro, Bob, o Daniel, o Oskar, que é o dono da Osklen, vocês devem conhecer, e a Sabrina, que vem representando o outro lado, que é um trabalho conjunto, as modelos. Estamos aqui com boa parte de um trabalho em conjunto, que é editoria de moda, enfim os editoriais de moda. Para começar, eu queria puxar este assunto do digital, que eu sei que alguns fotógrafos relutam e resistem a esse novo mercado da fotografia que é a máquina digital, a fotografia digital. Eu queria saber a opinião de todos aqui sobre esta nova fórmula de fotografar a moda, que está dominando e muitos estão começando por isso, então eu queria saber a opinião de cada um, Bob.

"O que importa na fotografia de moda, pra mim, é uma sintonia de desejos, o desejo do fotógrafo, o desejo da editoria, o desejo da modelo, que também está ali representando um papel, é uma equação, o maquiador que também está lá se expressando, tudo isso resulta em uma boa fotografia de moda"
Bob Wolfenson – Eu não acho isso uma questão. O que importa na fotografia de moda, pra mim, é uma sintonia de desejos, o desejo do fotógrafo, o desejo da editoria, o desejo da modelo, que também está ali representando um papel, é uma equação, o maquiador que também está lá se expressando, tudo isso resulta em uma boa fotografia de moda. O David Bailey, fotógrafo inglês dos anos 60, dizia que uma boa fotografia de moda é, antes de tudo, uma boa fotografia, uma boa imagem, uma imagem que evocasse, que provocasse, que cativasse, e você saberia que era de moda quando tivesse os créditos em baixo e os preços ou as coisas que são referentes à fotografia de moda. Quanto à questão do digital, eu não uso digital, mas também não tenho nada contra, é uma questão só de adaptação, porque isso é inexorável, não há como fugir, é como dizer assim, sou contra o cinema, sou contra o vídeo, sou contra… O que importa não é o meio que você usa, é o resultado, o que importa é o que está lá impresso na revista, se ele foi feito no digital, com câmera subaquática, com câmera Kodak, o que for. Eu acho que isso não é importante. Para cada sujeito que está usando a fotografia como forma de expressão o canal que ele quiser, ou o veículo que ele quiser usar, se ele conseguir passar a mensagem dele, e contemplar também a editoria, eu acho que isso não é tão importante.

Miro – Vou passar para o Daniel que é mais jovem, pode falar.

"Tecnicamente, tem processos que a gente sabe, gosta de usar e tem contato lá de antigamente, que nem se usa mais, reprodução de cromo, internegativo direto, cibachrome, tem quinhentas coisas, a fotografia sempre foi meio infinita, e, particularmente, toda esta alquimia da fotografia sempre me atraiu"
Daniel Klajmic – Eu acho que o Bob está certo, e eu só queria adicionar o que a Jussara também falou, que é quem está começando a ter contato com a fotografia. Eu tive contato com uma série de pessoas que estão começando a fazer assistência ou com estúdio, aluguel, com contato com uma galera que está querendo fotografar profissionalmente. O que me preocupa na formação destas pessoas, hoje em dia, porque mudou muito, quer dizer, tem cursos hoje em dia que são sensacionais, mas não estão dando mais tanta ênfase no analógico, né? No filme mais. Já estão ensinando você a lidar com o back digital, com a câmera tal, com o software tal, com o computador tal. Tudo bem, é legal, mas acho que eles deveriam coexistir, porque senão não vai se renovar a geração.
Tecnicamente, tem processos que a gente sabe, gosta de usar e tem contato lá de antigamente, que nem se usa mais, reprodução de cromo, internegativo direto, cibachrome, tem quinhentas coisas, a fotografia sempre foi meio infinita, e, particularmente, toda esta alquimia da fotografia sempre me atraiu. Eu fico com um pouco de pena de achar que isso está ficando esquecido e não está coexistindo, se fosse coexistir seria legal, mas em prol de um o outro, fica mais difícil achar filme, fica mais difícil fazer serviço fotográfico, entrar em contato com muita coisa. De uma certa forma, mercadologicamente falando, aí entra a parte de editoria de moda, que a revista tem prazo, a editora já se acostumou e já quer meio formar custo. A gente tem um problema no Brasil de custo, que o fio condutor de tudo acaba sendo custo aqui, e a fotografia tradicional perde, porque não tem como comparar o custo de uma com a outra, né? Então essa é uma preocupação, de perder o acesso às coisas e a nova geração nem chegar a ter conhecimento destas coisas. Acho que quem já conhece está ficando inviável, e de repente a galera nova nem sabe do que eu estou falando que está ficando inviável. Agora, fora isso, é que nem falar que o cinema vai sumir depois que chegou o vídeo, etc. e tal, né? Acho que isso é progresso, vai acontecer e vai achar o seu espaço. Eu só gostaria de ter certeza de que a fotografia como ela é vai continuar, porque é o que eu gosto.

Miro – Eu concordo com você, hoje está em falta no mercado instantâneo 4 x 5 da Fuji, Polaroid não existe mais porque fechou, está em falta até na Fuji, isso quer dizer que eles vão voltar daqui a pouco e vão aumentar o preço, isso é o mercado. As minhas referências de fotografia são Avedon (www.richardavedon.com), Helmut Newton, Sarah Moon, o que eu sei é que Helmut Newton a vida inteira tinha um laboratorista só pra ele, que só revelava os filmes dele. Tem detalhes de sofisticação que vão se perder. Eu, na verdade, gostaria de poder viver mais tempo ainda pra ver o que vai resultar da fotografia digital, que a gente está começando a viver hoje. Tenho algumas dúvidas, porque estamos em um processo de aceleração de internet, por exemplo, a partir do momento que alguém compra uma câmera digital, no dia seguinte já se diz fotógrafo. É um tremendo perigo pra própria pessoa que comprou a câmera, porque está muito distante do que está acontecendo hoje. É só isso que gostaria de falar sobre digital. Não acredito muito não (risos).

Jussara Romão – Não vê um futuro?

Oskar Metsavaht – A primeira coisa, não sou fotógrafo, mas gosto de fotografia. Com certeza existe a diferença entre o resultado da fotografia digital e com a película. A película encanta muito mais visualmente ainda do que o preocesso digital. Acho que cada uma tem seu espaço. O digital trouxe a praticidade e a economia. Por exemplo, quando eu acompanho um fotógrafo para fazer nosso catálogo, nossa campanha, como eu faço a direção de criação, sou eu que edito os catálogos das nossas campanhas, e uma coisa que eu gostei quando trabalhei com fotógrafo que fez com digital era realmente poder repetir a foto, sabe? Não esperar o resultado final, porque depois, na hora de editar, não tem aquela chance de voltar e fazer aquela foto que faltou.

Bob Wolfenson – Isso é horrível para o fotógrafo (risos).

Oskar Metsavaht – Eu sei disso, o que brigo com fotógrafo, ô! Vou colocar isso em debate. Acho que o fotógrafo é um artista e o estilista de uma marca também é. Quando a gente começa com uma coleção tem um conceito, né? E eu já comecei coleção minha pensando no catálogo, lá na foto, lá no final. Então é um processo que envolve um todo, não só fazer a coleção, as roupas, e sim todo um conceito de uma coleção. O processo criativo de fotografia, de campanha de moda, de campanha conceitual, de marca e tudo, tem que ser um trabalho realizado junto. O fotógrafo tem que estar naquele momento junto até, a partir do primeiro briefing inspiracional, o fotógrafo estar desenvolvendo junto a coleção toda, daí tem a harmonia. Eu entendo isso, claro, o problema do processo digital é esse, mas quantas vezes eu tive fotos maravilhosas, lindas, que eu quero ter na minha casa, no escrtório, mas às vezes não contou aquilo que você queria contar, porque a coleção tem seu conceito. Então o processo de realizar com a digital, às vezes até de uma forma comercial, faltou aquele cinto, podia ter isso, este acessório aqui a mais na roupa, já foi, depois que a foto foi feita, maravilhosa, artisticamente muito bem feita. Na hora de editar o catálogo não fica coerente, às vezes por falta disso. Estou defendendo a digital por isso, mas jamais trocar. Eu acho que um trabalho artístico com a fotografia de película, com certeza quem tem um olho apurado nota a diferença. Eu acho o encantamento, o glamour da fotografia tem que pertencer à película. A praticidade e a economia à digital, com certeza.

Sabrina Gasperin – Eu não tenho todas estas informações técnicas, mas pra mim a diferença é como o vinil e o CD, o charme da coisa. Para o meu trabalho, reparo que os fotógrafos usam mais a digital quando é um trabalho mais rápido, um catálogo que não é é aquela campanha incrível, tem que ser mais rápida.

Miro – Se brigou muito pela fotografia de moda no Brasil. Pra mim, o exemplo máximo
de se brigar pela fotografia de moda no Brasil, e eu acho que a gente conseguiu um monte de coisas inclusive Bob, Duran, Daniel, fazer as coisas mais bem remuneradas, mais bem pagas por todo o processo que se tem, de estúdio, de assistente. Está se passando por outro processo, fazendo com que o nosso, que é uma coisa um pouco mais complexa e um pouco mais cara, caia junto com toda esta coisa digital. Não é um debate sobre a fotogrfaia de moda, é a fotografia. E a moda se utilizar disso, tudo bem, mas por exemplo, o Terry Richardson que faz foto instantâneas, tem referências de fotógrafos que usavam máquinas 20 por 25. Então, acho que a digital, talvez daqui a 40 anos seja alguma coisa. Hoje, para o nosso mercado do dia-a-dia está balançando um monte de coisa. Você concorda?

"O que acontece hoje em dia é que o trabalho, principalmente de publicidade, eu nem falei de fotogrfaia de moda para revista, mas a publicidade de moda e a publicidade geral, ela virou um Frankstein, o fotógrafo não é mais um fotógrafo, ele é um catador de coisas"
Bob Wolfenson – Eu não sei, eu não penso nisso. Entendo o que você está falando, tem uma coisa que barateou muito o trabalho, ele ficou mais fácil … O que acontece hoje em dia é que o trabalho, principalmente de publicidade, eu nem falei de fotogrfaia de moda para revista, mas a publicidade de moda e a publicidade geral, ela virou um Frankstein, o fotógrafo não é mais um fotógrafo, ele é um catador de coisas. É gincana, você vai lá e pega uma coisa aqui, pega outra coisa ali, outra coisa ali, fotografa isso aqui, mesmo que você não fotografe digitalmente, eles vão juntar tudo digitalmente. Então você vai lá para Fernando de Noronha fica esperando o sol, na hora certa, com a luz certa, a inclinação certa e o cara vai pega o seu fundo, coloca outro, vira o morro do outro lado, eu estou falando isso porque tem uma foto minha da Claro que aconteceu exatamente isso, ele virou o morro do lado contrário, mudou a cor do fundo, pegou a foto que eu tinha feito sem sol, e enfiou um sol, e eu não tenho nada a ver com isso (risos). Eu não sou mais o dono desta foto, não sou mais autor aí, eu sou um catador de coisas. Fui lá e peguei um monte de franksteinsinho pra ele montar. Isso é uma realidade. Agora, tem muitos artistas fotógrafos que só usam digital e vendem as fotos por 30, 40, 50 mil dólares. Quer dizer, a fotografia digital em si não é uma coisa ruim…

Miro – Estamos falando para pessoas que querem saber o que é mercado. Faltou falar que quem faz a foto digital eles acham melhor. O cara que mexe com computação que custa 20 mil dólares, a gente está falando de outras coisas, a gente está falando do Brasil hoje…

Daniel Klajmic - Que o mercado digital está comendo o nosso mercado (risos).

Miro – Eu adoraria estar na posição dos grandes fotógrafos do mundo inteiro. Se falar em digital na Itália, para todas as Vogues, fazer foto de moda, você deixa seu filme lá, você sabe que esse filme seu vai para aquele cara que você quer, daquele jeito que você quer. A gente não, a gente fica brigando porque cortaram um pouquinho a mais a foto que não deveria. Não é nem o digital mais.

Bob Wolfenson – Eu acho que também, em um mercado selvagem e insipiente como o nosso, é preciso regulamentar isso. Que é uma realidade, que é inexorável, que isso vai acontecer, que vai ter foto e o mercado vai sendo mudado por isso, sim.

"Esta geração digital existe, não sei se a palavra certa é desrespeito, eles passam por cima de um monte de coisas que a gente, para chegar aonde chegou, não podia passar por cima disso, porque fazia parte de um processo"
Miro – Mas eu acho, que, por exemplo, você falaria para alguém que quer ser fotógrafo de moda, pra mim não importa, como você falou no começo. O que importa é você estudar, saber direcionar, se é digital, não importa. Esta geração digital existe, não sei se a palavra certa é desrespeito, eles passam por cima de um monte de coisas que a gente, para chegar aonde chegou, não podia passar por cima disso, porque fazia parte de um processo. Eu acho que as pessoas hoje vêm um livro de fotografia, compram uma câmera digital e viram fotógrafos no dia seguinte, sem ter nunca feito nada de fotografia.

Bob Wolfenson – Mas aí eu acho que é uma rua de mão dupla, o cara para virar fotógrafo, eu posso dizer sou fotógrafo e não fotografo para ninguém, ninguém me aceita como fotógrafo, ou existe alguém do outro lado aceitando este trabalho, existe alguém que está comprando este trabalho deste sujeito que se acha um fotógrafo de primeiro dia, que se auto-intitulou fotógrafo. E tem alguém aceitando isso, se o cara é só fotógrafo…

Platéia – Mas ele não é fotógrafo, ele não faz a foto. Agora o digital é o seguinte: você pode usar o digital e não deixar parecer que é digital, essa é a grande jogada, a facilidade que ela te dá para fazer as fotos… Agora sou eu que passo horas no Photoshop, só que a minha foto você não percebe que é digital. Eu tenho um livro, lançando na Itália, que tem dez fotos digitais dentro, que eu fiz todas as fotos com escala…

Bob Wolfenson – É um vôo egoísta seu?

Platéia – Eu aceito, acho que é um desafio lindo isso aí. Acho que nós, não me comparo a vocês, que são grandes fotógrafos brasileiros, eu sou um fotógrafo italiano que estou aqui xeretando, mas acho o seguinte: o grande desafio é esse, é fazer o digital, claro que uma pessoa que não tem cultura fotográfica, o que ele faz? Ele faz a foto e você percebe que é uma foto digital, agora se você tem cultura fotográfica e faz uma foto, usa o digital, você não percebe, quer dizer, eu não posso perceber que a foto é digital. Parece fotografia.

Miro – Agora, espera aí, só um minutinho. Eu acho que existiu um grande mercado em volta da fotografia que ele falou logo no começo, laboratorista, laboratório, que hoje não existe mais, a gente está voando para uma coisa que não é certa. Não é certa porque tudo depende de uma equipe.

"Eu quero ser fotógrafo para poder mexer no laboratório, para poder escolher o papel que quero ampliar aquela foto na hora de mandar para a revista, saber que posso usar quinhentos processos de reprodução de mexer na filtragem, entender deste ofício"
Daniel Klajmic – A gente pode falar aqui a noite inteira só sobre este tópico, mas o mais importante que eu acho que isso vale pra gente e vale pra todo mundo, o que eu estou querendo dizer é basicamente você pensar por que você quer ser fotógrafo? Eu quero ser fotógrafo para poder mexer no laboratório, para poder escolher o papel que quero ampliar aquela foto na hora de mandar para a revista, saber que posso usar quinhentos processos de reprodução de mexer na filtragem, entender deste ofício. Não gosto de computador, e acho que o tempo que eu ia demorar para mexer no Photoshop, posso trabalhar com o laboratorista, operar a densidade certa, com a lente certa ou com a luz certa. Faço isso porque gosto, não porque preciso fazer. Se eu parar de fazer isso, se parar de pensar no filme, na densidade, na luz, na temperatura de cor, em tudo isso que gosto de fazer em fotografia, para me expressar através disso, seja autoral ou comercialmente, a fotografia fica meio nua, ela vai ficando magrinha até sumir. É a minha opinião pessoal. Fico preocupado só das pessoas que estão chegando não terem estes dois lados. Mas aí, entre o que o Bob e o Miro falaram, acho que o problema é exatamente esse, que no Brasil, que é um mercado onde eles trabalharam muito para conseguir um certo espaço, as pessoas têm que entender que para se fazer um editorial tem um custo, tem um equipamento, tem filmes, tem assistente, tem laboratório, e estas coisas estão ficando cada vez mais caras, até por conta do digital. E aí vai chegar uma outra pessoa, que oferece aquilo cinco vezes mais barato, e acaba que no Brasil já é notório não entrar no mérito do merecimento, ele acaba querendo viabilizar de outra maneira, porque é um país novo na coisa da fotografia editorial, de moda, na cultura de fotografia.

Jussara Romão – Vou terminar este assunto, porque parece que isso aí vai longe. Não imaginei que esse assunto fosse tão polêmico. Enfim, queria reunir duas perguntas, o Oskar fez uma colocação sobre a posição dele, que é mais ou menos a minha, ele é estilista de uma marca, e eu sou editora de uma revista. Nós dois, de alguma maneira, representamos uma marca, um espírito de mulher, a gente quer atingir alguém, e tal. E o relacionamento do fotógrafo com o nosso trabalho muitas vezes pode ser complicado ou não. Queria resumir duas perguntas em uma mesma e saber a opinião de vocês. Pra mim, hoje, a fotografia, a publicidade de moda é o lugar onde a gente, como editorial, está se inspirando mais. Eu acho que isso já aconteceu ao contrário, o editorial era inspirador para a publicidade, mas hoje eu acho que a publicidade tem muito mais liberdade do trabalho de expressão. Então, eu vejo que a publicidade de moda tem muito mais liberdade, muito mais expressão que os editoriais. Nós, dentro dos editoriais, estamos muito mais presos, tem que mostrar a roupa, tem que dar preço, enfim, são muitos fatores que fazem com que a gente fique dominado mesmo por isso. Gostaria de saber a opinião de vocês sobre isso. Por que isso vem acontecendo, eu já estou respondendo, enfim, e qual é a relação pra vocês, do fotógrafo no processo todo de criação, seja para catálogos de moda, seja publicidade de moda, ou seja pro editorial. Sinto muita falta da presença do fotógrafo, ou será que nós estamos já, olha, eu quero assim, assim, assado, a imagem é essa, a mulher está assim…

"Tem revista que é baseada na opinião do leitor, estas não me interessam"

"...porque parte de uma nivelação por baixo"

"...o editor de uma revista é um missionário, ele tem que levar a platéia dele, o público dele para um patamar novo, para um novo sonho"
Bob Wolfenson – Tinha uma revista dos anos 80 que uma editora muito famosa fazia, que ela falava assim: hoje eu tive uma idéia genial, ela pegava uma revista e abria uma revista européia e mostrava e falava assim, vamos fazer esta idéia genial. Ela não se auto-idealizava e fazia assim de uma forma bem tranqüila. Eu acho que isso continua acontecendo. E acontece lá fora também, as pessoas, e o mercado vai influenciando, você vai vendo trabalhos e vai sendo influenciado por eles de alguma forma. É um processo de causa e efeito e vai rolando, um influencia o outro, um recebe do outro a influência e vai. Do ponto de vista desta eterna discussão, este dilema, entre realizar o seu ego como fotógrafo e satisfazer a revista ou o público da revista, ou o suposto público da revista, há revistas e revistas, depende muito de qual é o viés que a revista adota. Tem revista que é baseada na opinião do leitor, estas não me interessam, não sei se interessa a vocês ou não. Não me interessa, porque parte de uma nivelação por baixo, eu acho, o leitor sempre fica em uma coisa de identidade, acho que o editor de uma revista é um missionário, ele tem que levar a platéia dele, o público dele para um patamar novo, para um novo sonho, para que aquele sonho, em um momento seguinte, seja a realidade dele. Não acho que a revista tem que dar o que o leitor quer, a revista tem que levar o leitor para um caminho, para trazer o rebanho.

Daniel Klajmic – Isso se inverteu né? Hoje em dia vejo que as revistas estão muito preocupadas em segurar aquele leitor ou em manter um público, não isso não é, como na publicidade, isso não atingiu…

Jussara Romão – Ontem fiquei sabendo de uma revista que acabou com a seção de moda dentro dela…

Bob Wolfenson – Não estou dizendo que é culpa da editora, é como o mercado se coloca, como se sofistica o mercado e se dessofistica também. Sofistica por um lado, porque as revistas mais sofisticadas começam a ter um nicho menor e passam a ter um espaço mais específico. E as revistas de massa se dessofisticam completamente e vão para uma coisa mais popular, porque precisam vender e tudo. Este é o grande dilema, sempre foi, desde que nós começamos, eu e o Miro, acho que sempre foi o dilema entre priorizar o que você e eu sinto vendo o seu trabalho. Não sei se estou errado, você me corrige, mas que você conseguia realizar o seu trabalho quando você estava em sintonia com a editora, ou com a linha da revista. Se não há esta sintonia, não é possível. Então, este é o desejo muito antípodas, não há esta possibilidade.

Miro – Mas eu acho que o dilema eterno é o dinheiro.

Bob Wolfenson – É o dinheiro? (risos)

Miro – É o dinheiro. Você vai em uma reunião, a sua matéria vai ter isso, vai ter aquilo…

Bob Wolfenson – Isso é verdade…

Miro – No fim, você entra no estúdio louco de roupas, aí faz no fundo branco e o computador resolve.

Bob Wolfenson – É, isso é verdade.

Miro – É tudo uma grande mentira… alguma coisa vai de verdade para as pessoas. Existe uma fantasia em volta de tudo isso, que a coisa é mais embaixo.

Bob Wolfenson – É mais rasteira…

Miro – Nesse exato momento ter feito um ensaio fotográfico com a Débora Secco para a revista Contigo!, tem um retorno maior do que fazer Vogue. Para mim interessa o retorno das pessoas, e eu acho que o veículo quanto mais abrangente for, melhor.

Bob Wolfenson – Se deixar realizar o seu trabalho…

Miro – Você é uma pessoa que pode entrar em uma revista e falar: eu quero fazer deste jeito.

Bob Wolfenson
– Sim.

Miro – É isso que a gente tem que falar para as pessoas. Eu acho que a gente tem que brigar por mais revistas de moda neste país, que, se você pensar existem quantas? Três?

Daniel Klajmic – Mais dinheiro para as revistas, né?

Miro – A fotografia é um mero acaso, você tem que brigar pelo espaço. Eu acho que a gente fica sonhando com um monte de matérias que não chegam a ninguém neste país.

Daniel Klajmic
– Esse primeiro passo de desglamourizar isso é importante. Até, de repente, aparecer uma coisa nova disso. Você vai na reunião, na publicidade ou você vê pessoas que vêem a moda um pouco mais de fora do que a gente, e acha editorial, editorial, editorial. Primeiro, o negócio é o seguinte: dinheiro para o que você quiser parará, quando eu comecei, também achei que você pudesse colocar tudo pra fora e depois você ia entrar em uma porta chamada publicidade e ia ganhar o seu dinheiro fazendo tecnicamente aquilo. Só que hoje em dia, o editorial é a publicidade que não paga, porque você já sabe que está tudo amarrado, o fotógrafo não participa, porque não tem nem como ele participar, se ele quiser participar: “pô esse cara é um chato, meio metido, arranja problema”.

Jussara Romão
– Pelo contrário, até hoje eu estava conversando sobre isso e esta era uma pergunta, conversando com algumas pessoas, eu trabalho na editora Abril, conheço um monte de gente, a gente sente falta, muita falta do fotógrafo estar ali na reunião.

Daniel Klajmic – Então faltava um debate deste pra gente conversar, pra se enturmar… (risos). Porque eu quase não vejo espaço para pleitear alguma coisa, seja o orçamento para fazer de uma maneira x, seja uma idéia que você queira…

Jussara Romão – O que acontece é o seguinte, existe um orçamento pequeno, cada vez menor. Dinheiro é o grande problema, não adianta querer inventar que nós vamos fazer. A gente vê alguns editoriais internacionais e fala: “meu, que coisa incrível!”. Mas eles gastaram uma fortuna, porque trouxeram uma pessoa para pintar aquilo, e aí tem produtor de locação, tem isso, tem aquilo. Não é verdade, a gente não tem dinheiro, cada vez mais compra-se menos revistas no Brasil, ainda mais quando é segmentada dentro desta área, as pessoas deixam de comprar por outras coisas.

Miro – Mas, sabe por quê? Eu acho que existe uma preguiça do brasileiro, por exemplo, qualquer editora, a Vogue, a editora Abril, tem capacidade de fazer permutas com um monte de coisas.
Jussara Romão – Fala isso pra Abril.

Miro – Não preciso falar isso pra Abril.

Bob Wolfenson – A Abril tem um código de ética que não permite.

"O brasileiro é preguiçoso, prefere pegar a roupinha do Alexandre que está ali, por no fundo branco, dar crédito para ele e acabou a história"
Miro – O mundo inteiro faz assim. O brasileiro é preguiçoso, prefere pegar a roupinha do Alexandre que está ali, por no fundo branco, dar crédito para ele e acabou a história. É a preguiça.

Bob Wolfenson – Eu acho que o pior do Brasil é o brasileiro (risos).

Daniel Klajmic – Por um lado sim e por outro não, porque a gente acaba tendo um resultado bastante satisfatório com o pouco que a gente tem.

Jussara Romão – Eu tenho esta liberdade, negociar, eu consigo. A revista Elle conseguiria viagem, isso, aquilo, e eu não posso.

"As pessoas têm preguiça, elas não querem pensar mais. Mas é lógico. A digital, o computador está acabando com tudo isso"
Miro – Sou produtor da revista Daslu, entro em qualquer loja de São Paulo e pego o que quiser para fotografar a troco de crédito. As pessoas têm preguiça, elas não querem pensar mais. Mas é lógico. A digital, o computador está acabando com tudo isso (risos e palmas).

Jussara Romão – Eu não posso te responder isso, porque eu estou dentro de uma editora que não me permite aceitar estas…

Miro – Eu já fiz para todas elas…

Jussara Romão – Eu não posso. Eu sei que a Vogue pode, a Marie Claire pode…

Miro – Pode mas não faz.

Jussara Romão – Bom, mas aí é problema deles (risos).

Miro – Mas nenhuma faz.

Daniel Klajmic – Você está falando no geral assim, as que fazem também não fazem o suficiente. Eu acho que, por um lado, tem uma preguiça enorme do brasileiro, por um lado também o que a gente consegue, por exemplo o Miro tem feito, o Bob tem feito, outros fotógrafos têm feito, com pouco que tem, já é bem legal, lógico. Mas eu acho importante falar que é pouco, que a gente tem pouco, senão as pessoas olham aquilo, que a gente fez malabares, e acha que a gente fez dormindo, deitado. Editorial é dinheiro do bolso, todo editorial que eu faço, boto alguma coisa do meu dinheiro.

Bob Wolfenson – Isso todo mundo faz.

Daniel Klajmic – Isso é notório.

Jussara Romão – A Elle dá filme, da revelação, dá poquinho, mas paga.

"O editorial é a minha vitrine, onde teoricamente eu vou colocar as minhas idéias pra fora"
Daniel Klajmic – Mas, aí a gente está falando de brigar pelo limite, porque aí a gente estipula um limite pra gente. Eu quero fazer o filme x, aí eu não faço? Não, eu faço. O editorial é a minha vitrine, onde teoricamente eu vou colocar as minhas idéias pra fora, mas a partir do momento que eu não estou colocando as minhas idéias pra fora porque elas estão sob uma pauta para o público da revista, que é aquela coisa que a gente discutiu a dois minutos atrás, já não está mais valendo a pena, isso é uma coisa. Aí entra a coisa do digital, é o berço perfeito para o digital entrar, porque aí você vai falar o cara vai fazer no digital e não vai dar custo pra mim nenhum. É muito complexo, tudo se amarra no final, o digital, o editorial, a publicidade, na verdade a gente pode falar sobre a mesma coisa, que tudo está amarrado.

Platéia – Estou ouvindo vocês, pra mim é um grande aprendizado, sou um amante da fotografia, não um profissional e venho de uma cidade do interior. Eu já peguei o mundo digital da fotografia. Porém, vi as dificuldades que teria e fui aprender com a película, apanhar do cromo, tomar aquela coça do cromo, até aprender a fotometrar direito. Mas em um determinado momento, por escolha própria, respeito a opinião do Daniel, mas não quero nada disso, não quero laboratório, não quero isso, não quero aquilo, mas é uma opinião somente pessoal. Quero gastar horas esperando a luz perfeita, ficar um dia inteiro esperando a luz certa, o momento certo para fotografar? Claro que o digital vem estragando um monte de coisa, como o Bob falou, acho que foi muito bem colocado. Posso ser muito criticado por isso, mas o Brasil tem uma tendência a banalizar muito as coisas, aqui a gente banaliza qualquer coisa, de Mc Donald’s a revista. Então, o editorial, um ou outro consegue fazer um trabalho diferenciado, a Elle, a Vogue, mas a gente vem nivelando por baixo, como o Bob vem falando. Eu, por exemplo, conheço a marca Osklen, desde quase no início, o diferencial era a quantidade de dinheiro que se gastava com a propaganda, em fazer o produto de vender, fazer uma marca bonita, e era um sonho de consumo consumir a Osklen na minha cidade. É uma cidade pequena, Juiz de Fora, mas por quê? Porque teve um investimento no futuro, alguém acreditou. A gente tinha um amante da fotografia, etc. e tal, que deu vazão para esse veículo. Agora, concordo com o Bob, que é uma via dupla que vocês, hoje, estão reféns de um mercado que paga pouco, mas que o público também não quer pagar muito, o público não compra revista. Leio três, quatro revistas por semana. Então assim, eu acho que a nossa tendência é banalizar muito, e vocês que estão aí sentados e alguns de nós aqui, somos só exceção, em um mercado que, se nós não procurarmos fazer um aculturamento, fazer uma cultura melhor a gente não vai mudar isso.

"nós somos um país pobre, nós somos um país com uma cultura, com um talento enorme, temos pessoas talentosas nas mais diversas áreas profissionais"
Oskar Metsavaht – Acho que é um reflexo macroeconômico, nós somos um país pobre, nós somos um país com uma cultura, com um talento enorme, temos pessoas talentosas nas mais diversas áreas profissionais. Isso se reflete porque nós aqui estamos falando de uma coisa de trabalho artístico. A arte é apreciada por um nível sofisticado cultural e, quando ele precisa ser realizado exatamente com investimento e tudo, ele precisa ter o quê? Dinheiro. Vou defender um pouco os editoriais em relação a vocês. Vocês fotógrafos e vários outros fotógrafos talentosos que nós temos aqui, se não fossem os editoriais de moda também, as revistas com os editoriais de moda são uma janela, uma oportunidade de mostrar seu trabalho. Quantos fotógrafos existem por aí? Acho que todos eles, imagino quando foi o primeiro editorial que você fez, ou que você ficou feliz, amarradão por terem reconhecido o seu trabalho e terem te convidado.

Daniel Klajmic – Isso tudo existe, só que a gente vai caminhando para um lugar, onde, de repente, não sei se você tem mais gás no começo, mas aquilo vai virar outra fase pra você, entendeu?

Oskar Metsavaht – Concordo, mas você não acha assim… Vejo quatro formas de fotografia, a primeira onde você pode se expressar livremente seria fazendo um livro ou através de exposições. Cada fotógrafo leva nos seus livros a sua edição, com a sua visão, com a forma que apresenta o seu trabalho autoral. O outro nível são os editoriais com as revistas, que já estão um pouco mais engessados. Terceiro lugar eu acho que seria exatamente o trabalho que já é conjunto de parceria com uma marca com um outro artista, entendeu? No momento, quando você expressa, você coloca o seu trabalho artístico, o seu talento, sua sensibilidade, junto com alguém para construir uma outra coisa, já está mais engessado. E por último o trabalho publicitário, como você falou, esse que você foi lá catar as fotos e depois usaram a sua fotografia e colocaram.

Daniel Klajmic – Eu só queria fazer uma outra pergunta, não sei se sou eu respondendo com uma outra pergunta ou se nestes últimos cinco anos está ficando mais difícil. Eu não sei sinceramente se sou eu que estou ficando mais chato, mais velho, ou mais preguiçoso, ou se cada vez está ficando mais difícil fazer um editorial legal de uns cinco anos pra cá?

Oskar Metsavaht – O que surgiu de revistas neste últimos cinco anos, ou mais, no Brasil, que surgiram a oportunidade de vários editoriais, às vezes, quantas vezes vocês fazem uns dois, três editoriais num mês mesmo para algumas revistas. O que está acontecendo é que várias revistas não estão conseguindo se manter, então está começando a diminuir, e as grandes revistas, a Elle, a Vogue, tudo, eu sei, sou cliente, sou a mira deles, sou exatamente onde eles vêm, onde vem dinheirinho pra dentro, o patrocínio, o cliente. Então, as revistas não estão bem, é um custo pra fotógrafo, você tem uma revista, o custo de manutenção, o custo de manter uma edição no mercado é muito grande, e não está tendo muito cliente, a não ser estes grandes clientes, as telefônicas, os bancos, etc, etc, que também têm um problema para as revistas, né? Porque a revista, como você falou, hoje em dia é gostoso abrir uma revista onde a campanha publicitária das marcas e de quem está ali junto fala com a linha editorial da revista e que dê prazer. Isso a gente vê bastante nas revistas lá fora, mas aqui no Brasil, as grandes revistas de moda têm anúncios que, exatamente, pegam uma foto e colocam o sol onde não tinha.

Bob Wolfenson – Aqui o fotógrafo de moda faz de urubu a cobra d’água, ele fotografa anúncio de banco à editorial de moda no dia seguinte. É uma maluquice mesmo, é um jeito único, singular. Acho que tem, ou só tem no Brasil, ou só tem nos países de terceiro mundo, porque lá fora, se você é um fotógrafo de moda, você é um fotógrafo de moda, nem Playboy você faz, de jeito nenhum. Você é um fotógrafo de moda e faz as grandes campanhas de moda do mundo, os anúncios de moda e os retratos. É permitido ao fotógrafo de moda também ser retratista, nada além. Aqui não, aqui você faz de Arpic à Arezzo, digamos assim.

Jussara Romão – Até para fazer um resumo rápido, para quem não conhece revista, o que nos faz sobreviver são os anunciantes, banca não nos sustenta. É um custo muito alto, gráfica, papel, enfim, toda aquela equipe que hoje em dia se reduziu a 12, 13 pessoas, que eram, sei lá, 30 pessoas até. E anúncio, se vocês pegarem uma revista de dez anos atrás, iam ver muitos anunciantes de moda. Hoje, quantos são os anunciantes de moda? Na verdade, é um mercado que cresceu pro mercado de beleza, e cresceu para outras tentativas de anunciante de banco, que é de onde surge o dinheiro. É muito complicado. Dois, não querendo defender, mas é o mercado que eu conheço, para você se vender, você precisa se comunicar com alguém. É isso que eu falo sempre. O meu trabalho, o nosso trabalho é comunicação, se você não faz nada que alguém responda para você, seja negativo ou positivo, seja na fotografia, na arte, enfim, na moda, que seja, você não recebe em troca. Então, toda a preocupação dos editoriais, e eu não quero me estender nisso, uma preocupação do diretor de uma revista, é tentar relamente chegar a alguém …

Bob Wolfenson – Isso é uma suposição de que aquele alguém vai gostar daquilo daquela forma.

Jussara Romão – Eu não estou achando que a gente tem que diminuir o nosso trabalho ou nivelar por baixo, não estou falando isso …

Bob Wolfenson – Mas quantas vezes você ouviu que isso é muito para o nosso público, ou isso é demais, ou isso nem adianta fazer porque não vai dar certo, não vai rolar. Esse é um problema. Acho até lícito, porque você sabe o seu produto, mesma coisa com você, que vai fazer uma campanha e você sabe qual é o seu público. Você quer fazer do jeito que você acha, você contratou um fotógrafo, que tem uma personalidade, que também quer se expressar através do seu trabalho. Mas eu acho que nós fotógrafos, que trabalhamos para publicidade e para revista não somos os mesmos que colocam as fotos nas paredes, porque são trabalhos distintos. Quer dizer, eu sei, tenho um limite para o meu trabalho, é uma arte aplicada. Se um cara me chama para fazer uma campanha, sei que tenho que contemplá-lo de alguma forma, ele está comprando um olhar, um jeito de fazer, uma forma que é a minha, entendeu? Mas, de alguma forma eu também tenho este limite que é o limite dele. Um bom trabalho se realiza quando esse encontro é hamônico. Quando esse encontro não se realiza o trabalho fica ou muito a cara do cliente, ou seja, fica muito comercial atendendo a necessidade muito específica e comercial do cliente, ou também fica inatingível para o público dele, porque ficou muito para o fotógrafo, muito artístico, ou surrealismo meio barato, que muitos fotógrafos fazem.

Platéia – Eu sou Fábio, fotografo na área de eventos, mas tenho uma dúvida que talvez vocês possam me responder, volta um pouco naquilo, que para se vender precisa de anunciante, é de onde vem o dinheiro. A gente pega uma revista aqui no Brasil, uma Elle, ou alguma coisa assim e ela tem mais ou menos isso aqui, uns sete milímetros. Você pega uma Elle francesa ou alguma coisa assim ela tem isso aqui. Ou seja, uma revista deste tamanho eu consigo ver um campo de páginas, um campo em centímetros quadrados, que seja, enorme para os fotógrafos mostrarem o trabalho, em propagandas, em n editoriais lá dentro. Você vê uma quantidade absurda de fotos e de material. E aqui não. Aqui a gente vê uma revista super pequena com um espaço muito pequeno, que seja em número de páginas ou em centímetro quadrado. E aí fica uma briga, se o anunciante traz mais dinheiro, e ao mesmo tempo elas custam a mesma coisa, é isso que me choca. Uma Elle custa o quê? Sete e meio?

Jussara Romão – Nove e noventa e nove.

Platéia – Se você for ver isso em dólar, dá quarto e meio dólares, uma Vogue desta grossura custa quarto, quatro e meio dólares. Então você fica pensando, será que se barateasse a revista pro consumidor final daria para gerar mais espaço de venda? Não sei onde que chega isso.

Bob Wolfenson – Você acha que a revista não quer fazer isso? Isso é um problema do Brasil, isso é uma escala brasileira pra tudo. Você acha que uma revista não queria vender mais, não queria ser grossa deste jeito, não queria ser mais barata?

Miro – Claro, é o que estou tentando falar desde o começo. As pessoas responsáveis em fazer revista não estão pensando, por exemplo, assim, porque tudo que se faz lá fora os brasileiros fazem: “ô, que legal, vamos fazer isso”. Mas na hora que a editora fala que vai fazer isso, porque foi feito lá fora, faz ficar pior. Hoje se você pegar qualquer revista de moda neste país, 95 por cento são em fundo infinito (risos).

Bob Wolfenson – Você tem razão.

Miro – Você abre qualquer revista as pessoas estão viajando, elas estão dando sonho para as pessoas.

Bob Wolfenson – Isso eu concordo plenamente.

Miro – No Brasil não se faz isso. É cômodo, é aquela correria de nada. Por exemplo, os editores em vez de ter duas revistas fodidas preferem ter 50 desta finurinha e atacar todos os anunciantes do país. Então o problema não é do Brasil, é das editoras. E os fotógrafos são coniventes com isso.

Daniel Klajmic – Concordo e acho que é um ciclo. A revista quer fazer uma coisa para um público que ela acha que vai receber até um certo ponto, mas este público, de repente, está sendo subestimado e também acha que é uma revista desinteressante, porque está vendo aquilo e está sempre esperando uma coisa a mais. O que o Miro está tentando dizer, que eu concordo em gênero, número e grau, que de repente tentar elevar e ver qual vai ser a resposta de quem vai receber isso.

Oskar Metsavaht – Eu concordo totalmente com isso, vamos lá. Isso de tamanho, tudo, é escala. Você vai na Itália, só a Itália consome, com não sei quantos milhões de habitantes, bem menor que o Brasil, mas eu acho que o percentual de pessoas que compram a Elle, a Vogue e todas as outras revistas lá é muito grande. A cultura de moda no Japão, então, é surpreendente. O número de pessoas ligadas à moda, como consomem revistas de moda e comportamento, elas têm um poder aquisitivo maior e têm uma cultura de moda maior. Então isso é escala. E o que acontece com as revistas aqui? Não vendem muito. As revistas que vendem aqui são a Caras, a Veja, etc., mais populares.

Miro – Uma matéria linda na Vogue sobre a Emília, só que o Brasil não pensa, não está pensando e não está preocupado em pensar. O negócio é o seguinte: vamos pegar a roupa, por no fundo branco e bater a foto, como se faz? Bater a foto.

Oskar Metsavaht – Acho que todos os profissionais nesta área, em todos os setores, têm que se unir para que haja uma melhora, exatamente na qualidade editorial, que existe. Claro, tenho certeza, o sonho delas é ter estas revistas assim, é ter estes editoriais. Mas, se for pegar anunciantes, marcas de moda, designers de moda, os fotógrafos de moda, as revistas e se criar um movimento de melhora da qualidade, onde todo mundo participa de uma certa forma, sabe?

"O fotógrafo tem obrigação de ter cultura de fotografia, editora de moda tem cultura de moda"
Daniel Klajmic – Aí tem um problemazinho, que quando bate lá no ombudsman, lá na torre, que o cara não viu a Vogue, não está nem aí pra Emília, pra nada, mas é o dono da parada, entendeu? Tem a cultura geral. O fotógrafo tem obrigação de ter cultura de fotografia, editora de moda tem cultura de moda, etc. e tal. Agora, a gente está falando de cultura geral, daquela pessoa que teoricamente não tem nada diretamente a ver com a fotografia, ou com a moda, mas que tem o mínimo para poder olhar aquilo e achar que é uma coisa interessante, entendeu? Não querendo ser polêmico, também, é a coisa da cultura da imagem para o empresário da revista, para o dono da revista ter a mesma cultura de moda, de fotografia e de imagem que a gente está discutindo aqui, porque nós estamos no mesmo caldeirão. Agora, quando sai da nossa mão é que é o problema.

Oskar Metsavaht – Não se iluda, porque o dono da revista quer vender revista e ele quer ver número. Mas nem todos né, Bob?

Bob Wolfenson – A minha nem que eu queira vender vou coseguir.

Platéia – Boa noite, Daniel meu nome. Eu queria voltar um pouco no que o Bob estava falando…

Jussara Romão – Digital não, né? (risos).

Platéia – Não. Estava todo mundo falando um pouco disso, e acho que vocês poderiam insistir mais nisso: na formação da imagem na moda, que tem uma relação com o cinema. O que é isso? Você tem o diretor do filme e tem o diretor de fotografia e essa simbiose é que vai formar a grande imagem de moda. Já conversei com um diretor de fotografia e ele falou: “quando um diretor me chama para fazer um filme eu vou ver os filmes que ele dirigiu e ele vai ver os filmes que eu filmei, e no final a gente vai trocar figurinha e vai fazer um puta filme. Eu vou admirar o trabalho dele e ele vai admirar o meu trabalho”. Então, acho que este é o onde vejo. O resultado final do Daniel, do Miro, do Oskar, nos catálogos, sempre mudando e fazendo coisas interessantes. É isso. É essa simbiose, as revistas, os editoriais bacanas, é quando acontece esta reunião. O diretor já conhece o outro trabalho do diretor e ora o diretor dirige mais, ora o fotógrafo fotografa mais e gera estas grandes imagens que a gente vê.

Jussara Romão – Uma coisa importante é quando se imagina uma história que você vai contar em um editorial é: quem faria aquilo melhor? No meu trabalho, o que eu bati de cabeça. Levei muito nestes 10 anos de algumas pessoas, e errando também. E eu já tive isso de chamar: ah! fotógrafo, fotógrafo, e não é verdade. Você vai ter uma linguagem que combina mais para contratar aquele trabalho, você é a cara, a gente vai fazer um trabalho agora que é a cara do Bob, não é outro.

Bob Wolfenson – Mas, às vezes você não acha.

"Eu acho que é maravilhoso se o fotógrafo te falar assim: não estou a fim, não curti. Isso é maravilhoso"
Jussara Romão – Mas isso que é bom! Ter a liberdade de dizer: olha, eu pensei em uma matéria, estou achando que é você, não, não estou a fim. Eu acho que é maravilhoso se o fotógrafo te falar assim: não estou a fim, não curti. Isso é maravilhoso.

"se o cara não souber fazer tudo, ele não vinga aqui"
Daniel Klajmic – Eu acho que parte daí, mas na prática entra a grande parte do fazer tudo. Na essência é assim. Mas, acaba que o fotógrafo de moda, até falando para quem quer ser fotógrafo, que já é fotógrafo, a experiência que tenho assim de recém-formado, do que eu aprendi na faculdade lá da assistência de estúdio para a aplicação prática, é que no meio do caminho você vai deixando isso um pouquinho de lado, porque se o cara não souber fazer tudo, ele não vinga aqui.

Bob Wolfenson – Não existe isso em lugar nenhum na Europa.

Bob Wollheim –Está falando aí tanto do problema do brasileiro, da crise da fotografia. Têm vários segmentos, publicidade, não especificamente de moda, mas publicidade como um todo, o brasileiro é muito reconhecido e muito premiado. Como é isso em fotografia?

Bob Wolfenson – Acho que nós somos ilustres desconhecidos. O Sebastião Salgado é um brasileiro muito conhecido. O Otto Stupakoff foi um fotógrafo muito conhecido nos anos 70, mas ninguém sabia que ele era brasileiro, ainda mais pelo nome. Mas essa área editorial do Brasil não chega lá fora, ninguém vê. A não ser que você vá lá pra fora, sente a bunda lá em um país e fique dois, quatro, cinco anos, não participa do mercado daqui, aí você pode ter alguma expressão. Você diz que nós temos uma oportunidade de nos mostrar lá fora? Precisaria mudar toda a massa crítica.

Platéia – Como qualquer pessoa, não precisa ser brasileiro, qualquer um lá fora.

Bob Wolfenson – É, exatamente. O Brasil, como tudo, não é conhecido, não quer dizer que não seja bom, não é conhecido.

Oskar Metsavaht – O Brasil nunca teve uma revista, nós nunca paramos para pensar em uma revista nossa com uma expressão, nunca pensamos não, eu já pensei, mas fazer uma revista com expressão, pegar o nosso brazilian soul, pegar tudo que for de bom nosso aqui e fazer uma revista mundial. Uma revista escrita, obviamente, em inglês e com uma boa imagem do que está querendo passar. Agora, é fácil de levar todos os nossos talentos, que sejam comerciais, artísticos, entendeu? Culturais, isso nunca houve. Uma revista feita por nós aqui, entendeu?

Platéia – Eu sou Simone, faço foto, nunca me formei em fotografia, tive uma galeria com dois sócios, conheço o Fotosite desde o comecinho. Não tenho medo, só falar rápido da digital entrar no lugar da normal… Acho que nunca vai ser, é um olhar diferente, você não sabe o que retratou, se descobrir depois, acho que são duas coisas que a gente não deve ficar com medo. Estou vendo muitas revistas especializadas diferentes, com mais trabalhos artísticos ultimamente, talvez menos do que aquelas que a gente compra na banca, talvez algumas de banca. Eu acho que tem muito da gente jogar uma cultura para este povo ir absorvendo, entendendo e vendo. Agora, na publicidade, compreendo, também faço um monte de coisas, faço imagens para outras coisas, para vender como decoração, mas nunca trabalhei em publicidade. Então, tem que vir um pouco da gente, tem que a gente mostrar o que é novo, o que é bom, o que é bacana, o que é luz. E na publicidade é conivente a isso, é baratear, é rapidez, é mexer e tentar fazer o melhor possível.

Bob Wolfenson – O Brasil está engatinhando nessa área, está construindo uma massa crítica. Você pega os anos 50, na Itália, que já era um país muito mais desenvolvido nesta área do que o Brasil é hoje, os grandes costureiros italianos não existiam, eles copiavam os franceses. O que aconteceu? Eles formaram uma massa crítica, uma indústria, um mercado, um gosto, um artesanato. Criaram um movimento que se desenvolveu e virou, e hoje os grandes estilistas do mundo são italianos.

Platéia – Mas isso tem hoje na moda, não tem?

Bob Wolfenson – Eu acho que a moda está hoje neste momento. O Brasil está no momento da construção desta massa crítica, nunca houve tanta oportunidade como tem agora.

Miro – Você lembra da revista 70 da editora Abril?

Bob Wolfenson – Lembro.

Miro – Quem veio fotografar aqui para a revista?

Bob Wolfenson – Bill King.

Miro – Sarah Moon, quem mais?

Bob Wolfenson – Eu não me lembro de todos.

Miro – Um monte de gente.

Bob Wolfenson – Mas, aquilo foi uma coisa episódica, heróica, de um tempo único que durou dois anos.

Miro – Existiu a Realidade, uma puta revista. Vai ver ela hoje é mais moderna do que qualquer revista do país. Eram pessoas que trabalhavam mais, se pensava mais.

Jussara Romão – Você está me acusando de alguma coisa.

Miro – Não. Não existia foto de fundo branco.

Jussara Romão – Eu entendo o que você está falando, mas. Bom, eu posso responder por mim.

Bob Wolfenson – São atos heróicos, mas se você pegar no geral, hoje em dia tem muito mais, o mercado é muito mais concorrido, tem mais fotógrafos, portanto vai ter muito mais qualidade.

Miro – Não, o que eu estou te falando é o que já aconteceu no Brasil, não precisa pra falar de moda falar do costureiro italiano, a gente fala do Brasil. Então, a gente tem que falar do Brasil. Por exemplo, eu via coisas que eu babei de ter visto.

Bob Wolfenson – Sem dúvida.

Miro – A gente não está fazendo mais isso. A gente está fazendo o que as editoras querem da maneira mais prática e fácil de fazer.

Daniel Klajmic – Aí responde o que ele está falando, não depende, tem uma hora que sai daqui e vai pra mão do veículo.

Miro – Eu acho que isso é ser conivente com esta pobreza, se a gente, você e eu, ele não brigar por isso, a digital vai entrar e vai acabar com tudo.

Daniel Klajmic – Aproveitando só para finalizar este tópico em ebulição aqui. Eu acho que o que você falou é o que a gente está tentando dizer aqui, eu só tentei mostrar que daí pra cá, tem umas etapas de prática, que fogem um pouco do domquixotismo do fotógrafo de moda. E outra coisa que eu acho, que o Miro tocou rapidamente, que é importante também colocar no debate, que a gente copia na íntegra, ou a gente poderia estar interpretando a essência daquilo aplicado para a nossa cultura. As vezes que isso aconteceu deu certo, fotograficamente, vou fazer isso igual, a gente não pegar algum ícone, que tenha o mesmo diálogo, a mesma essência da idéia, só que convencional, em vez de usar camisa de brechó americano, usar camisa de brechó do time de futebol do Itapemirim da Serra, entendeu? É pegar o conceito do que rola na moda como idéia e comportamento aplicado para o nosso, não igual ao deles.

"Tem coisa que fazem lá fora que é mais brasileira do a gente fazendo"
Sabrina Gasperin – Tem coisa que fazem lá fora que é mais brasileira do a gente fazendo.

Daniel Klajmic – Eu acho que este é um ponto de diálogo para todo mundo.

Jussara Romão – Nós estamos falando de um povo que começou a ter orgulho de ser brasileiro há muito pouco tempo.

Platéia – Mas são as pessoas que investem que têm medo aqui no Brasil

Daniel Klajmic – Uma coisa é fazer uma exposição, outra é fazer um editorial, onde você tem que seguir uma linha editorial de uma revista. A gente está falando de estrutura real, de comércio profissional de moda, não estamos falando do fotógrafo.

Bob Wolfenson – O país é maravilhoso, a gente sabe, gosta e se tem orgulho disso. Sabemos usar a expressão da força do Brasil, o país tem uma puta personalidade, é muito original, é conhecido no mundo inteiro por mil outras razões. Agora, tem também uma coisa específica de uma dificuldade de se realizar um trabalho que vá até o fim, que você chega e abre uma revista a fala: que do cacete! Que orgulho eu tenho disso!

Daniel Klajmic – Do casamento do fotógrafo na essência e fotógrafo profissional. Acho que é assim, você conseguir manter os dois satisfeitos e afinados é que é a grande arte que a gente está discutindo aqui.

"Quem dita a moda no mundo? Um grupo de fotógrafos e editores de revista. São só essas pessoas, são elas que falam da moda pro mundo"
Miro – A gente veio aqui para falar sobre moda, né? (Risos). Quem dita a moda no mundo? Um grupo de fotógrafos e editores de revista. São só essas pessoas, são elas que falam da moda pro mundo. Moda no Brasil não existe. Vamos cair de verdade, porque é assim, se a gente conseguisse ser um pouco mais unido, eu acho que todo mundo quer fazer as coisas pra si. Se eu ficasse com a Jussara durante um ano fazendo editoriais que tivesse uma cara, que ela quisesse, pra revista, e, junto com ela, achasse esta fórmula, a gente conseguiria alguma coisa. Na verdade, a gente está sendo conivente com um monte de coisa.

Bob Wolfenson – Concordo com você, eu acho que a gente tem que dar uma sacudida, tem que dar uma brigada, uma sacudida.

Jussara Romão – Mas eu não vejo nenhuma dificuldade pra isso.

Miro – O único diretor de moda deste país morreu, que era o Andrea Carta. Espero que a Patrícia consiga alguma coisa, mas ele sonhava moda.

Platéia – Me corrija se eu estiver errado, mas eu não tenho conhecimento de um outro país onde, só em São Paulo, em uma cidade, em um mês, você tem três eventos de moda, feito tudo com mão de obra brasileiro, você tem modelos brasileiras, estilistas brasileiros, mídia brasileira, atrai mídia estrangeira. Quer dizer, o brasileiro é um povo extremamente criativo, que tem gente representante de todas as frentes, fotógrafos, modelos, estilista, editora, e todo mundo está demonstrando uma certa insatisfação.

Daniel Klajmic – Que é diferente de uma campanha de moda, desfile, televisão aberta, estamos falando da fotografia de moda e não da moda no geral. É uma diferença bem grande, quando você fala de TV aberta e de banca de jornal os big boss sabem bem a diferença, entendeu?

Jussara Romão – O que está rolando aqui é quase fechado de alguma maneira, porque é um descontentamento não só deles, fotógrafos, mas meu também. E talvez este trabalho em conjunto acabe resultando em uma imagem incrível que o público vai amar. Eu sinto falta disso também.

Platéia – Foi só uma introdução, talvez infeliz, para dizer que a gente tem muita capacidade. O que eu quero dizer é o seguinte: se está todo mundo realmente insatisfeito e a gente tem esta capacidade, o que está faltando? Será que é só dinheito mesmo? Será que falta um pouco de coragem de assumir uma attitude, de levar esta attitude pra banca. Como resolver isso Bob? Eu acho que esta é a grande pergunta.

Bob Wolfenson – Eu acho que não é fácil, se alguém soubesse já teria feito, mas eu acho que é uma indignação. Eu acho que é bom isso, não é ruim. Você saber que é possível, que o Brasil melhorou, e tem mais coisas pra fazer, tem mais massa crítica, enfim, mas olha para aquilo e fala assim: pô, podia ser muito melhor!

Miro – Bob, a partir do momento que a gente está pagando para fazer editorial, a gente não deveria ter isso, eu acho que aí você pode…

Bob Wolfenson – Neste sentido nós temos que nos unir, como fotógrafos e ficar coniventes com isso,
já fizemos isso uma vez e podemos fazer outra.

Jussara Romão – Ok, mas eu não acho que tem que haver…

Miro – Não fica com medo não (risos).

Jussara Romão – Não estou falando que estou com medo, ao contrário, acho que toda divisão, todo segmento separado não funciona, só cria divergência. Se você for se tocando disso, e falar “não dá”. Vamos conversar com eles. Agora, se não der a conversa aí é outro processo. Eu sinto falta disso.

Bob Wolfenson – Mas, é estranho você pagar pra trabalhar, né? É muito estranho isso.

Jussara Romão – O que não dá é para vocês falarem assim: “vamos nos separar, vamos nos dividir, nós não concordamos”. Não é assim. Eu acredito nisso, acredito em grupo. Nós somos um grupo, queremos as mesmas coisas, eu pra revista, que é o meu segmento, vocês para o trabalho de vocês. O Oskar no caso dele. E a Sabrina quer também aparecer em imagens lindas. O barco é o mesmo. Em nenhum momento eu consigo nos ver separados.

"Se a editora Abril estivesse preocupada com o leitor, teria conseguido o retorno"

"...ela deveria ter formado já leitores neste país, que ela não formou. Ela acaba buscando só dinheiro, ela não está preocupada com o leitor"
Miro – Se a editora Abril estivesse preocupada com o leitor, teria conseguido o retorno. Mas, hoje ela quer atingir a mulher que é a segunda mulher do cara (risos), então na revista Nova cada dia a mulher é uma coisa, hoje ela é executiva, não, amanhã ela é dona-de-casa, não, no mês seguinte ela é uma outra mulher. Você sabe disso. É um abuso de querer achar coisas e ninguém formou isso. Eu acho que a editora Abril é uma grande responsável por isso, porque ela deveria ter formado já leitores neste país, que ela não formou. Ela acaba buscando só dinheiro, ela não está preocupada com o leitor.

Bob Wolfenson – Mas, acho isso uma discussão bizarra, bizantina, não vejo problema nisso. Isso vai sempre ter em qualquer coisa. Vai ter o bom médico, o mal médico, o bom hospital, o mal hospital, a boa loja como esta, a má loja como esta, sempre vai ter isso. O bom diretor de arte. E para o mal hospital vai ter o seu público, pra má loja vai ter o seu público, pro mal outdor vai ter quem vai achar bonito. Não é um desrespeito para os seus valores, mas não é um desrespeito para a sociedade em geral, porque tem gente na sociedade que acha aquilo bom.

Platéia – Sou de Belém do Pará, então, o que a gente sente fora do circuito sudeste, e praticamente é só aqui, né? Falta justamente o que ele falou, é fazer uma revista, que mostra o que é o Brasil, realmente, porque é uma fantasia muito grande o que as editoras fazem, mostram aquela beleza, como a moça, da modelo, que não é o padrão, infelizmente não é o padrão do país.

"Revistas de moda e comportamento trabalham no lúdico, no ficcional, ela não é fato, não é realidade, aí é outra coisa"
Bob Wolfenson – No Japão, eles fazem revistas com loiras. Revistas de moda e comportamento trabalham no lúdico, no ficcional, ela não é fato, não é realidade, aí é outra coisa.

Jussara Romão – Aí é outra revista.

Platéia – O que eu acho que peca, que vende menos nas revistas é justamente isso, porque o que acontece? Você bota aquele padrão de beleza, que infelizmente não é do país, aquele tipo de moda, que não é de todos ali …

Bob Wolfenson – Mas a revista vende em Belém?

Platéia – Não, sim, mas.

Bob Wolfenson – Então tem alguém lá que acha que é. O pacto, a realidade, o que é legítimo é o que é aceito. Isso que é legítimo, não a intenção. Se tem alguém lá em Belém que compra uma revista destas, que acha boa, se inspira naquela moda, faz uma roupa, gosta daquelas coisas, aquilo bateu, valeu, entendeu?

Platéia – Sim, mas, mercadologicamente, o que poderia fazer ampliar mais, tanto o mercado das editoras, dos fotógrafos, do mercado inteiro da moda é justamente isso. A gente tem que, sei lá se é sonho mesmo meu, tentar formar uma verdadeira visão do que é o país …

Bob Wolfenson – Ou você faz um movimento heróico, por exemplo, você inventa uma revista no Pará, uma na Bahia, uma no Rio, ou enfim, que seja esta, que tenha este perfil, ou o cara que é dono de uma revista faz uma coisa é do mercado. O dono de uma revista, ele só muda se vender mais. Então se ele sacar que o público está ansiando por uma identidade, por se ver nas revistas, por se ver exatamente do jeito que ele é real, ele vai fazer isso, mas se ele achar o público negro quer se ver loiro, japonês quer se ver branco, ou americano quer se ver francês, enfim, ele vai, entendeu? E eu acho que estas mudanças não são decisões subjetivas e pessoais, por que não se faz isso? Porque é um mecanismo muito complexo que envolve coisas muito maiores do que decisões pessoais, entendeu?

Jussara Romão – Só para dar uma resumida. Eu trabalho em Elle há dez anos, e nestes dez anos eu tive quatro diretores. A cada diretor, que é a alma da revista, nós tivemos que mudar as características da revista, caminhos completamente diferentes. Cada um deles defendia, por exemplo, eu comecei com a Regina Guerreiro, que era a diretora na época que eu comecei, era moda, moda, moda. Eu passei por um outro diretor: que esta revista não é de moda. Sabe assim? Então é feito sempre uma constante mudança. Eu acho que a Elle é a revista que mais passou por mudanças dentro do mercado de revistas de moda e eu passei por todas elas. A gente vive exatamente dentro disso. O diretor determina a gente vai lá, tenta, joga uma linguagem, batalha, nãnãnã, e aí? Não vende. Então, muda de diretor. Eu acho um grande erro, porque uma revista tem que ter uma personalidade. O que eu sinto, por exemplo, a Vogue, eu conheço a Vogue. A Marie Claire, eu conheço a Marie Claire. E a Elle tem que passar por todas estas etapas. Foi por minha causa? Não, não foi por nossa causa, foi uma direção acima de nós que decidia que não, que agora a linguagem é essa e o diretor bom é esse.

Miro – Continuo a insistir na preguiça do brasileiro, das editoras brasileiras, e que por exemplo: fazer moda se faz deste jeito, pegar aquela calça, aquela camisa, levar aquele sapato, colocar num fundo, fazer a foto e colocar na revista. Eu acho que além de tudo isso ela deveria explicar para as pessoas do país inteiro, que se ela tivesse esta roupa seria ótimo ela estar em Fernando de Noronha.

Bob Wolfenson – A editora Abril baixou um código de ética que não permite permutas, eu acho errado isso, sei lá, eles entendem que isso, para eles não serem obrigados a falarem bem de coisas que teoricamente eles poderiam estar isentos e não ter que fazer. Se você é convidado para ir pra Cuba, por exemplo, e o governo cubano te paga tudo, você tem que fazer uma matéria lá elogiando o Fidel. Esta é a moeda de troca, entendeu? Aí o cara fala não, isso eu não permito, eu prefiro esperar o dia em que eu tenha dinheiro para financiar.

Miro – Mas isso acontece no Brasil inteiro.

Bob Wolfenson – Não sou eu que estou dizendo, eu estou dando um exemplo extremo, mas é essa a postura.

Jussara Romão – Isso eu não entendo na moda. Um cenário não vai mudar nada.

Bob Wolfenson – Na boa, eu também fiz todas estas viagens. Conheci o mundo. O Daniel já pegou uma época magra. Com todo respeito a Osasco, deve ser o lugar mais longe que a gente consegue ir hoje em dia. Só pode levar um assistente. E comer pouco. Isso a gente sempre pergunta quando tem um editorial pra Vogue, principalmente, o que vocês querem que eu pague para equipe comer? O que vocês querem comer hoje? Porque em geral o fotógrafo que paga.

Platéia – Oi, meu nome é Izan e eu queria fazer uma pergunta. Existe alguma coisa que a gente poderia chamar de fotografia brasileira de moda?

"Eu acho que qualquer coisa feita no Brasil por brasileiro"

"Isso é brasileiro, porque o meu passaporte é verde e eu nasci aqui"
Daniel Klajmic – Eu acho que qualquer coisa feita no Brasil por brasileiro. Esta é a minha idéia desde o começo, acho que é uma coisa que eu defendo. Pode ser que você ache parecido, pode ser que ele ache que é igual, não interessa. Isso é brasileiro, porque o meu passaporte é verde e eu nasci aqui.

Bob Wolfenson – Você faz aqui, com as condições daqui. Não existe uma escola de fotografia de moda, no sentido de que nós nos reunimos e vamos ter uma identidade e fazemos um manifesto, aquele trabalho é um trabalho brasileiro. Eu acho que se você juntar, fizer uma iconografia de toda fotografia de moda produzida dos anos 60, que eu acho que é quando começou a fotografia de moda, até hoje, você tem a identidade, você reconhece uma fotografia específica, particular e brasileira, na figura de grandes fotógrafos.

Platéia – Eu sou publicitária, meu nome é Débora, estou representando a voz dos anunciantes. Você falou da onde vem tudo isso, né? O Miro falou que nós somos preguiçosos, tal. Eu acho que começa um pouco longe isso. Qual a decisão quando nós descobrimos que o nosso país é muito analfabeto ainda? Nós decidimos, através do Ministério da Cultura, que iríamos passar as crianças mais rápido, sem mais filtros de cultura e de educação. Elas íam deixar de ser analfabetas, não porque elas aprendiam, mas porque elas não teriam mais exames para isso, elas iriam passando. Então, acabou-se com o analfabetismo de uma certa forma com uma decisão. Da mesma forma é uma decisão que você tem que tomar, o que vamos fazer com o caminho da fotografia. Qual a decisão que nós vamos tomar?

Daniel Klajmic – Mas está na mão de quem esta decisão?

Bob Wolfenson – Nós vamos juntar todos os fotógrafos. A gente veio para um debate e vamos sair um sindicato (risos). Mas, acho que aqui seja um início de uma coisa que talvez a gente nunca tenha tido a oportunidade, porque também a profissão do fotógrafo é muito fechada, não é como do cara que faz cinema, entendeu? Que são quarenta caras, uma equipe enorme que você está lá se relacionando em uma produtora. Eu acho que você troca mais. O fotógrafo está lá no estúdio dele, eu no meu, ele no dele, a gente não conversa nunca.

"Fotografia de moda dita comportamento. A expressão e todos os profissionais desta área ditam o comportamento"
Oskar Metsavaht – Mas eu acho que está dentro de um grupo, é muito sectário. Não acho que é isso. A gente está em um período de movimento de expressão cultural do Brasil pra fora. O que nós estamos falando aqui? Moda é reflexo de comportamento, é observação de comportamento e transformação em produto, em coleções, em várias formas de expressão, cujo o qual a fotografia faz parte. A fotografia fotografa o comportamento, ou ela expressa o comportamento que o fotógrafo queira passar. Bom, tudo está baseado no comportamento. Fotografia de moda dita comportamento. A expressão e todos os profissionais desta área ditam o comportamento.

Daniel Klajmic – Eu acho que não. Tem uma editora inglesa, que há uns cinco anos tive a oportunidade de trabalhar várias vezes. Ela me falou uma coisa que eu nunca tinha pensado, o que faz sentido, tudo o que você faz para produzir a fotografia, na moda, é o único e exclusivo veículo. Você pode produzir o que você quiser, mas vai ter que estar fotografando em algum lugar, na revista, no catálogo, no anúncio. Então, a fotografia é o veículo da moda. Se você não tiver este link você não faz o ciclo completo, entendeu?

Oskar Metsavaht – Não, porque a fotografia ela está dentro de um todo, porque a gente observa comportamento através da fotografia. Quando eu me inspiro para fazer uma coleção, uso bastante referência fotográfica.

Daniel Klajmic – Eu não estou falando isso, mercadologicamente, no final vai ser colocado lá pra fora pra ele ou pra ela através da fotografia.

"Nós não temos um movimento nosso, da nossa sociedade inteira, pegar o que a gente tem agora, nós mostrarmos lá fora da nossa forma, nós mostrarmos a nossa expressão, não sermos olhados"

"Eu acho que não há um movimento aqui dos fotógrafos, acho que são todos os profissionais de moda nos darmos, agora"
Oskar Metsavaht – Mas não é um trabalho único, é um trabalho em conjunto. O São Paulo Fashion Week, que vocês falaram antes aqui, foi um movimento da união de vários profissionais, que foram dispensando, todo mundo dando um pouquinho de cada um, porque no início não tinha dinheiro pra ele. Hoje é um dos grandes movimentos aqui do Brasil, que é a forma onde se permite a expressão de todos profissionais de moda para o resto do mundo. Ele atingiu isso. Quando se fala de ter uma revista para se botar isso? O Brasil está, todo mundo fala, não precisa nem falar, não precisa ouvir os italianos, nós sabemos disso a muito tempo. Que o Brasil está na moda lá fora não é pela foto, não é pela moda, roupa, não é por mais nada que o nosso estilo de vida, ou seja comportamento. É um comportamento que é admirado pelo mundo todo, neste mundo contemporâneo, este estilo de vida nosso urbano integrado com a natureza. Bom, não vou falar disso, mas este movimento que tem hoje no mundo, este momento nosso, esta onda que está vindo pra nós, pela terceira vez, desta vez uma grande onda, que a nossa oportunidade, o mundo está aberto para nos assistir. É o momento nosso de nos expressarmos lá pra fora. Nós temos várias formas de nos expressar, no cinema, na música, que se expressa há muito tempo, tem os nossos esportes, está tendo a moda agora e a fotografia é aquela coisa, por que não tem fotógrafo que vai pra fora? Claro que tem, todos vocês já foram, eu já vi trabalhos de vocês publicados em editoriais, vocês são convidados para editoriais lá fora. Sob o ponto de vista editorial das revistas lá de fora. O que tem de revistas do mundo inteiro direto falando da nossa cultura, mas é o ponto de vista deles. Nós não temos um movimento nosso, da nossa sociedade inteira, pegar o que a gente tem agora, nós mostrarmos lá fora da nossa forma, nós mostrarmos a nossa expressão, não sermos olhados. No Rio de Janeiro, tem três revistas de fora fotografando aqui. Outra coisa, trazendo roupa de fora para ser fotografada aqui, com modelos daqui, só usar a locação e modelo brasileira e vai pra fora. Eu acho que não há um movimento aqui dos fotógrafos, acho que são todos os profissionais de moda nos darmos, agora. Mas, sabe o que é? É um instrumento nosso de botar lá fora. Todos nós compramos revistas, a gente compra muito mais revista importada do que nacional, todos nós aqui dentro, não tenho dúvida nenhuma, nós estamos comprando a comunicação lá de fora deles, o que eu acho mais do que normal, é uma troca, vamos dizer, só que nós não temos uma revista nossa lá fora, que leve, exatamente os nossos fotógrafos, a nossa moda, o nosso comportamento, o nosso ponto de vista, inscrita em uma linha editorial nossa. Não tem isso, é um absurdo. O Brasil hoje se expressando, tendo a oportunidade, várias marcas, empresas brasileiras, não só de moda estão precisando de instrumentos, ou seja, o que é? O que nós somos. Nós somos parceiros da revista. Eu odeio ser olhado como cliente pelos fotógrafos e pelas revistas. Eu sou parceiro, estou junto ali dentro. Estou dentro da linha editorial. Estou junto com o trabalho artístico do fotógrafo. É um movimento todo. Hoje vou dar um exemplo clássico, então, se sou, vamos dizer do lado meu empresário, estou tentando crescer internacionalmente e não tenho nenhuma mídia, porque as revistas brasileiras não vão lá pra fora. Tenho que esperar que as revistas lá de fora reconheçam o trabalho para ser convidado a fazer editoriais. Outra coisa, investir em publicidade, eu não tenho dinheiro nem para fazer anúncio em revista daqui do Brasil, imagina nas revistas lá de fora?

Bob Wolfenson - Eu acho que é esta a questão.

"Eu acho que o american dream no mundo está caindo e está surgindo o momento agora do brazilian soul. É um momento nosso de expressão, é uma oportunidade nossa de aproveitar que o mundo inteiro está nos olhando e profissionalmente a gente se colocar de uma forma forte e integrada"
Oskar Metsavaht – E vocês todos têm que ser convidados para fazer um editorial, então isso só acontece esporadicamente, nunca vai ter. Tem que ter um movimento, o São Paulo Fashion Week é um exemplo disso, de uma coisa que se expressou, é o quinto evento de moda do mundo, onde eu e outros designers e estilistas brasileiros tivemos a nossa oportunidade de mostrar o nosso trabalho pra fora através do São Paulo Fashion Week, e através de suas lojas nas cidades cosmopolitas brasileiras, porque comunicação de moda são as lojas também, é a loja, o desfile, a campanha é a fotografia. Com certeza tem que surgir um movimento agora, senão esta onda vai passar, daí sim nós vamos ver que nós somos incompetentes. Nós não nos achamos incompetentes nem ruins, não, sabemos e reconhecemos o nosso talento, a gente sabe que é um momento nosso mesmo agora, porque a gente conhece muito bem, olha, fazem, eu tenho 43 anos, fazendo uma média nossa aqui, fazem 30 anos que nós somos massificados pela cultura de marketing do cinema americano, fomos bombardeados muito mais do que os europeus, então nós conhecemos muito mais o american life style, o american dream do que os europeus, e conhecemos igualzinho os americanos, porque os americanos também só vêem mídia, não conhecem mais nada do que revistas e filmes, da mesma forma que nós os vemos. Nós conhecemos a Europa muito bem, porque as nossas famílias, a grande maioria aqui é de tradição européia. Então houve uma resistência nossa contra esta cultura americanizada, não resistência de um modo pejoraivo, agressivo, mas de manter tradições européias. Então, nós conhecemos a Europa tão bem, talvez eu exagero um pouco, mas conhecemos muito bem como alguns europeus. Americano não conhece Europa, não conhece o mundo inteiro, só seu próprio umbigo. O europeu não conhece o american dream, porque ele se fechou muito, quando ele entrou nós já sabíamos muito mais. E nós somos latino-americanos e a gente conhece a América Latina. Temos orientais, todas culturas misturadas conosco. O mundo globalizou, nós já somos globalizados há muito tempo, porque nós olhamos o mundo, aqui do hemisfério sul, nós olhamos o mundo há muito tempo do que outras nações olham o mundo. Então, é um momento nosso, é um momento onde nós temos uma cultura globalizada, uma cultura rica e nós temos um diferencial, que é o nosso brazilian soul. Eu acho que o american dream no mundo está caindo e está surgindo o momento agora do brazilian soul. É um momento nosso de expressão, é uma oportunidade nossa de aproveitar que o mundo inteiro está nos olhando e profissionalmente a gente se colocar de uma forma forte e integrada, como o Bob falou aí, a Itália fez isso há 30 anos atrás, os estilistas, as marcas ninguém conhecia, só conhecia os estilistas e marcas francesas. A indústria pegou, porque lá era muito parecido com o Brasil, a indústria de moda, eram várias confecçõeszinhas, sapatarias e tudo pequenininhas, e quando olharam disseram assim: bom, nós temos que pegar desde o fabricante de tecidos aos estilistas e passando com isso por todos os profissionais, jornalistas de moda, produtores de moda, fotógrafos de moda e fizeram o que eles se impuseram ao mundo. A Itália se impôs ao mundo como moda em toda a cadeia de moda, não só os fotógrafos e marcas, ou só a indústria têxtil, ou só as revistas. E o resultado está aí. As grandes marcas italianas, agora então nestes últimos cinco anos, que acabaram as marcas americanas, falar assim é ótimo, e os italianos que pegaram o grande Mercado. Virou o main stream da moda no mundo inteiro. A cadeia deles toda vai do pequeno confeccionista, o cara que prepara o coro da roupa, do calçado até o estilista, passando por tudo e agora as expressões, as revistas italianas, hoje em dia são as grandes ditadoras de moda…

Daniel Klajmic – A Vogue Itália, né?

Oskar Metsavaht - …mais do que a França, a Inglaterra e os Estados Unidos.

Daniel Klajmic – Não tem outra na Itália, tem?

Oskar Metsavaht – Eu acho que é um momento de união nossa, não os fotógrafos ficarem reclamando que não estão recebendo grana para fazer editorial. Não é o momento das revistas dizerem assim: caramba, tenho que cobrar muito mais dos anunciantes, etc. É um momento onde todo mundo dá um pouco e fazermos uma revista que tenha a cara da gente e que supra as necessidades de todos os profissionais da área, que respeite seus momentos autorais, suas dificuldades econômicas, isso tudo, e ganhar o momento especial nosso lá pra fora. O mundo inteiro vai comprar. Qualquer cidade que eu viajei neste ultimo ano, eu ia a todas as livrarias e quando chegava, em todas as línguas, tem sempre uma revista com um editorial inteiro sobre o Brasil falando do que nós somos, e vendem. Não precisa nem falar, todo mundo que viaja sabe que está o Brasil verde e amarelo pra tudo que é lado. Só que daqui a pouco isso vai passar, eles observaram e viram o material nosso e nós não aproveitamos, daí nós vamos poder nos considerar perdedores. A janela está aberta, é nossa.

Daniel Klajmic – É o que eu estou falando com ele, eu me sinto não reclamando da falta, eu me sinto sempre aberto e dando para a oportunidade. Eu continuo fazendo os editoriais, eu continuo pagando, eu não estou reclamando, eu só estou colocando um fato real. Eu estou desfantasiando, mas eu continuo ativo e vou continuar ativo até a hora em que me colocarem na situação de entrar em algum tipo de movimento, estou aqui para fazer sim, agora, não heroicamente sozinho, junto com uma série de pessoas. Eu acho que nenhum fotógrafo, nem Bob, nem Miro, nem quinhentos que não estão aqui pensam diferente, todos eles têm esta mesma vontade.

Oskar Metsavaht – E a mesma coisa, nós marcas, designers e jornalistas de moda, todo mundo.

Bob Wolfenson – Tudo isso que o Oskar falou é muito interessante, mas precisamos saber como fazer isso, porque é muito, eu tenho esta revisteca, esta S/N°, que é uma revista de 3 mil exemplars e a gente põe ela lá fora, mas é uma dificuldade. Vender aqui é uma complicação, imagina você fazer uma coisa que você consigue viabilizar lá fora. É lógico que a gente teria que fazer um esforço conjunto, todo mundo, um grupo enorme e tentar fazer isso. Eu acho bacana.

Oskar Metsavaht – Você imagina o custo de fazer um catálogo, eu sozinho tentar lá fora.

Bob Wolfenson – Eu acho uma idéia genial só que precisa combinar, fazer uma comissão.

Platéia – Sou Fernanda, sou fotógrafa de moda, mas a minha área é passarela. Então, como foi dito aqui, a fotografia é o que registra a moda. O que eu luto muito, foi que eu comecei com o analógico, amo analógico, o filme, o cromo, eu acho que é realmente a fotografia, onde o fotógrafo coloca a arte dele. Por outro lado, fui imposta a usar o digital há quatro anos. Se eu não entrasse no digital, não fotografava mais. Faço todas as passarelas nacionais e comecei, há dois anos, entrar no internacional. E o que eu noto? Falta um pouco é o designer brasileiro chegar e dar ouvidos pra nós, porque realmente a fotografia final que vai sair é uma outra visão da de vocês, que é mais editorial. Dar ouvido ao fotógrafo que está lá registrando o momento dele, chegar e falar: o que você acha desta luz? Porque ele vai trabalhar esta imagem durante seis meses no mínimo, são poucos os designers que dão esta opção pra gente. Eu estive agora em BH, onde o Inácio Ribeiro, da Clements Ribeiro, virou pra mim e falou: Fernanda, esta luz é boa para você fazer as fotos, não agrade muito não a Suzane, chega pra mim e fala: é boa ou não, porque eu vou trabalhar com esta imagem durante seis meses ou mais, e não só estes 15, dez minutos que é a passarela. O digital, realmente é uma praticidade, no mesmo minuto a foto está lá fora. Hoje, participo de um dos maiores bancos de imagens, a Getty Images, e vejo o que eles vendem das imagens brasileiras. São Paulo Fashion Week, como você falou, é um movimento muito grande que deu visibilidade do que é a moda brasileira lá fora. As modelos brasileiras estão cada vez mais destacadas, nas passarelas internacionais tem muita brasileira. É o momento do Brasil crescer, se expor. Então, eu acho que a gente tem que realmente pegar. A gente não pode deixar perder isso. Muitas vezes a gente é: “não vou fazer com ela e vou fazer com o fotógrafo da esquina, que comprou uma digital e se chama de fotógrafo”. E como você falou, Daniel, perde a essência da fotografia, porque não aprendeu como fotografar, e se acha o fotógrafo, faz um monte de burrada e depois chegam pra gente: “ai, corrige?”. Não dá pra corrigir, ou você contrata um bom fotógrafo ou não. Na área digital, na área analógica, o que seja. Cada um tem a sua visão, o seu olhar, sua história, seu background e põe pra fora.

Daniel Klajmic – Eu acho que o que estamos tentando dizer é que este fenômeno do Fashion Week, e o que a gente vê na TV aberta, na TV a cabo, não esqueçam, na hora de dividir este bolo todo, da fotografia, seja de passarela, seja da revista Vogue, da revista S/N°. Às vezes, na hora de fazer um evento de moda da televisão, do video, da GNT e da internet, e tudo isso, a outra parte fotográfica acaba ficando com o que sobra, e é tão importante quanto o resto da comunicação.

Oskar Metsavaht – Eu acho, até porque a minha marca é de life style, eu gosto de expressar life style, o fotógrafo é life style, entendeu? É estilo de vida, é comportamento, acho que isso agrega o desenvolvimento da coleção, até por referências. Os fotógrafos, dos profissionais de moda, são os que são mais valorizados, bem mais do que os jornalistas, os produtores de moda, do que os stylist. É mesmo.

Daniel Klajmic – O fenômeno do Fashion Week é gigantesco, e o resultado que tem pra você é muito mais instantâneo e mais barato do que produzir um catálogo com as dificuldades. Não tem como o estilista negar a praticidade que é o Fashion Week. Eu acho que na hora que você tem a possibilidade gigante de veicular a imagem do Brasil, eu sinto que isto está andando muito mais rápido do que a nossa discussão editorial, o mercado interno, verba para revista, direção de revista, este que é o nosso trabalho do dia-a-dia, produção de campanha, acaba andando um pouquinho mais devagar do que este processo acelerado do desfile, do Fashion Week, de mandar imagem, internet, TV a cabo. Isto está atropelando um pouco o nosso local.

Oskar Metsavaht – Não substitui, Daniel. É claro que o Fashion Week não substitui isso. Você tem que lembrar que as marcas brasileiras, na sua grande maioria, começaram no fundo de quintal, com seu dinheiriho de bolso, da mesma forma que você comprou a sua primeira câmera fotográfica. Pra nós conseguirmos sobreviver neste país, com todas estas coisas de impostos e colocar sua lojinha e ir aos poucos é um esforço fenomenal para todos nós. Os faturamentos das nossas empresas são infinitamente menores do que qualquer outra destas marcas de fora. A verba que se tem para realizar são bastante pequenas. Claro que eu faço questão da campanha, a nossa coisa nas revistas e interpretada por um fotógrafo que se identifique comigo e com a coleção e de ter uma coisa esteticamente bonita, estar em todas as revistas com página dupla ou três páginas. É o sonho de todos nós quando está expressando a sua coleção, o seu estilo. Mas, o que acontece? Os custos são altos, tanto de fazer catálogos quanto de fazer anúncios nas revistas. E, geralmente, algumas revistas, que têm uma viabilidade econômica, não têm tanta expressão no número de edição, é bem a cara do Brasil, a gente tem talento, mas não tem dinheiro. A gente é bonitinho, mas é pobre (risos).

Platéia – Meu nome é Marcelo, trabalho com criação publicitária. Acho que tem um desafio exatamente aí, porque esta queixa de que a gente não consegue efetivamente nenhum canal do dinheiro com a expressão. Com esta idéia de globalização, eu só tenho clientes, na grande maioria, que trabalham com verbas, com margens dentro do sistema multinacional, e a gente tem que se adaptar a esta realidade, que é muito difícil mesmo. Gera este gap enorme, entre a capacidade que a gente tem de se expressar e a adequação do top down, quer dizer, a gente tem que atender uma demanda que é globalizada, efetivamente. Concordando com esta questão da cultura, o grande desafio da gente que trabalha com comunicação é produzir cultura que possa ser referência, não só para o exterior consumir, mas para o mercado interno, porque hoje o que acontece é uma falta de reconhecimento da competência técnica das pessoas, a gente vive em um mercado que está estrangulado, onde a gente fica submetido ao poder do dinheiro, que é capaz de ignorar totalmente as competências técnicas. Neste quadro, a provocação que eu tenho a vocês é: a gente tem excelentes fotógrafos, temos uma editora, uma comunicóloga ali também e temos um empresário com cultura, o que é raro também, né? No sentido de reconhecer o valor e a competência dos profissionais. Então, de alguma forma, este manifesto, este entendimento que é preciso mudar, ele tem que produzir alguma coisa que possa sensibilizar as pessoas que estão nos postos estratégicos, que tenham a capacidade de tomar decisão de aprovação do processos, entendeu? Porque a gente esbarra é neste monolito, na verdade eu brinco, eu tenho uma cliente que é flanelinha de lay out, porque como ela tem o poder da verba ela é capaz de ficar o tempo inteiro mudando, como muda o seu céu, muda a marca e tal.

Miro – As pessoas que estão sentadas aqui não têm este monolito, não. Podem fazer o que quiser, só não está fazendo quem não quer.

Platéia – Então esta provocação é maior ainda (risos).

Bob Wollheim – Vamos aproveitar esta provocação final e fazer uma última rodada? Depois a gente tem festinha, senão as pessoas não aguentam mais ficar duas horas sentadas. Miro começa e faz um pouquinho a sua provocação do monolito, que não está na frente de cada um, e depois cada um pega o microfone e faz a sua colocação final.

Miro – Eu acho muito maluco ficar falando coisas, por exemplo, do exterior, que tem que levar pra fora. A gente tem que pensar na gente, se a gente não estiver forte, todos juntos, são sonhos individuais, de você, do Bob, como sempre foi do Brasil, cada um com um sonho particular. Eu quero a minha marca lá fora na Bloomingdale’s, ou em Paris, eu acho que cada um tem um sonho particular. Pessoas como ele e um monte de pessoas neste país, que tem dinheiro para poder mexer com a coisa de investir, estão pensando na coisa lá fora. É um momento que estamos vivendo, tanto que há cinco, seis anos houve a onda de todos os donos de confecções chamar fotógrafos de fora para fazer todas as campanhas aqui dentro e cobraram o que quiseram e foram embora e voltamos nós a fazer pela merreca de sempre (risos e palmas).

Oskar Metsavaht – Agora eu vou ter que me defender, rapidinho. Em primeiro lugar estas marcas que você fala têm 30 a 35 anos, e a Osklen tem 15 anos, é outro momento de marca. Nós estamos falando de fotografia de moda. Ela é autoral, é mais artística do que fotografia comercial. Nós estamos falando de elite cultural, porque a forma como vocês querem expressar a fotografia de vocês é para poucos neste país. A expressão de moda nossa também é para poucos neste país. O que acontece é que o Brasil é um país popular. A nossa mídia, onde as grandes empresas, que têm para pagar, para bancar um trabalho teu, do Bob, ou do Miro, que vale o trabalho de vocês, são estas grandes empresas que têm bala, o cacife, só que são elas que, exatamente o público delas não é elitisado, é o público popular. Então, a comunicação é outra. Vocês se realizam financeiramente, mas não artisticamente. Na moda existe uma simbiose muito boa, porque a moda quer a fotografia artística, só que a moda não tem o cacife para pagar. O trabalho de fotografia e moda é muito mais pelo tesão de fazer, e claro, ser remunerado por isso, proporcional do que seja, do que ser esta cobrança em cima das empresas de moda no país em geral, com várias excessões de vários lados. E falando a mesma coisa para as revistas, marcas de moda, designers não tinham que anunciar em revista, tinham que fazer parte da linha editorial, porque se elas são moda e vocês estão falando de moda elas são protagonistas, não são cliente. E os anunciantes de revistas não têm que ser as marcas de moda, os anunciantes têm que ser as grandes empresas, que têm capital para bancar e estar junto este comportamento, porque moda é comportamento, é uma forma de expressão, que nem a fotografia…

Bob Wolfenson – Mas não pode assambarcar toda a sua identidade e colocar no editorial dela.

Oskar Metsavaht – Mas, por que é que pode ter a sua assinatura lá dentro?

Bob Wolfenson – Porque eu sou um prestador de serviço para a revista, eu sou um prestador de serviço para a sociedade.

Oskar Metsavaht – Mas não pra revista.

Bob Wolfenson – Por que não? Você é para a sociedade porque você tem um canal de expressão que é seu, que você vai bancar, vai veicular, vai fazer e fazer da sua forma. Através de uma revista você tem um espaço, que um espaço pequeno, editorial e um espaço publicitário, é isso. Eu sou um prestador de serviço, eu sou do artesanato da revista, o vestido, não.

Oskar Metsavaht – Não acho, sabe por que? Porque no momento em que tem o seu nome, assinando embaixo a revista, está fazendo propaganda para você.

Bob Wolfenson - Eu não estou cobrando nada para fazer uma revista. Eu estou trabalhando para uma revista e o pagamento que a revista me faz é botar o meu nome, este é o pagamento.

Oskar Metsavaht – E a roupa que eu estou fazendo…

Bob Wolfenson – Mas você vai vender a sua roupa, eu não vou vender a minha fotografia.

Daniel Klajmic – Você não quer comparar o crédito do fotógrafo com a loja em Ipanema.

Oskar Metsavaht – Quando você vai fazer um anúncio que tiram o teu sol e tudo, você está vendendo. Você está no acordo que você comercializou.

Daniel Klajmic – A natureza de um trabalho editorial é diferente da natureza de um trabalho publicitário.

Bob Wolfenson – Se eu tivesse uma loja de produtos, um estúdio, em um bom ponto de venda, que chamasse o cliente, e eu assinasse na revista o meu estúdio fotográfico, Bob estúdio, venham aqui, com o endereço embaixo, aí seria diferente, mas eu faço parte do artesanato da revista.

Oskar Metsavaht – Mas quando você faz uma campanha para alguma empresa que te chama, uma Telefônica, que seja…

Bob Wolfenson – Não tem crédito.

Oskar Metsavaht - Tudo bem, mas como é que o cliente chegou nele?

Bob Wolfenson – Por um conjunto de coisas, como você disse, é histórico, um conjunto de fatores que me levou àquilo.

Daniel Klajmic – Desde o pedido dele com o portfólio lá, físico, indo lá e falando: este é o meu portfolio, e todos os retornos.

Oskar Metsavaht – As minhas coleções, a cada semester, são meu portfólio.

Bob Wolfenson – Eu acho que você está defendendo uma coisa estranha, que é pegar os anunciantes de moda, os fazedores de moda e colocar eles no banco editorial da revista. Isso assim, nunca vi.
Jussara Romão – É um absurdo. Nem seria possível, gente, revista não é um barco em que todo mundo entra e dá opinião. Revista é um meio de comunicação definido. Não dá para dizer em uma revista: “olha, como eu anuncio, quero que funcione deste jeito e eu quero que fale da minha roupa deste jeito”. Desculpa, não é assim.

Oskar Metsavaht – Desculpa, eu falei isso aqui agora? Que tem que botar do jeito que a gente quer? Não falei. Só que a revista de moda não existe sem a fotografia e sem moda e sem modelo.

Jussara Romão – Evidente.

Bob Wolfenson – Os ensaios de moda, o cara que trabalha em uma revista, por exemplo a Jussara, que é uma editora, ela não vai pegar uma roupa inteira sua…

Oskar Metsavaht – Mas eu não estou falando isso. Vocês estão botando coisas.

Bob Wolfenson – Eu estou dizendo que neste sentido você está participando da revista, porque ela pegou um casaco seu e colocou na calça do Alexandre Herchcovitch, botou em um top da Glória e fez uma interpretação daquela roupa, está sugerindo uma forma das pessoas usarem, propondo uma forma de se vestir. Ela chama o fotógrafo para dar àquilo um sonho, remeter aquilo artisticamente, fazer daquilo uma coisa que a pessoa almeje. E você já está lá.

Oskar Metsavaht – Está na linha editorial. Então é isso.

Bob Wolfenson – Então que outra parte você acha que poderia entrar?

Oskar Metsavaht – É esta, exatamente esta. Estou dizendo para as revistas não ficarem em cima dos profissionais de moda, dos designers e estilistas, vê-los como anunciantes.

Jussara Romão - Aí é o mercado publicitário, não o nosso.

Oskar Metsavaht – Estão toda hora batendo na Osklen para anunciar dentro das revistas.

Bob Wolfenson – Aí acontece um fenômeno, e eu estou falando aqui nem como fotógrafo, mas como alguém que participa e vê, como ouvinte destas questões. Um anunciante que anuncia em uma revista, ele quer ver a roupa dele em um editorial e o contrário também, a revista bota uma roupa de alguém em um editorial e vai buscar o anunciante. Isso é uma relação comercial, que eu vejo claramente, não sei se ela é explícita, mas que existe, existe. Esta relação já está acordada, já existe, já é um acordo, que está lá para que as revistas existam, para que os fotógrafos existam, para que as editoras existam e para que os anunciantes existam.
Bob Wollheim – Você coloca uma questão macroeconômica, de globalização, de restrição de verbas, de concentração, de redução das redações, e isso não escolhe um público. O mercado publicitário e o editorial estão reduzidos, e mercado da fotografia também. Nada mais, me parece que vocês estão retratando um bom corte do que está acontecendo no mundo.

Bob Wolfenson – Exatamente.

Daniel Klajmic – E isso reflete diretamente nesta engrenagem que o Bob está falando, como tem este acordo selado entre anunciante e editoria, tem o mesmo acordo selado entre revista e fotógrafo, o fotógrafo vai fazer de graça. E são relações que funcionariam e estavam funcionando até certo ponto, onde existe um encolhimento econômico, onde você começa a ser imposto uma visão dentro do editorial, que passa a depor contra esta relação acordada, que era vantajoso para todo mundo. No fim é isto que a gente está falando.

Bob Wolfenson – O mecanismo do mercado é este, é exatamente este. Se você se indigna e isto te revolta, eu acho que ele vai continuar sendo assim, só que este limite, que a gente está chegando a uma conclusão aqui, se esgotou. A forma como está sendo feito hoje está esgotada. Hoje não é mais excelente como já foi, hoje é mais para o mediocre.

Daniel Klajmic – E para completar o que o Marcelo falou, que eu achei interessante sobre o monolito. A partir do momento em que os detentores de dinheiro, se é que existe esta coisa, que são os nossos donos, e etc. e sei lá o quê, que contratam e fazem a direção da revista, etc. e tal. Digamos que vai acontecer, vai melhorar quando eles perceberem que aquilo, não porque ele é legal, é mais bonito ou porque tem mais cultura, quando acharem que aquilo é rentável, que cultura é rentável, este comportamento é rentável, a foto de moda louca também é rentável. É só uma questão de mentalidade, de poder extrair, porque tudo é business, revista é um business.

"Estamos em um momento de crise, estamos discutindo aqui uma crise. A crise é a mola propulsora da mudança, vai nos colocar no caminho de mudar, da criatividade"
Bob Wolfenson – As coisas andam e progridem de uma crise, se está todo mundo satisfeito, vai todo mundo empurrando com a barriga. Estamos em um momento de crise, estamos discutindo aqui uma crise. A crise é a mola propulsora da mudança, vai nos colocar no caminho de mudar, da criatividade. Ele está propondo uma maneira da marca paticipar de uma revista, faz parte da crise. É uma crise dele como anunciante, ele está infeliz e fala assim: “eu me sinto só um anunciante da revista, ou coloco ali uma roupa minha de qualquer jeito, como não gosto”. Quero participar de uma outra forma. A gente não sabe como.

Oskar Metsavaht – Artisticamente, como vocês fotógrafos.

Bob Wolfenson – Exato, mas isso precisa ser discutido e precisa ser conversado, criado e testado para que exista um dia de alguma forma, para que a gente vá para um outro patamar, um outro jeito de fazer a coisa.

Bob Wollheim – A Sabrina falou pouco, mas falou bem, disse que o melhor do brasileiro é o brasileiro, ao contrário do que a gente achou em uma parte desta conversa.

Oskar Metsavaht – Mas as brasileiras são melhores ainda, que os brasileiros.

Bob Wollheim – Queria agradecer novamente a presença de vocês, a participação da Fnac, o Miro, Daniel, Oskar, Jussara, Sabrina e Bob. Obrigado!
 


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