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fotos por Cris Ameln |
"Os fotógrafos Miro, Bob Wolfenson, Daniel
Klajmic, a editora da revista Elle, Jussara Romão,
o diretor de estilo e criação da Osklen, Oskar Metsavah
e a modelo Sabrina Gasperin falaram para uma platéia de 150
pessoas, que lotou o auditório da Fnac Pinheiros, em São
Paulo, no último dia 19 de abril. O encontro também
marcou os cinco anos do FOTOSITE e o lançamento da quinta edição
da REVISTA FOTOSITE.
A conversa foi além das discussões técnicas inevitáveis
nos dias de hoje, como fotografia convencional x digital. Gerou polêmicas,
idéias, sugestões e, ao final, uma saudável discussão.
E a conversa foi quente, passando por temas como a crise do mercado.
e terminando com questões e opções para integrar
mais o trabalho de cada um desses elos – fotógrafo, editor,
estilista e modelo – para se obter um produto da moda mais consistente.
Acompanhe a íntegra do encontro. |
Jussara Romão – Boa noite, para quem não
me conhece, trabalho há dez anos na revista Elle, comecei
como assistente de produção e, há cinco anos, sou editora
de moda da revista. Esta reunião aqui, pra nós, é diferente
porque não estamos acostumados a falar em público, mas acho
que vai ser interessante, porque a gente está aqui com o melhor da
fotografia, sem desmerecer os que não estão aqui, mas grandes
fotógrafos, Miro, Bob, o Daniel, o Oskar, que é o dono da
Osklen, vocês devem conhecer, e a Sabrina, que vem representando
o outro lado, que é um trabalho conjunto, as modelos. Estamos aqui
com boa parte de um trabalho em conjunto, que é editoria de moda,
enfim os editoriais de moda. Para começar, eu queria puxar este assunto
do digital, que eu sei que alguns fotógrafos relutam e resistem a
esse novo mercado da fotografia que é a máquina digital, a
fotografia digital. Eu queria saber a opinião de todos aqui sobre
esta nova fórmula de fotografar a moda, que está dominando
e muitos estão começando por isso, então eu queria
saber a opinião de cada um, Bob.
"O que importa
na fotografia de moda, pra mim, é uma sintonia de desejos,
o desejo do fotógrafo, o desejo da editoria, o desejo
da modelo, que também está ali representando
um papel, é uma equação, o maquiador
que também está lá se expressando, tudo
isso resulta em uma boa fotografia de moda" |
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Bob Wolfenson – Eu não acho isso uma questão.
O que importa na fotografia de moda, pra mim, é uma sintonia de desejos,
o desejo do fotógrafo, o desejo da editoria, o desejo da modelo,
que também está ali representando um papel, é uma equação,
o maquiador que também está lá se expressando, tudo
isso resulta em uma boa fotografia de moda. O David Bailey, fotógrafo
inglês dos anos 60, dizia que uma boa fotografia de moda é,
antes de tudo, uma boa fotografia, uma boa imagem, uma imagem que evocasse,
que provocasse, que cativasse, e você saberia que era de moda quando
tivesse os créditos em baixo e os preços ou as coisas que
são referentes à fotografia de moda. Quanto à questão
do digital, eu não uso digital, mas também não tenho
nada contra, é uma questão só de adaptação,
porque isso é inexorável, não há como fugir,
é como dizer assim, sou contra o cinema, sou contra o vídeo,
sou contra… O que importa não é o meio que você
usa, é o resultado, o que importa é o que está lá
impresso na revista, se ele foi feito no digital, com câmera subaquática,
com câmera Kodak, o que for. Eu acho que isso não é
importante. Para cada sujeito que está usando a fotografia como forma
de expressão o canal que ele quiser, ou o veículo que ele
quiser usar, se ele conseguir passar a mensagem dele, e contemplar também
a editoria, eu acho que isso não é tão importante.
Miro – Vou passar para o Daniel que é
mais jovem, pode falar.
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"Tecnicamente,
tem processos que a gente sabe, gosta de usar e tem contato
lá de antigamente, que nem se usa mais, reprodução
de cromo, internegativo direto, cibachrome, tem quinhentas
coisas, a fotografia sempre foi meio infinita, e, particularmente,
toda esta alquimia da fotografia sempre me atraiu" |
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Daniel Klajmic – Eu acho que o Bob está certo,
e eu só queria adicionar o que a Jussara também falou, que
é quem está começando a ter contato com a fotografia.
Eu tive contato com uma série de pessoas que estão começando
a fazer assistência ou com estúdio, aluguel, com contato com
uma galera que está querendo fotografar profissionalmente. O que
me preocupa na formação destas pessoas, hoje em dia, porque
mudou muito, quer dizer, tem cursos hoje em dia que são sensacionais,
mas não estão dando mais tanta ênfase no analógico,
né? No filme mais. Já estão ensinando você a
lidar com o back digital, com a câmera tal, com o software tal, com
o computador tal. Tudo bem, é legal, mas acho que eles deveriam coexistir,
porque senão não vai se renovar a geração.
Tecnicamente, tem processos que a gente sabe, gosta de usar e tem contato
lá de antigamente, que nem se usa mais, reprodução
de cromo, internegativo direto, cibachrome, tem quinhentas coisas, a fotografia
sempre foi meio infinita, e, particularmente, toda esta alquimia da fotografia
sempre me atraiu. Eu fico com um pouco de pena de achar que isso está
ficando esquecido e não está coexistindo, se fosse coexistir
seria legal, mas em prol de um o outro, fica mais difícil achar filme,
fica mais difícil fazer serviço fotográfico, entrar
em contato com muita coisa. De uma certa forma, mercadologicamente falando,
aí entra a parte de editoria de moda, que a revista tem prazo, a
editora já se acostumou e já quer meio formar custo. A gente
tem um problema no Brasil de custo, que o fio condutor de tudo acaba sendo
custo aqui, e a fotografia tradicional perde, porque não tem como
comparar o custo de uma com a outra, né? Então essa é
uma preocupação, de perder o acesso às coisas e a nova
geração nem chegar a ter conhecimento destas coisas. Acho
que quem já conhece está ficando inviável, e de repente
a galera nova nem sabe do que eu estou falando que está ficando inviável.
Agora, fora isso, é que nem falar que o cinema vai sumir depois que
chegou o vídeo, etc. e tal, né? Acho que isso é progresso,
vai acontecer e vai achar o seu espaço. Eu só gostaria de
ter certeza de que a fotografia como ela é vai continuar, porque
é o que eu gosto. Miro – Eu concordo
com você, hoje está em falta no mercado instantâneo 4
x 5 da Fuji, Polaroid não existe mais porque fechou, está
em falta até na Fuji, isso quer dizer que eles vão voltar
daqui a pouco e vão aumentar o preço, isso é o mercado.
As minhas referências de fotografia são Avedon (www.richardavedon.com),
Helmut Newton, Sarah Moon, o que eu sei é que Helmut Newton a vida
inteira tinha um laboratorista só pra ele, que só revelava
os filmes dele. Tem detalhes de sofisticação que vão
se perder. Eu, na verdade, gostaria de poder viver mais tempo ainda pra
ver o que vai resultar da fotografia digital, que a gente está começando
a viver hoje. Tenho algumas dúvidas, porque estamos em um processo
de aceleração de internet, por exemplo, a partir do momento
que alguém compra uma câmera digital, no dia seguinte já
se diz fotógrafo. É um tremendo perigo pra própria
pessoa que comprou a câmera, porque está muito distante do
que está acontecendo hoje. É só isso que gostaria de
falar sobre digital. Não acredito muito não (risos).
Jussara Romão – Não vê um futuro?
Oskar Metsavaht – A primeira coisa, não
sou fotógrafo, mas gosto de fotografia. Com certeza existe a diferença
entre o resultado da fotografia digital e com a película. A película
encanta muito mais visualmente ainda do que o preocesso digital. Acho que
cada uma tem seu espaço. O digital trouxe a praticidade e a economia.
Por exemplo, quando eu acompanho um fotógrafo para fazer nosso catálogo,
nossa campanha, como eu faço a direção de criação,
sou eu que edito os catálogos das nossas campanhas, e uma coisa que
eu gostei quando trabalhei com fotógrafo que fez com digital era
realmente poder repetir a foto, sabe? Não esperar o resultado final,
porque depois, na hora de editar, não tem aquela chance de voltar
e fazer aquela foto que faltou. Bob Wolfenson
– Isso é horrível para o fotógrafo (risos).
Oskar Metsavaht – Eu sei disso, o que brigo
com fotógrafo, ô! Vou colocar isso em debate. Acho que o fotógrafo
é um artista e o estilista de uma marca também é. Quando
a gente começa com uma coleção tem um conceito, né?
E eu já comecei coleção minha pensando no catálogo,
lá na foto, lá no final. Então é um processo
que envolve um todo, não só fazer a coleção,
as roupas, e sim todo um conceito de uma coleção. O processo
criativo de fotografia, de campanha de moda, de campanha conceitual, de
marca e tudo, tem que ser um trabalho realizado junto. O fotógrafo
tem que estar naquele momento junto até, a partir do primeiro briefing
inspiracional, o fotógrafo estar desenvolvendo junto a coleção
toda, daí tem a harmonia. Eu entendo isso, claro, o problema do processo
digital é esse, mas quantas vezes eu tive fotos maravilhosas, lindas,
que eu quero ter na minha casa, no escrtório, mas às vezes
não contou aquilo que você queria contar, porque a coleção
tem seu conceito. Então o processo de realizar com a digital, às
vezes até de uma forma comercial, faltou aquele cinto, podia ter
isso, este acessório aqui a mais na roupa, já foi, depois
que a foto foi feita, maravilhosa, artisticamente muito bem feita. Na hora
de editar o catálogo não fica coerente, às vezes por
falta disso. Estou defendendo a digital por isso, mas jamais trocar. Eu
acho que um trabalho artístico com a fotografia de película,
com certeza quem tem um olho apurado nota a diferença. Eu acho o
encantamento, o glamour da fotografia tem que pertencer à película.
A praticidade e a economia à digital, com certeza. Sabrina
Gasperin – Eu não tenho todas estas informações
técnicas, mas pra mim a diferença é como o vinil e
o CD, o charme da coisa. Para o meu trabalho, reparo que os fotógrafos
usam mais a digital quando é um trabalho mais rápido, um catálogo
que não é é aquela campanha incrível, tem que
ser mais rápida. Miro – Se brigou
muito pela fotografia de moda no Brasil. Pra mim, o exemplo máximo
de se brigar pela fotografia de moda no Brasil, e eu acho que a gente conseguiu
um monte de coisas inclusive Bob, Duran, Daniel, fazer as coisas mais bem
remuneradas, mais bem pagas por todo o processo que se tem, de estúdio,
de assistente. Está se passando por outro processo, fazendo com que
o nosso, que é uma coisa um pouco mais complexa e um pouco mais cara,
caia junto com toda esta coisa digital. Não é um debate sobre
a fotogrfaia de moda, é a fotografia. E a moda se utilizar disso,
tudo bem, mas por exemplo, o Terry
Richardson que faz foto instantâneas, tem referências
de fotógrafos que usavam máquinas 20 por 25. Então,
acho que a digital, talvez daqui a 40 anos seja alguma coisa. Hoje, para
o nosso mercado do dia-a-dia está balançando um monte de coisa.
Você concorda?
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"O que acontece
hoje em dia é que o trabalho, principalmente de publicidade,
eu nem falei de fotogrfaia de moda para revista, mas a publicidade
de moda e a publicidade geral, ela virou um Frankstein, o
fotógrafo não é mais um fotógrafo,
ele é um catador de coisas" |
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Bob Wolfenson – Eu não sei, eu não
penso nisso. Entendo o que você está falando, tem uma coisa
que barateou muito o trabalho, ele ficou mais fácil … O que
acontece hoje em dia é que o trabalho, principalmente de publicidade,
eu nem falei de fotogrfaia de moda para revista, mas a publicidade de moda
e a publicidade geral, ela virou um Frankstein, o fotógrafo não
é mais um fotógrafo, ele é um catador de coisas. É
gincana, você vai lá e pega uma coisa aqui, pega outra coisa
ali, outra coisa ali, fotografa isso aqui, mesmo que você não
fotografe digitalmente, eles vão juntar tudo digitalmente. Então
você vai lá para Fernando de Noronha fica esperando o sol,
na hora certa, com a luz certa, a inclinação certa e o cara
vai pega o seu fundo, coloca outro, vira o morro do outro lado, eu estou
falando isso porque tem uma foto minha da Claro que aconteceu exatamente
isso, ele virou o morro do lado contrário, mudou a cor do fundo,
pegou a foto que eu tinha feito sem sol, e enfiou um sol, e eu não
tenho nada a ver com isso (risos). Eu não sou mais o dono desta foto,
não sou mais autor aí, eu sou um catador de coisas. Fui lá
e peguei um monte de franksteinsinho pra ele montar. Isso é uma realidade.
Agora, tem muitos artistas fotógrafos que só usam digital
e vendem as fotos por 30, 40, 50 mil dólares. Quer dizer, a fotografia
digital em si não é uma coisa ruim… Miro
– Estamos falando para pessoas que querem saber o que é mercado.
Faltou falar que quem faz a foto digital eles acham melhor. O cara que mexe
com computação que custa 20 mil dólares, a gente está
falando de outras coisas, a gente está falando do Brasil hoje…
Daniel Klajmic - Que o mercado digital está
comendo o nosso mercado (risos). Miro –
Eu adoraria estar na posição dos grandes fotógrafos
do mundo inteiro. Se falar em digital na Itália, para todas as Vogues,
fazer foto de moda, você deixa seu filme lá, você sabe
que esse filme seu vai para aquele cara que você quer, daquele jeito
que você quer. A gente não, a gente fica brigando porque cortaram
um pouquinho a mais a foto que não deveria. Não é nem
o digital mais. Bob Wolfenson – Eu acho
que também, em um mercado selvagem e insipiente como o nosso, é
preciso regulamentar isso. Que é uma realidade, que é inexorável,
que isso vai acontecer, que vai ter foto e o mercado vai sendo mudado por
isso, sim.
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"Esta geração
digital existe, não sei se a palavra certa é
desrespeito, eles passam por cima de um monte de coisas que
a gente, para chegar aonde chegou, não podia passar
por cima disso, porque fazia parte de um processo" |
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Miro – Mas eu acho, que, por exemplo, você
falaria para alguém que quer ser fotógrafo de moda, pra mim
não importa, como você falou no começo. O que importa
é você estudar, saber direcionar, se é digital, não
importa. Esta geração digital existe, não sei se a
palavra certa é desrespeito, eles passam por cima de um monte de
coisas que a gente, para chegar aonde chegou, não podia passar por
cima disso, porque fazia parte de um processo. Eu acho que as pessoas hoje
vêm um livro de fotografia, compram uma câmera digital e viram
fotógrafos no dia seguinte, sem ter nunca feito nada de fotografia.
Bob Wolfenson – Mas aí eu acho que é
uma rua de mão dupla, o cara para virar fotógrafo, eu posso
dizer sou fotógrafo e não fotografo para ninguém, ninguém
me aceita como fotógrafo, ou existe alguém do outro lado aceitando
este trabalho, existe alguém que está comprando este trabalho
deste sujeito que se acha um fotógrafo de primeiro dia, que se auto-intitulou
fotógrafo. E tem alguém aceitando isso, se o cara é
só fotógrafo… Platéia
– Mas ele não é fotógrafo, ele não faz
a foto. Agora o digital é o seguinte: você pode usar o digital
e não deixar parecer que é digital, essa é a grande
jogada, a facilidade que ela te dá para fazer as fotos… Agora
sou eu que passo horas no Photoshop, só que a minha foto você
não percebe que é digital. Eu tenho um livro, lançando
na Itália, que tem dez fotos digitais dentro, que eu fiz todas as
fotos com escala… Bob Wolfenson –
É um vôo egoísta seu? Platéia
– Eu aceito, acho que é um desafio lindo isso aí. Acho
que nós, não me comparo a vocês, que são grandes
fotógrafos brasileiros, eu sou um fotógrafo italiano que estou
aqui xeretando, mas acho o seguinte: o grande desafio é esse, é
fazer o digital, claro que uma pessoa que não tem cultura fotográfica,
o que ele faz? Ele faz a foto e você percebe que é uma foto
digital, agora se você tem cultura fotográfica e faz uma foto,
usa o digital, você não percebe, quer dizer, eu não
posso perceber que a foto é digital. Parece fotografia.
Miro – Agora, espera aí, só um minutinho.
Eu acho que existiu um grande mercado em volta da fotografia que ele falou
logo no começo, laboratorista, laboratório, que hoje não
existe mais, a gente está voando para uma coisa que não é
certa. Não é certa porque tudo depende de uma equipe.
"Eu quero ser fotógrafo
para poder mexer no laboratório, para poder escolher
o papel que quero ampliar aquela foto na hora de mandar para
a revista, saber que posso usar quinhentos processos de reprodução
de mexer na filtragem, entender deste ofício" |
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Daniel Klajmic – A gente pode falar aqui a noite
inteira só sobre este tópico, mas o mais importante que eu
acho que isso vale pra gente e vale pra todo mundo, o que eu estou querendo
dizer é basicamente você pensar por que você quer ser
fotógrafo? Eu quero ser fotógrafo para poder mexer no laboratório,
para poder escolher o papel que quero ampliar aquela foto na hora de mandar
para a revista, saber que posso usar quinhentos processos de reprodução
de mexer na filtragem, entender deste ofício. Não gosto de
computador, e acho que o tempo que eu ia demorar para mexer no Photoshop,
posso trabalhar com o laboratorista, operar a densidade certa, com a lente
certa ou com a luz certa. Faço isso porque gosto, não porque
preciso fazer. Se eu parar de fazer isso, se parar de pensar no filme, na
densidade, na luz, na temperatura de cor, em tudo isso que gosto de fazer
em fotografia, para me expressar através disso, seja autoral ou comercialmente,
a fotografia fica meio nua, ela vai ficando magrinha até sumir. É
a minha opinião pessoal. Fico preocupado só das pessoas que
estão chegando não terem estes dois lados. Mas aí,
entre o que o Bob e o Miro falaram, acho que o problema é exatamente
esse, que no Brasil, que é um mercado onde eles trabalharam muito
para conseguir um certo espaço, as pessoas têm que entender
que para se fazer um editorial tem um custo, tem um equipamento, tem filmes,
tem assistente, tem laboratório, e estas coisas estão ficando
cada vez mais caras, até por conta do digital. E aí vai chegar
uma outra pessoa, que oferece aquilo cinco vezes mais barato, e acaba que
no Brasil já é notório não entrar no mérito
do merecimento, ele acaba querendo viabilizar de outra maneira, porque é
um país novo na coisa da fotografia editorial, de moda, na cultura
de fotografia. Jussara Romão – Vou
terminar este assunto, porque parece que isso aí vai longe. Não
imaginei que esse assunto fosse tão polêmico. Enfim, queria
reunir duas perguntas, o Oskar fez uma colocação sobre a posição
dele, que é mais ou menos a minha, ele é estilista de uma
marca, e eu sou editora de uma revista. Nós dois, de alguma maneira,
representamos uma marca, um espírito de mulher, a gente quer atingir
alguém, e tal. E o relacionamento do fotógrafo com o nosso
trabalho muitas vezes pode ser complicado ou não. Queria resumir
duas perguntas em uma mesma e saber a opinião de vocês. Pra
mim, hoje, a fotografia, a publicidade de moda é o lugar onde a gente,
como editorial, está se inspirando mais. Eu acho que isso já
aconteceu ao contrário, o editorial era inspirador para a publicidade,
mas hoje eu acho que a publicidade tem muito mais liberdade do trabalho
de expressão. Então, eu vejo que a publicidade de moda tem
muito mais liberdade, muito mais expressão que os editoriais. Nós,
dentro dos editoriais, estamos muito mais presos, tem que mostrar a roupa,
tem que dar preço, enfim, são muitos fatores que fazem com
que a gente fique dominado mesmo por isso. Gostaria de saber a opinião
de vocês sobre isso. Por que isso vem acontecendo, eu já estou
respondendo, enfim, e qual é a relação pra vocês,
do fotógrafo no processo todo de criação, seja para
catálogos de moda, seja publicidade de moda, ou seja pro editorial.
Sinto muita falta da presença do fotógrafo, ou será
que nós estamos já, olha, eu quero assim, assim, assado, a
imagem é essa, a mulher está assim…
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"Tem revista que
é baseada na opinião do leitor, estas não
me interessam"
"...porque parte de uma nivelação por baixo"
"...o editor de uma revista é um missionário,
ele tem que levar a platéia dele, o público
dele para um patamar novo, para um novo sonho" |
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Bob Wolfenson – Tinha uma revista dos anos 80 que
uma editora muito famosa fazia, que ela falava assim: hoje eu tive uma idéia
genial, ela pegava uma revista e abria uma revista européia e mostrava
e falava assim, vamos fazer esta idéia genial. Ela não se
auto-idealizava e fazia assim de uma forma bem tranqüila. Eu acho que
isso continua acontecendo. E acontece lá fora também, as pessoas,
e o mercado vai influenciando, você vai vendo trabalhos e vai sendo
influenciado por eles de alguma forma. É um processo de causa e efeito
e vai rolando, um influencia o outro, um recebe do outro a influência
e vai. Do ponto de vista desta eterna discussão, este dilema, entre
realizar o seu ego como fotógrafo e satisfazer a revista ou o público
da revista, ou o suposto público da revista, há revistas e
revistas, depende muito de qual é o viés que a revista adota.
Tem revista que é baseada na opinião do leitor, estas não
me interessam, não sei se interessa a vocês ou não.
Não me interessa, porque parte de uma nivelação por
baixo, eu acho, o leitor sempre fica em uma coisa de identidade, acho que
o editor de uma revista é um missionário, ele tem que levar
a platéia dele, o público dele para um patamar novo, para
um novo sonho, para que aquele sonho, em um momento seguinte, seja a realidade
dele. Não acho que a revista tem que dar o que o leitor quer, a revista
tem que levar o leitor para um caminho, para trazer o rebanho.
Daniel Klajmic – Isso se inverteu né? Hoje
em dia vejo que as revistas estão muito preocupadas em segurar aquele
leitor ou em manter um público, não isso não é,
como na publicidade, isso não atingiu… Jussara
Romão – Ontem fiquei sabendo de uma revista que acabou
com a seção de moda dentro dela… Bob
Wolfenson – Não estou dizendo que é culpa da
editora, é como o mercado se coloca, como se sofistica o mercado
e se dessofistica também. Sofistica por um lado, porque as revistas
mais sofisticadas começam a ter um nicho menor e passam a ter um
espaço mais específico. E as revistas de massa se dessofisticam
completamente e vão para uma coisa mais popular, porque precisam
vender e tudo. Este é o grande dilema, sempre foi, desde que nós
começamos, eu e o Miro, acho que sempre foi o dilema entre priorizar
o que você e eu sinto vendo o seu trabalho. Não sei se estou
errado, você me corrige, mas que você conseguia realizar o seu
trabalho quando você estava em sintonia com a editora, ou com a linha
da revista. Se não há esta sintonia, não é possível.
Então, este é o desejo muito antípodas, não
há esta possibilidade. Miro – Mas
eu acho que o dilema eterno é o dinheiro. Bob Wolfenson
– É o dinheiro? (risos) Miro –
É o dinheiro. Você vai em uma reunião, a sua matéria
vai ter isso, vai ter aquilo… Bob Wolfenson
– Isso é verdade… Miro –
No fim, você entra no estúdio louco de roupas, aí faz
no fundo branco e o computador resolve. Bob Wolfenson
– É, isso é verdade. Miro
– É tudo uma grande mentira… alguma coisa vai de verdade
para as pessoas. Existe uma fantasia em volta de tudo isso, que a coisa
é mais embaixo. Bob Wolfenson – É
mais rasteira… Miro – Nesse exato
momento ter feito um ensaio fotográfico com a Débora Secco
para a revista Contigo!, tem um retorno maior do que fazer Vogue.
Para mim interessa o retorno das pessoas, e eu acho que o veículo
quanto mais abrangente for, melhor. Bob Wolfenson
– Se deixar realizar o seu trabalho… Miro
– Você é uma pessoa que pode entrar em uma revista e
falar: eu quero fazer deste jeito.
Bob Wolfenson – Sim. Miro –
É isso que a gente tem que falar para as pessoas. Eu acho que a gente
tem que brigar por mais revistas de moda neste país, que, se você
pensar existem quantas? Três? Daniel Klajmic
– Mais dinheiro para as revistas, né? Miro
– A fotografia é um mero acaso, você tem que brigar pelo
espaço. Eu acho que a gente fica sonhando com um monte de matérias
que não chegam a ninguém neste país.
Daniel Klajmic – Esse primeiro passo de desglamourizar isso
é importante. Até, de repente, aparecer uma coisa nova disso.
Você vai na reunião, na publicidade ou você vê
pessoas que vêem a moda um pouco mais de fora do que a gente, e acha
editorial, editorial, editorial. Primeiro, o negócio é o seguinte:
dinheiro para o que você quiser parará, quando eu comecei,
também achei que você pudesse colocar tudo pra fora e depois
você ia entrar em uma porta chamada publicidade e ia ganhar o seu
dinheiro fazendo tecnicamente aquilo. Só que hoje em dia, o editorial
é a publicidade que não paga, porque você já
sabe que está tudo amarrado, o fotógrafo não participa,
porque não tem nem como ele participar, se ele quiser participar:
“pô esse cara é um chato, meio metido, arranja problema”.
Jussara Romão – Pelo contrário, até
hoje eu estava conversando sobre isso e esta era uma pergunta, conversando
com algumas pessoas, eu trabalho na editora Abril, conheço um monte
de gente, a gente sente falta, muita falta do fotógrafo estar ali
na reunião. Daniel Klajmic – Então
faltava um debate deste pra gente conversar, pra se enturmar… (risos).
Porque eu quase não vejo espaço para pleitear alguma coisa,
seja o orçamento para fazer de uma maneira x, seja uma idéia
que você queira… Jussara Romão
– O que acontece é o seguinte, existe um orçamento pequeno,
cada vez menor. Dinheiro é o grande problema, não adianta
querer inventar que nós vamos fazer. A gente vê alguns editoriais
internacionais e fala: “meu, que coisa incrível!”. Mas
eles gastaram uma fortuna, porque trouxeram uma pessoa para pintar aquilo,
e aí tem produtor de locação, tem isso, tem aquilo.
Não é verdade, a gente não tem dinheiro, cada vez mais
compra-se menos revistas no Brasil, ainda mais quando é segmentada
dentro desta área, as pessoas deixam de comprar por outras coisas.
Miro – Mas, sabe por quê? Eu acho que
existe uma preguiça do brasileiro, por exemplo, qualquer editora,
a Vogue, a editora Abril, tem capacidade de fazer permutas com um
monte de coisas. Jussara Romão – Fala
isso pra Abril. Miro – Não preciso
falar isso pra Abril. Bob Wolfenson – A
Abril tem um código de ética que não permite.
"O brasileiro é
preguiçoso, prefere pegar a roupinha do Alexandre que
está ali, por no fundo branco, dar crédito para
ele e acabou a história" |
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Miro – O mundo inteiro faz assim. O brasileiro é
preguiçoso, prefere pegar a roupinha do Alexandre que está
ali, por no fundo branco, dar crédito para ele e acabou a história.
É a preguiça. Bob Wolfenson –
Eu acho que o pior do Brasil é o brasileiro (risos). Daniel
Klajmic – Por um lado sim e por outro não, porque
a gente acaba tendo um resultado bastante satisfatório com o pouco
que a gente tem. Jussara Romão –
Eu tenho esta liberdade, negociar, eu consigo. A revista Elle conseguiria
viagem, isso, aquilo, e eu não posso.
"As pessoas têm
preguiça, elas não querem pensar mais. Mas é
lógico. A digital, o computador está acabando
com tudo isso" |
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Miro – Sou produtor da revista Daslu, entro em qualquer
loja de São Paulo e pego o que quiser para fotografar a troco de
crédito. As pessoas têm preguiça, elas não querem
pensar mais. Mas é lógico. A digital, o computador está
acabando com tudo isso (risos e palmas). Jussara Romão
– Eu não posso te responder isso, porque eu estou dentro de
uma editora que não me permite aceitar estas… Miro
– Eu já fiz para todas elas… Jussara
Romão – Eu não posso. Eu sei que a Vogue
pode, a Marie Claire pode… Miro –
Pode mas não faz. Jussara Romão
– Bom, mas aí é problema deles (risos). Miro
– Mas nenhuma faz. Daniel Klajmic –
Você está falando no geral assim, as que fazem também
não fazem o suficiente. Eu acho que, por um lado, tem uma preguiça
enorme do brasileiro, por um lado também o que a gente consegue,
por exemplo o Miro tem feito, o Bob tem feito, outros fotógrafos
têm feito, com pouco que tem, já é bem legal, lógico.
Mas eu acho importante falar que é pouco, que a gente tem pouco,
senão as pessoas olham aquilo, que a gente fez malabares, e acha
que a gente fez dormindo, deitado. Editorial é dinheiro do bolso,
todo editorial que eu faço, boto alguma coisa do meu dinheiro.
Bob Wolfenson – Isso todo mundo faz.
Daniel Klajmic – Isso é notório.
Jussara Romão – A Elle dá
filme, da revelação, dá poquinho, mas paga.
"O editorial é
a minha vitrine, onde teoricamente eu vou colocar as minhas
idéias pra fora" |
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Daniel Klajmic – Mas, aí a gente está
falando de brigar pelo limite, porque aí a gente estipula um limite
pra gente. Eu quero fazer o filme x, aí eu não faço?
Não, eu faço. O editorial é a minha vitrine, onde teoricamente
eu vou colocar as minhas idéias pra fora, mas a partir do momento
que eu não estou colocando as minhas idéias pra fora porque
elas estão sob uma pauta para o público da revista, que é
aquela coisa que a gente discutiu a dois minutos atrás, já
não está mais valendo a pena, isso é uma coisa. Aí
entra a coisa do digital, é o berço perfeito para o digital
entrar, porque aí você vai falar o cara vai fazer no digital
e não vai dar custo pra mim nenhum. É muito complexo, tudo
se amarra no final, o digital, o editorial, a publicidade, na verdade a
gente pode falar sobre a mesma coisa, que tudo está amarrado.
Platéia – Estou ouvindo vocês,
pra mim é um grande aprendizado, sou um amante da fotografia, não
um profissional e venho de uma cidade do interior. Eu já peguei o
mundo digital da fotografia. Porém, vi as dificuldades que teria
e fui aprender com a película, apanhar do cromo, tomar aquela coça
do cromo, até aprender a fotometrar direito. Mas em um determinado
momento, por escolha própria, respeito a opinião do Daniel,
mas não quero nada disso, não quero laboratório, não
quero isso, não quero aquilo, mas é uma opinião somente
pessoal. Quero gastar horas esperando a luz perfeita, ficar um dia inteiro
esperando a luz certa, o momento certo para fotografar? Claro que o digital
vem estragando um monte de coisa, como o Bob falou, acho que foi muito bem
colocado. Posso ser muito criticado por isso, mas o Brasil tem uma tendência
a banalizar muito as coisas, aqui a gente banaliza qualquer coisa, de Mc
Donald’s a revista. Então, o editorial, um ou outro consegue
fazer um trabalho diferenciado, a Elle, a Vogue, mas a gente
vem nivelando por baixo, como o Bob vem falando. Eu, por exemplo, conheço
a marca Osklen, desde quase no início, o diferencial era a
quantidade de dinheiro que se gastava com a propaganda, em fazer o produto
de vender, fazer uma marca bonita, e era um sonho de consumo consumir a
Osklen na minha cidade. É uma cidade pequena, Juiz de Fora,
mas por quê? Porque teve um investimento no futuro, alguém
acreditou. A gente tinha um amante da fotografia, etc. e tal, que deu vazão
para esse veículo. Agora, concordo com o Bob, que é uma via
dupla que vocês, hoje, estão reféns de um mercado que
paga pouco, mas que o público também não quer pagar
muito, o público não compra revista. Leio três, quatro
revistas por semana. Então assim, eu acho que a nossa tendência
é banalizar muito, e vocês que estão aí sentados
e alguns de nós aqui, somos só exceção, em um
mercado que, se nós não procurarmos fazer um aculturamento,
fazer uma cultura melhor a gente não vai mudar isso.
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"nós somos
um país pobre, nós somos um país com
uma cultura, com um talento enorme, temos pessoas talentosas
nas mais diversas áreas profissionais" |
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Oskar Metsavaht – Acho que é um reflexo macroeconômico,
nós somos um país pobre, nós somos um país com
uma cultura, com um talento enorme, temos pessoas talentosas nas mais diversas
áreas profissionais. Isso se reflete porque nós aqui estamos
falando de uma coisa de trabalho artístico. A arte é apreciada
por um nível sofisticado cultural e, quando ele precisa ser realizado
exatamente com investimento e tudo, ele precisa ter o quê? Dinheiro.
Vou defender um pouco os editoriais em relação a vocês.
Vocês fotógrafos e vários outros fotógrafos talentosos
que nós temos aqui, se não fossem os editoriais de moda também,
as revistas com os editoriais de moda são uma janela, uma oportunidade
de mostrar seu trabalho. Quantos fotógrafos existem por aí?
Acho que todos eles, imagino quando foi o primeiro editorial que você
fez, ou que você ficou feliz, amarradão por terem reconhecido
o seu trabalho e terem te convidado. Daniel Klajmic
– Isso tudo existe, só que a gente vai caminhando para um lugar,
onde, de repente, não sei se você tem mais gás no começo,
mas aquilo vai virar outra fase pra você, entendeu? Oskar
Metsavaht – Concordo, mas você não acha assim…
Vejo quatro formas de fotografia, a primeira onde você pode se expressar
livremente seria fazendo um livro ou através de exposições.
Cada fotógrafo leva nos seus livros a sua edição, com
a sua visão, com a forma que apresenta o seu trabalho autoral. O
outro nível são os editoriais com as revistas, que já
estão um pouco mais engessados. Terceiro lugar eu acho que seria
exatamente o trabalho que já é conjunto de parceria com uma
marca com um outro artista, entendeu? No momento, quando você expressa,
você coloca o seu trabalho artístico, o seu talento, sua sensibilidade,
junto com alguém para construir uma outra coisa, já está
mais engessado. E por último o trabalho publicitário, como
você falou, esse que você foi lá catar as fotos e depois
usaram a sua fotografia e colocaram. Daniel Klajmic
– Eu só queria fazer uma outra pergunta, não sei se
sou eu respondendo com uma outra pergunta ou se nestes últimos cinco
anos está ficando mais difícil. Eu não sei sinceramente
se sou eu que estou ficando mais chato, mais velho, ou mais preguiçoso,
ou se cada vez está ficando mais difícil fazer um editorial
legal de uns cinco anos pra cá? Oskar Metsavaht
– O que surgiu de revistas neste últimos cinco anos, ou mais,
no Brasil, que surgiram a oportunidade de vários editoriais, às
vezes, quantas vezes vocês fazem uns dois, três editoriais num
mês mesmo para algumas revistas. O que está acontecendo é
que várias revistas não estão conseguindo se manter,
então está começando a diminuir, e as grandes revistas,
a Elle, a Vogue, tudo, eu sei, sou cliente, sou a mira deles,
sou exatamente onde eles vêm, onde vem dinheirinho pra dentro, o patrocínio,
o cliente. Então, as revistas não estão bem, é
um custo pra fotógrafo, você tem uma revista, o custo de manutenção,
o custo de manter uma edição no mercado é muito grande,
e não está tendo muito cliente, a não ser estes grandes
clientes, as telefônicas, os bancos, etc, etc, que também têm
um problema para as revistas, né? Porque a revista, como você
falou, hoje em dia é gostoso abrir uma revista onde a campanha publicitária
das marcas e de quem está ali junto fala com a linha editorial da
revista e que dê prazer. Isso a gente vê bastante nas revistas
lá fora, mas aqui no Brasil, as grandes revistas de moda têm
anúncios que, exatamente, pegam uma foto e colocam o sol onde não
tinha. Bob Wolfenson – Aqui o fotógrafo
de moda faz de urubu a cobra d’água, ele fotografa anúncio
de banco à editorial de moda no dia seguinte. É uma maluquice
mesmo, é um jeito único, singular. Acho que tem, ou só
tem no Brasil, ou só tem nos países de terceiro mundo, porque
lá fora, se você é um fotógrafo de moda, você
é um fotógrafo de moda, nem Playboy você faz, de jeito
nenhum. Você é um fotógrafo de moda e faz as grandes
campanhas de moda do mundo, os anúncios de moda e os retratos. É
permitido ao fotógrafo de moda também ser retratista, nada
além. Aqui não, aqui você faz de Arpic à Arezzo,
digamos assim. Jussara Romão – Até
para fazer um resumo rápido, para quem não conhece revista,
o que nos faz sobreviver são os anunciantes, banca não nos
sustenta. É um custo muito alto, gráfica, papel, enfim, toda
aquela equipe que hoje em dia se reduziu a 12, 13 pessoas, que eram, sei
lá, 30 pessoas até. E anúncio, se vocês pegarem
uma revista de dez anos atrás, iam ver muitos anunciantes de moda.
Hoje, quantos são os anunciantes de moda? Na verdade, é um
mercado que cresceu pro mercado de beleza, e cresceu para outras tentativas
de anunciante de banco, que é de onde surge o dinheiro. É
muito complicado. Dois, não querendo defender, mas é o mercado
que eu conheço, para você se vender, você precisa se
comunicar com alguém. É isso que eu falo sempre. O meu trabalho,
o nosso trabalho é comunicação, se você não
faz nada que alguém responda para você, seja negativo ou positivo,
seja na fotografia, na arte, enfim, na moda, que seja, você não
recebe em troca. Então, toda a preocupação dos editoriais,
e eu não quero me estender nisso, uma preocupação do
diretor de uma revista, é tentar relamente chegar a alguém
… Bob Wolfenson – Isso é uma
suposição de que aquele alguém vai gostar daquilo daquela
forma. Jussara Romão – Eu não
estou achando que a gente tem que diminuir o nosso trabalho ou nivelar por
baixo, não estou falando isso … Bob Wolfenson
– Mas quantas vezes você ouviu que isso é muito para
o nosso público, ou isso é demais, ou isso nem adianta fazer
porque não vai dar certo, não vai rolar. Esse é um
problema. Acho até lícito, porque você sabe o seu produto,
mesma coisa com você, que vai fazer uma campanha e você sabe
qual é o seu público. Você quer fazer do jeito que você
acha, você contratou um fotógrafo, que tem uma personalidade,
que também quer se expressar através do seu trabalho. Mas
eu acho que nós fotógrafos, que trabalhamos para publicidade
e para revista não somos os mesmos que colocam as fotos nas paredes,
porque são trabalhos distintos. Quer dizer, eu sei, tenho um limite
para o meu trabalho, é uma arte aplicada. Se um cara me chama para
fazer uma campanha, sei que tenho que contemplá-lo de alguma forma,
ele está comprando um olhar, um jeito de fazer, uma forma que é
a minha, entendeu? Mas, de alguma forma eu também tenho este limite
que é o limite dele. Um bom trabalho se realiza quando esse encontro
é hamônico. Quando esse encontro não se realiza o trabalho
fica ou muito a cara do cliente, ou seja, fica muito comercial atendendo
a necessidade muito específica e comercial do cliente, ou também
fica inatingível para o público dele, porque ficou muito para
o fotógrafo, muito artístico, ou surrealismo meio barato,
que muitos fotógrafos fazem.
Platéia – Eu sou Fábio, fotografo na
área de eventos, mas tenho uma dúvida que talvez vocês
possam me responder, volta um pouco naquilo, que para se vender precisa
de anunciante, é de onde vem o dinheiro. A gente pega uma revista
aqui no Brasil, uma Elle, ou alguma coisa assim e ela tem mais ou
menos isso aqui, uns sete milímetros. Você pega uma Elle
francesa ou alguma coisa assim ela tem isso aqui. Ou seja, uma revista deste
tamanho eu consigo ver um campo de páginas, um campo em centímetros
quadrados, que seja, enorme para os fotógrafos mostrarem o trabalho,
em propagandas, em n editoriais lá dentro. Você vê uma
quantidade absurda de fotos e de material. E aqui não. Aqui a gente
vê uma revista super pequena com um espaço muito pequeno, que
seja em número de páginas ou em centímetro quadrado.
E aí fica uma briga, se o anunciante traz mais dinheiro, e ao mesmo
tempo elas custam a mesma coisa, é isso que me choca. Uma Elle
custa o quê? Sete e meio? Jussara Romão
– Nove e noventa e nove. Platéia
– Se você for ver isso em dólar, dá quarto e meio
dólares, uma Vogue desta grossura custa quarto, quatro e meio
dólares. Então você fica pensando, será que se
barateasse a revista pro consumidor final daria para gerar mais espaço
de venda? Não sei onde que chega isso. Bob Wolfenson
– Você acha que a revista não quer fazer isso? Isso é
um problema do Brasil, isso é uma escala brasileira pra tudo. Você
acha que uma revista não queria vender mais, não queria ser
grossa deste jeito, não queria ser mais barata? Miro
– Claro, é o que estou tentando falar desde o começo.
As pessoas responsáveis em fazer revista não estão
pensando, por exemplo, assim, porque tudo que se faz lá fora os brasileiros
fazem: “ô, que legal, vamos fazer isso”. Mas na hora que
a editora fala que vai fazer isso, porque foi feito lá fora, faz
ficar pior. Hoje se você pegar qualquer revista de moda neste país,
95 por cento são em fundo infinito (risos). Bob
Wolfenson – Você tem razão. Miro
– Você abre qualquer revista as pessoas estão viajando,
elas estão dando sonho para as pessoas. Bob Wolfenson
– Isso eu concordo plenamente. Miro –
No Brasil não se faz isso. É cômodo, é aquela
correria de nada. Por exemplo, os editores em vez de ter duas revistas fodidas
preferem ter 50 desta finurinha e atacar todos os anunciantes do país.
Então o problema não é do Brasil, é das editoras.
E os fotógrafos são coniventes com isso. Daniel
Klajmic – Concordo e acho que é um ciclo. A revista
quer fazer uma coisa para um público que ela acha que vai receber
até um certo ponto, mas este público, de repente, está
sendo subestimado e também acha que é uma revista desinteressante,
porque está vendo aquilo e está sempre esperando uma coisa
a mais. O que o Miro está tentando dizer, que eu concordo em gênero,
número e grau, que de repente tentar elevar e ver qual vai ser a
resposta de quem vai receber isso. Oskar Metsavaht
– Eu concordo totalmente com isso, vamos lá. Isso de tamanho,
tudo, é escala. Você vai na Itália, só a Itália
consome, com não sei quantos milhões de habitantes, bem menor
que o Brasil, mas eu acho que o percentual de pessoas que compram a Elle,
a Vogue e todas as outras revistas lá é muito grande.
A cultura de moda no Japão, então, é surpreendente.
O número de pessoas ligadas à moda, como consomem revistas
de moda e comportamento, elas têm um poder aquisitivo maior e têm
uma cultura de moda maior. Então isso é escala. E o que acontece
com as revistas aqui? Não vendem muito. As revistas que vendem aqui
são a Caras, a Veja, etc., mais populares. Miro
– Uma matéria linda na Vogue sobre a Emília,
só que o Brasil não pensa, não está pensando
e não está preocupado em pensar. O negócio é
o seguinte: vamos pegar a roupa, por no fundo branco e bater a foto, como
se faz? Bater a foto. Oskar Metsavaht –
Acho que todos os profissionais nesta área, em todos os setores,
têm que se unir para que haja uma melhora, exatamente na qualidade
editorial, que existe. Claro, tenho certeza, o sonho delas é ter
estas revistas assim, é ter estes editoriais. Mas, se for pegar anunciantes,
marcas de moda, designers de moda, os fotógrafos de moda, as revistas
e se criar um movimento de melhora da qualidade, onde todo mundo participa
de uma certa forma, sabe?
"O fotógrafo
tem obrigação de ter cultura de fotografia,
editora de moda tem cultura de moda" |
|
Daniel Klajmic – Aí tem um problemazinho,
que quando bate lá no ombudsman, lá na torre, que o cara não
viu a Vogue, não está nem aí pra Emília,
pra nada, mas é o dono da parada, entendeu? Tem a cultura geral.
O fotógrafo tem obrigação de ter cultura de fotografia,
editora de moda tem cultura de moda, etc. e tal. Agora, a gente está
falando de cultura geral, daquela pessoa que teoricamente não tem
nada diretamente a ver com a fotografia, ou com a moda, mas que tem o mínimo
para poder olhar aquilo e achar que é uma coisa interessante, entendeu?
Não querendo ser polêmico, também, é a coisa
da cultura da imagem para o empresário da revista, para o dono da
revista ter a mesma cultura de moda, de fotografia e de imagem que a gente
está discutindo aqui, porque nós estamos no mesmo caldeirão.
Agora, quando sai da nossa mão é que é o problema.
Oskar Metsavaht – Não se iluda,
porque o dono da revista quer vender revista e ele quer ver número.
Mas nem todos né, Bob? Bob Wolfenson –
A minha nem que eu queira vender vou coseguir. Platéia
– Boa noite, Daniel meu nome. Eu queria voltar um pouco no que o Bob
estava falando… Jussara Romão –
Digital não, né? (risos). Platéia
– Não. Estava todo mundo falando um pouco disso, e acho que
vocês poderiam insistir mais nisso: na formação da imagem
na moda, que tem uma relação com o cinema. O que é
isso? Você tem o diretor do filme e tem o diretor de fotografia e
essa simbiose é que vai formar a grande imagem de moda. Já
conversei com um diretor de fotografia e ele falou: “quando um diretor
me chama para fazer um filme eu vou ver os filmes que ele dirigiu e ele
vai ver os filmes que eu filmei, e no final a gente vai trocar figurinha
e vai fazer um puta filme. Eu vou admirar o trabalho dele e ele vai admirar
o meu trabalho”. Então, acho que este é o onde vejo.
O resultado final do Daniel, do Miro, do Oskar, nos catálogos, sempre
mudando e fazendo coisas interessantes. É isso. É essa simbiose,
as revistas, os editoriais bacanas, é quando acontece esta reunião.
O diretor já conhece o outro trabalho do diretor e ora o diretor
dirige mais, ora o fotógrafo fotografa mais e gera estas grandes
imagens que a gente vê. Jussara Romão
– Uma coisa importante é quando se imagina uma história
que você vai contar em um editorial é: quem faria aquilo melhor?
No meu trabalho, o que eu bati de cabeça. Levei muito nestes 10 anos
de algumas pessoas, e errando também. E eu já tive isso de
chamar: ah! fotógrafo, fotógrafo, e não é verdade.
Você vai ter uma linguagem que combina mais para contratar aquele
trabalho, você é a cara, a gente vai fazer um trabalho agora
que é a cara do Bob, não é outro. Bob
Wolfenson – Mas, às vezes você não acha.
"Eu acho que é
maravilhoso se o fotógrafo te falar assim: não
estou a fim, não curti. Isso é maravilhoso" |
|
Jussara Romão – Mas isso que é bom!
Ter a liberdade de dizer: olha, eu pensei em uma matéria, estou achando
que é você, não, não estou a fim. Eu acho que
é maravilhoso se o fotógrafo te falar assim: não estou
a fim, não curti. Isso é maravilhoso.
"se o cara não
souber fazer tudo, ele não vinga aqui" |
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Daniel Klajmic – Eu acho que parte daí, mas
na prática entra a grande parte do fazer tudo. Na essência
é assim. Mas, acaba que o fotógrafo de moda, até falando
para quem quer ser fotógrafo, que já é fotógrafo,
a experiência que tenho assim de recém-formado, do que eu aprendi
na faculdade lá da assistência de estúdio para a aplicação
prática, é que no meio do caminho você vai deixando
isso um pouquinho de lado, porque se o cara não souber fazer tudo,
ele não vinga aqui. Bob Wolfenson –
Não existe isso em lugar nenhum na Europa. Bob
Wollheim –Está falando aí tanto do
problema do brasileiro, da crise da fotografia. Têm vários
segmentos, publicidade, não especificamente de moda, mas publicidade
como um todo, o brasileiro é muito reconhecido e muito premiado.
Como é isso em fotografia? Bob Wolfenson
– Acho que nós somos ilustres desconhecidos. O Sebastião
Salgado é um brasileiro muito conhecido. O Otto Stupakoff foi um
fotógrafo muito conhecido nos anos 70, mas ninguém
sabia que ele era brasileiro, ainda mais pelo nome. Mas essa área
editorial do Brasil não chega lá fora, ninguém vê.
A não ser que você vá lá pra fora, sente a bunda
lá em um país e fique dois, quatro, cinco anos, não
participa do mercado daqui, aí você pode ter alguma expressão.
Você diz que nós temos uma oportunidade de nos mostrar lá
fora? Precisaria mudar toda a massa crítica. Platéia
– Como qualquer pessoa, não precisa ser brasileiro, qualquer
um lá fora. Bob Wolfenson – É,
exatamente. O Brasil, como tudo, não é conhecido, não
quer dizer que não seja bom, não é conhecido.
Oskar Metsavaht – O Brasil nunca teve uma revista,
nós nunca paramos para pensar em uma revista nossa com uma expressão,
nunca pensamos não, eu já pensei, mas fazer uma revista com
expressão, pegar o nosso brazilian soul, pegar tudo que for
de bom nosso aqui e fazer uma revista mundial. Uma revista escrita, obviamente,
em inglês e com uma boa imagem do que está querendo passar.
Agora, é fácil de levar todos os nossos talentos, que sejam
comerciais, artísticos, entendeu? Culturais, isso nunca houve. Uma
revista feita por nós aqui, entendeu? Platéia
– Eu sou Simone, faço foto, nunca me formei em fotografia,
tive uma galeria com dois sócios, conheço o Fotosite desde
o comecinho. Não tenho medo, só falar rápido da digital
entrar no lugar da normal… Acho que nunca vai ser, é um olhar
diferente, você não sabe o que retratou, se descobrir depois,
acho que são duas coisas que a gente não deve ficar com medo.
Estou vendo muitas revistas especializadas diferentes, com mais trabalhos
artísticos ultimamente, talvez menos do que aquelas que a gente compra
na banca, talvez algumas de banca. Eu acho que tem muito da gente jogar
uma cultura para este povo ir absorvendo, entendendo e vendo. Agora, na
publicidade, compreendo, também faço um monte de coisas, faço
imagens para outras coisas, para vender como decoração, mas
nunca trabalhei em publicidade. Então, tem que vir um pouco da gente,
tem que a gente mostrar o que é novo, o que é bom, o que é
bacana, o que é luz. E na publicidade é conivente a isso,
é baratear, é rapidez, é mexer e tentar fazer o melhor
possível. Bob Wolfenson – O Brasil
está engatinhando nessa área, está construindo uma
massa crítica. Você pega os anos 50, na Itália, que
já era um país muito mais desenvolvido nesta área do
que o Brasil é hoje, os grandes costureiros italianos não
existiam, eles copiavam os franceses. O que aconteceu? Eles formaram uma
massa crítica, uma indústria, um mercado, um gosto, um artesanato.
Criaram um movimento que se desenvolveu e virou, e hoje os grandes estilistas
do mundo são italianos. Platéia
– Mas isso tem hoje na moda, não tem? Bob
Wolfenson – Eu acho que a moda está hoje neste momento.
O Brasil está no momento da construção desta massa
crítica, nunca houve tanta oportunidade como tem agora.
Miro – Você lembra da revista 70 da
editora Abril? Bob Wolfenson – Lembro.
Miro – Quem veio fotografar aqui para a revista?
Bob Wolfenson – Bill King. Miro
– Sarah Moon, quem mais? Bob Wolfenson –
Eu não me lembro de todos. Miro –
Um monte de gente. Bob Wolfenson – Mas,
aquilo foi uma coisa episódica, heróica, de um tempo único
que durou dois anos. Miro – Existiu a Realidade,
uma puta revista. Vai ver ela hoje é mais moderna do que qualquer
revista do país. Eram pessoas que trabalhavam mais, se pensava mais.
Jussara Romão – Você está
me acusando de alguma coisa. Miro – Não.
Não existia foto de fundo branco. Jussara Romão
– Eu entendo o que você está falando, mas. Bom, eu posso
responder por mim. Bob Wolfenson – São
atos heróicos, mas se você pegar no geral, hoje em dia tem
muito mais, o mercado é muito mais concorrido, tem mais fotógrafos,
portanto vai ter muito mais qualidade. Miro –
Não, o que eu estou te falando é o que já aconteceu
no Brasil, não precisa pra falar de moda falar do costureiro italiano,
a gente fala do Brasil. Então, a gente tem que falar do Brasil. Por
exemplo, eu via coisas que eu babei de ter visto. Bob Wolfenson
– Sem dúvida. Miro – A gente
não está fazendo mais isso. A gente está fazendo o
que as editoras querem da maneira mais prática e fácil de
fazer. Daniel Klajmic – Aí responde
o que ele está falando, não depende, tem uma hora que sai
daqui e vai pra mão do veículo. Miro
– Eu acho que isso é ser conivente com esta pobreza, se a gente,
você e eu, ele não brigar por isso, a digital vai entrar e
vai acabar com tudo. Daniel Klajmic – Aproveitando
só para finalizar este tópico em ebulição aqui.
Eu acho que o que você falou é o que a gente está tentando
dizer aqui, eu só tentei mostrar que daí pra cá, tem
umas etapas de prática, que fogem um pouco do domquixotismo do fotógrafo
de moda. E outra coisa que eu acho, que o Miro tocou rapidamente, que é
importante também colocar no debate, que a gente copia na íntegra,
ou a gente poderia estar interpretando a essência daquilo aplicado
para a nossa cultura. As vezes que isso aconteceu deu certo, fotograficamente,
vou fazer isso igual, a gente não pegar algum ícone, que tenha
o mesmo diálogo, a mesma essência da idéia, só
que convencional, em vez de usar camisa de brechó americano, usar
camisa de brechó do time de futebol do Itapemirim da Serra, entendeu?
É pegar o conceito do que rola na moda como idéia e comportamento
aplicado para o nosso, não igual ao deles.
"Tem coisa que
fazem lá fora que é mais brasileira do a gente
fazendo" |
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Sabrina Gasperin – Tem coisa que fazem lá
fora que é mais brasileira do a gente fazendo. Daniel
Klajmic – Eu acho que este é um ponto de diálogo
para todo mundo. Jussara Romão –
Nós estamos falando de um povo que começou a ter orgulho de
ser brasileiro há muito pouco tempo. Platéia
– Mas são as pessoas que investem que têm medo aqui no
Brasil Daniel Klajmic – Uma coisa é
fazer uma exposição, outra é fazer um editorial, onde
você tem que seguir uma linha editorial de uma revista. A gente está
falando de estrutura real, de comércio profissional de moda, não
estamos falando do fotógrafo. Bob Wolfenson
– O país é maravilhoso, a gente sabe, gosta e se tem
orgulho disso. Sabemos usar a expressão da força do Brasil,
o país tem uma puta personalidade, é muito original, é
conhecido no mundo inteiro por mil outras razões. Agora, tem também
uma coisa específica de uma dificuldade de se realizar um trabalho
que vá até o fim, que você chega e abre uma revista
a fala: que do cacete! Que orgulho eu tenho disso! Daniel
Klajmic – Do casamento do fotógrafo na essência
e fotógrafo profissional. Acho que é assim, você conseguir
manter os dois satisfeitos e afinados é que é a grande arte
que a gente está discutindo aqui.
"Quem dita a moda
no mundo? Um grupo de fotógrafos e editores de revista.
São só essas pessoas, são elas que falam
da moda pro mundo" |
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Miro – A gente veio aqui para falar sobre moda, né?
(Risos). Quem dita a moda no mundo? Um grupo de fotógrafos e editores
de revista. São só essas pessoas, são elas que falam
da moda pro mundo. Moda no Brasil não existe. Vamos cair de verdade,
porque é assim, se a gente conseguisse ser um pouco mais unido, eu
acho que todo mundo quer fazer as coisas pra si. Se eu ficasse com a Jussara
durante um ano fazendo editoriais que tivesse uma cara, que ela quisesse,
pra revista, e, junto com ela, achasse esta fórmula, a gente conseguiria
alguma coisa. Na verdade, a gente está sendo conivente com um monte
de coisa. Bob Wolfenson – Concordo com você,
eu acho que a gente tem que dar uma sacudida, tem que dar uma brigada, uma
sacudida. Jussara Romão – Mas eu
não vejo nenhuma dificuldade pra isso. Miro
– O único diretor de moda deste país morreu, que era
o Andrea Carta. Espero que a Patrícia consiga alguma coisa, mas ele
sonhava moda. Platéia – Me corrija
se eu estiver errado, mas eu não tenho conhecimento de um outro país
onde, só em São Paulo, em uma cidade, em um mês, você
tem três eventos de moda, feito tudo com mão de obra brasileiro,
você tem modelos brasileiras, estilistas brasileiros, mídia
brasileira, atrai mídia estrangeira. Quer dizer, o brasileiro é
um povo extremamente criativo, que tem gente representante de todas as frentes,
fotógrafos, modelos, estilista, editora, e todo mundo está
demonstrando uma certa insatisfação. Daniel
Klajmic – Que é diferente de uma campanha de moda,
desfile, televisão aberta, estamos falando da fotografia de moda
e não da moda no geral. É uma diferença bem grande,
quando você fala de TV aberta e de banca de jornal os big boss sabem
bem a diferença, entendeu? Jussara Romão
– O que está rolando aqui é quase fechado de alguma
maneira, porque é um descontentamento não só deles,
fotógrafos, mas meu também. E talvez este trabalho em conjunto
acabe resultando em uma imagem incrível que o público vai
amar. Eu sinto falta disso também. Platéia
– Foi só uma introdução, talvez infeliz, para
dizer que a gente tem muita capacidade. O que eu quero dizer é o
seguinte: se está todo mundo realmente insatisfeito e a gente tem
esta capacidade, o que está faltando? Será que é só
dinheito mesmo? Será que falta um pouco de coragem de assumir uma
attitude, de levar esta attitude pra banca. Como resolver isso Bob? Eu acho
que esta é a grande pergunta. Bob Wolfenson
– Eu acho que não é fácil, se alguém soubesse
já teria feito, mas eu acho que é uma indignação.
Eu acho que é bom isso, não é ruim. Você saber
que é possível, que o Brasil melhorou, e tem mais coisas pra
fazer, tem mais massa crítica, enfim, mas olha para aquilo e fala
assim: pô, podia ser muito melhor! Miro
– Bob, a partir do momento que a gente está pagando para fazer
editorial, a gente não deveria ter isso, eu acho que aí você
pode… Bob Wolfenson – Neste sentido
nós temos que nos unir, como fotógrafos e ficar coniventes
com isso,
já fizemos isso uma vez e podemos fazer outra. Jussara
Romão – Ok, mas eu não acho que tem que haver…
Miro – Não fica com medo não (risos).
Jussara Romão – Não estou falando
que estou com medo, ao contrário, acho que toda divisão, todo
segmento separado não funciona, só cria divergência.
Se você for se tocando disso, e falar “não dá”.
Vamos conversar com eles. Agora, se não der a conversa aí
é outro processo. Eu sinto falta disso. Bob Wolfenson
– Mas, é estranho você pagar pra trabalhar, né?
É muito estranho isso. Jussara Romão
– O que não dá é para vocês falarem assim:
“vamos nos separar, vamos nos dividir, nós não concordamos”.
Não é assim. Eu acredito nisso, acredito em grupo. Nós
somos um grupo, queremos as mesmas coisas, eu pra revista, que é
o meu segmento, vocês para o trabalho de vocês. O Oskar no caso
dele. E a Sabrina quer também aparecer em imagens lindas. O barco
é o mesmo. Em nenhum momento eu consigo nos ver separados.
"Se a editora Abril
estivesse preocupada com o leitor, teria conseguido o retorno"
"...ela deveria ter formado já leitores neste
país, que ela não formou. Ela acaba buscando
só dinheiro, ela não está preocupada
com o leitor"
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Miro – Se a editora Abril estivesse preocupada com
o leitor, teria conseguido o retorno. Mas, hoje ela quer atingir a mulher
que é a segunda mulher do cara (risos), então na revista Nova
cada dia a mulher é uma coisa, hoje ela é executiva, não,
amanhã ela é dona-de-casa, não, no mês seguinte
ela é uma outra mulher. Você sabe disso. É um abuso
de querer achar coisas e ninguém formou isso. Eu acho que a editora
Abril é uma grande responsável por isso, porque ela deveria
ter formado já leitores neste país, que ela não formou.
Ela acaba buscando só dinheiro, ela não está preocupada
com o leitor. Bob Wolfenson – Mas, acho
isso uma discussão bizarra, bizantina, não vejo problema nisso.
Isso vai sempre ter em qualquer coisa. Vai ter o bom médico, o mal
médico, o bom hospital, o mal hospital, a boa loja como esta, a má
loja como esta, sempre vai ter isso. O bom diretor de arte. E para o mal
hospital vai ter o seu público, pra má loja vai ter o seu
público, pro mal outdor vai ter quem vai achar bonito. Não
é um desrespeito para os seus valores, mas não é um
desrespeito para a sociedade em geral, porque tem gente na sociedade que
acha aquilo bom. Platéia – Sou de
Belém do Pará, então, o que a gente sente fora do circuito
sudeste, e praticamente é só aqui, né? Falta justamente
o que ele falou, é fazer uma revista, que mostra o que é o
Brasil, realmente, porque é uma fantasia muito grande o que as editoras
fazem, mostram aquela beleza, como a moça, da modelo, que não
é o padrão, infelizmente não é o padrão
do país.
"Revistas de moda
e comportamento trabalham no lúdico, no ficcional,
ela não é fato, não é realidade,
aí é outra coisa"
|
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Bob Wolfenson – No Japão, eles fazem revistas
com loiras. Revistas de moda e comportamento trabalham no lúdico,
no ficcional, ela não é fato, não é realidade,
aí é outra coisa. Jussara Romão
– Aí é outra revista. Platéia
– O que eu acho que peca, que vende menos nas revistas é justamente
isso, porque o que acontece? Você bota aquele padrão de beleza,
que infelizmente não é do país, aquele tipo de moda,
que não é de todos ali … Bob Wolfenson
– Mas a revista vende em Belém? Platéia
– Não, sim, mas. Bob Wolfenson –
Então tem alguém lá que acha que é. O pacto,
a realidade, o que é legítimo é o que é aceito.
Isso que é legítimo, não a intenção.
Se tem alguém lá em Belém que compra uma revista destas,
que acha boa, se inspira naquela moda, faz uma roupa, gosta daquelas coisas,
aquilo bateu, valeu, entendeu? Platéia
– Sim, mas, mercadologicamente, o que poderia fazer ampliar mais,
tanto o mercado das editoras, dos fotógrafos, do mercado inteiro
da moda é justamente isso. A gente tem que, sei lá se é
sonho mesmo meu, tentar formar uma verdadeira visão do que é
o país … Bob Wolfenson – Ou
você faz um movimento heróico, por exemplo, você inventa
uma revista no Pará, uma na Bahia, uma no Rio, ou enfim, que seja
esta, que tenha este perfil, ou o cara que é dono de uma revista
faz uma coisa é do mercado. O dono de uma revista, ele só
muda se vender mais. Então se ele sacar que o público está
ansiando por uma identidade, por se ver nas revistas, por se ver exatamente
do jeito que ele é real, ele vai fazer isso, mas se ele achar o público
negro quer se ver loiro, japonês quer se ver branco, ou americano
quer se ver francês, enfim, ele vai, entendeu? E eu acho que estas
mudanças não são decisões subjetivas e pessoais,
por que não se faz isso? Porque é um mecanismo muito complexo
que envolve coisas muito maiores do que decisões pessoais, entendeu?
Jussara Romão – Só para dar uma
resumida. Eu trabalho em Elle há dez anos, e nestes dez anos
eu tive quatro diretores. A cada diretor, que é a alma da revista,
nós tivemos que mudar as características da revista, caminhos
completamente diferentes. Cada um deles defendia, por exemplo, eu comecei
com a Regina Guerreiro, que era a diretora na época que eu comecei,
era moda, moda, moda. Eu passei por um outro diretor: que esta revista não
é de moda. Sabe assim? Então é feito sempre uma constante
mudança. Eu acho que a Elle é a revista que mais passou
por mudanças dentro do mercado de revistas de moda e eu passei por
todas elas. A gente vive exatamente dentro disso. O diretor determina a
gente vai lá, tenta, joga uma linguagem, batalha, nãnãnã,
e aí? Não vende. Então, muda de diretor. Eu acho um
grande erro, porque uma revista tem que ter uma personalidade. O que eu
sinto, por exemplo, a Vogue, eu conheço a Vogue. A
Marie Claire, eu conheço a Marie Claire. E a Elle
tem que passar por todas estas etapas. Foi por minha causa? Não,
não foi por nossa causa, foi uma direção acima de nós
que decidia que não, que agora a linguagem é essa e o diretor
bom é esse. Miro – Continuo a insistir
na preguiça do brasileiro, das editoras brasileiras, e que por exemplo:
fazer moda se faz deste jeito, pegar aquela calça, aquela camisa,
levar aquele sapato, colocar num fundo, fazer a foto e colocar na revista.
Eu acho que além de tudo isso ela deveria explicar para as pessoas
do país inteiro, que se ela tivesse esta roupa seria ótimo
ela estar em Fernando de Noronha. Bob Wolfenson
– A editora Abril baixou um código de ética que não
permite permutas, eu acho errado isso, sei lá, eles entendem que
isso, para eles não serem obrigados a falarem bem de coisas que teoricamente
eles poderiam estar isentos e não ter que fazer. Se você é
convidado para ir pra Cuba, por exemplo, e o governo cubano te paga tudo,
você tem que fazer uma matéria lá elogiando o Fidel.
Esta é a moeda de troca, entendeu? Aí o cara fala não,
isso eu não permito, eu prefiro esperar o dia em que eu tenha dinheiro
para financiar. Miro – Mas isso acontece
no Brasil inteiro. Bob Wolfenson – Não
sou eu que estou dizendo, eu estou dando um exemplo extremo, mas é
essa a postura. Jussara Romão –
Isso eu não entendo na moda. Um cenário não vai mudar
nada. Bob Wolfenson – Na boa, eu também
fiz todas estas viagens. Conheci o mundo. O Daniel já pegou uma época
magra. Com todo respeito a Osasco, deve ser o lugar mais longe que a gente
consegue ir hoje em dia. Só pode levar um assistente. E comer pouco.
Isso a gente sempre pergunta quando tem um editorial pra Vogue, principalmente,
o que vocês querem que eu pague para equipe comer? O que vocês
querem comer hoje? Porque em geral o fotógrafo que paga.
Platéia – Oi, meu nome é Izan e eu
queria fazer uma pergunta. Existe alguma coisa que a gente poderia chamar
de fotografia brasileira de moda?
"Eu acho que qualquer
coisa feita no Brasil por brasileiro"
"Isso é brasileiro, porque o meu passaporte é
verde e eu nasci aqui"
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Daniel Klajmic – Eu acho que qualquer coisa feita
no Brasil por brasileiro. Esta é a minha idéia desde o começo,
acho que é uma coisa que eu defendo. Pode ser que você ache
parecido, pode ser que ele ache que é igual, não interessa.
Isso é brasileiro, porque o meu passaporte é verde e eu nasci
aqui. Bob Wolfenson – Você faz aqui, com
as condições daqui. Não existe uma escola de fotografia
de moda, no sentido de que nós nos reunimos e vamos ter uma identidade
e fazemos um manifesto, aquele trabalho é um trabalho brasileiro.
Eu acho que se você juntar, fizer uma iconografia de toda fotografia
de moda produzida dos anos 60, que eu acho que é quando começou
a fotografia de moda, até hoje, você tem a identidade, você
reconhece uma fotografia específica, particular e brasileira, na
figura de grandes fotógrafos. Platéia
– Eu sou publicitária, meu nome é Débora, estou
representando a voz dos anunciantes. Você falou da onde vem tudo isso,
né? O Miro falou que nós somos preguiçosos, tal. Eu
acho que começa um pouco longe isso. Qual a decisão quando
nós descobrimos que o nosso país é muito analfabeto
ainda? Nós decidimos, através do Ministério da Cultura,
que iríamos passar as crianças mais rápido, sem mais
filtros de cultura e de educação. Elas íam deixar de
ser analfabetas, não porque elas aprendiam, mas porque elas não
teriam mais exames para isso, elas iriam passando. Então, acabou-se
com o analfabetismo de uma certa forma com uma decisão. Da mesma
forma é uma decisão que você tem que tomar, o que vamos
fazer com o caminho da fotografia. Qual a decisão que nós
vamos tomar? Daniel Klajmic – Mas está
na mão de quem esta decisão? Bob Wolfenson
– Nós vamos juntar todos os fotógrafos. A gente veio
para um debate e vamos sair um sindicato (risos). Mas, acho que aqui seja
um início de uma coisa que talvez a gente nunca tenha tido a oportunidade,
porque também a profissão do fotógrafo é muito
fechada, não é como do cara que faz cinema, entendeu? Que
são quarenta caras, uma equipe enorme que você está
lá se relacionando em uma produtora. Eu acho que você troca
mais. O fotógrafo está lá no estúdio dele, eu
no meu, ele no dele, a gente não conversa nunca.
"Fotografia de
moda dita comportamento. A expressão e todos os profissionais
desta área ditam o comportamento"
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Oskar Metsavaht – Mas eu acho que está dentro
de um grupo, é muito sectário. Não acho que é
isso. A gente está em um período de movimento de expressão
cultural do Brasil pra fora. O que nós estamos falando aqui? Moda
é reflexo de comportamento, é observação de
comportamento e transformação em produto, em coleções,
em várias formas de expressão, cujo o qual a fotografia faz
parte. A fotografia fotografa o comportamento, ou ela expressa o comportamento
que o fotógrafo queira passar. Bom, tudo está baseado no comportamento.
Fotografia de moda dita comportamento. A expressão e todos os profissionais
desta área ditam o comportamento.
Daniel Klajmic – Eu acho que não. Tem uma
editora inglesa, que há uns cinco anos tive a oportunidade de trabalhar
várias vezes. Ela me falou uma coisa que eu nunca tinha pensado,
o que faz sentido, tudo o que você faz para produzir a fotografia,
na moda, é o único e exclusivo veículo. Você
pode produzir o que você quiser, mas vai ter que estar fotografando
em algum lugar, na revista, no catálogo, no anúncio. Então,
a fotografia é o veículo da moda. Se você não
tiver este link você não faz o ciclo completo, entendeu?
Oskar Metsavaht – Não, porque a fotografia
ela está dentro de um todo, porque a gente observa comportamento
através da fotografia. Quando eu me inspiro para fazer uma coleção,
uso bastante referência fotográfica. Daniel
Klajmic – Eu não estou falando isso, mercadologicamente,
no final vai ser colocado lá pra fora pra ele ou pra ela através
da fotografia.
"Nós não
temos um movimento nosso, da nossa sociedade inteira, pegar
o que a gente tem agora, nós mostrarmos lá fora
da nossa forma, nós mostrarmos a nossa expressão,
não sermos olhados"
"Eu acho que não há um movimento aqui dos
fotógrafos, acho que são todos os profissionais
de moda nos darmos, agora"
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Oskar Metsavaht – Mas não é um trabalho
único, é um trabalho em conjunto. O São Paulo Fashion
Week, que vocês falaram antes aqui, foi um movimento da união
de vários profissionais, que foram dispensando, todo mundo dando
um pouquinho de cada um, porque no início não tinha dinheiro
pra ele. Hoje é um dos grandes movimentos aqui do Brasil, que é
a forma onde se permite a expressão de todos profissionais de moda
para o resto do mundo. Ele atingiu isso. Quando se fala de ter uma revista
para se botar isso? O Brasil está, todo mundo fala, não precisa
nem falar, não precisa ouvir os italianos, nós sabemos disso
a muito tempo. Que o Brasil está na moda lá fora não
é pela foto, não é pela moda, roupa, não é
por mais nada que o nosso estilo de vida, ou seja comportamento. É
um comportamento que é admirado pelo mundo todo, neste mundo contemporâneo,
este estilo de vida nosso urbano integrado com a natureza. Bom, não
vou falar disso, mas este movimento que tem hoje no mundo, este momento
nosso, esta onda que está vindo pra nós, pela terceira vez,
desta vez uma grande onda, que a nossa oportunidade, o mundo está
aberto para nos assistir. É o momento nosso de nos expressarmos lá
pra fora. Nós temos várias formas de nos expressar, no cinema,
na música, que se expressa há muito tempo, tem os nossos esportes,
está tendo a moda agora e a fotografia é aquela coisa, por
que não tem fotógrafo que vai pra fora? Claro que tem, todos
vocês já foram, eu já vi trabalhos de vocês publicados
em editoriais, vocês são convidados para editoriais lá
fora. Sob o ponto de vista editorial das revistas lá de fora. O que
tem de revistas do mundo inteiro direto falando da nossa cultura, mas é
o ponto de vista deles. Nós não temos um movimento nosso,
da nossa sociedade inteira, pegar o que a gente tem agora, nós mostrarmos
lá fora da nossa forma, nós mostrarmos a nossa expressão,
não sermos olhados. No Rio de Janeiro, tem três revistas de
fora fotografando aqui. Outra coisa, trazendo roupa de fora para ser fotografada
aqui, com modelos daqui, só usar a locação e modelo
brasileira e vai pra fora. Eu acho que não há um movimento
aqui dos fotógrafos, acho que são todos os profissionais de
moda nos darmos, agora. Mas, sabe o que é? É um instrumento
nosso de botar lá fora. Todos nós compramos revistas, a gente
compra muito mais revista importada do que nacional, todos nós aqui
dentro, não tenho dúvida nenhuma, nós estamos comprando
a comunicação lá de fora deles, o que eu acho mais
do que normal, é uma troca, vamos dizer, só que nós
não temos uma revista nossa lá fora, que leve, exatamente
os nossos fotógrafos, a nossa moda, o nosso comportamento, o nosso
ponto de vista, inscrita em uma linha editorial nossa. Não tem isso,
é um absurdo. O Brasil hoje se expressando, tendo a oportunidade,
várias marcas, empresas brasileiras, não só de moda
estão precisando de instrumentos, ou seja, o que é? O que
nós somos. Nós somos parceiros da revista. Eu odeio ser olhado
como cliente pelos fotógrafos e pelas revistas. Eu sou parceiro,
estou junto ali dentro. Estou dentro da linha editorial. Estou junto com
o trabalho artístico do fotógrafo. É um movimento todo.
Hoje vou dar um exemplo clássico, então, se sou, vamos dizer
do lado meu empresário, estou tentando crescer internacionalmente
e não tenho nenhuma mídia, porque as revistas brasileiras
não vão lá pra fora. Tenho que esperar que as revistas
lá de fora reconheçam o trabalho para ser convidado a fazer
editoriais. Outra coisa, investir em publicidade, eu não tenho dinheiro
nem para fazer anúncio em revista daqui do Brasil, imagina nas revistas
lá de fora? Bob Wolfenson
- Eu acho que é esta a questão.
"Eu acho que o
american dream no mundo está caindo e está
surgindo o momento agora do brazilian soul. É
um momento nosso de expressão, é uma oportunidade
nossa de aproveitar que o mundo inteiro está nos olhando
e profissionalmente a gente se colocar de uma forma forte
e integrada"
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Oskar Metsavaht – E vocês todos têm que
ser convidados para fazer um editorial, então isso só acontece
esporadicamente, nunca vai ter. Tem que ter um movimento, o São Paulo
Fashion Week é um exemplo disso, de uma coisa que se expressou, é
o quinto evento de moda do mundo, onde eu e outros designers e estilistas
brasileiros tivemos a nossa oportunidade de mostrar o nosso trabalho pra
fora através do São Paulo Fashion Week, e através de
suas lojas nas cidades cosmopolitas brasileiras, porque comunicação
de moda são as lojas também, é a loja, o desfile, a
campanha é a fotografia. Com certeza tem que surgir um movimento
agora, senão esta onda vai passar, daí sim nós vamos
ver que nós somos incompetentes. Nós não nos achamos
incompetentes nem ruins, não, sabemos e reconhecemos o nosso talento,
a gente sabe que é um momento nosso mesmo agora, porque a gente conhece
muito bem, olha, fazem, eu tenho 43 anos, fazendo uma média nossa
aqui, fazem 30 anos que nós somos massificados pela cultura de marketing
do cinema americano, fomos bombardeados muito mais do que os europeus, então
nós conhecemos muito mais o american life style, o american
dream do que os europeus, e conhecemos igualzinho os americanos, porque
os americanos também só vêem mídia, não
conhecem mais nada do que revistas e filmes, da mesma forma que nós
os vemos. Nós conhecemos a Europa muito bem, porque as nossas famílias,
a grande maioria aqui é de tradição européia.
Então houve uma resistência nossa contra esta cultura americanizada,
não resistência de um modo pejoraivo, agressivo, mas de manter
tradições européias. Então, nós conhecemos
a Europa tão bem, talvez eu exagero um pouco, mas conhecemos muito
bem como alguns europeus. Americano não conhece Europa, não
conhece o mundo inteiro, só seu próprio umbigo. O europeu
não conhece o american dream, porque ele se fechou muito,
quando ele entrou nós já sabíamos muito mais. E nós
somos latino-americanos e a gente conhece a América Latina. Temos
orientais, todas culturas misturadas conosco. O mundo globalizou, nós
já somos globalizados há muito tempo, porque nós olhamos
o mundo, aqui do hemisfério sul, nós olhamos o mundo há
muito tempo do que outras nações olham o mundo. Então,
é um momento nosso, é um momento onde nós temos uma
cultura globalizada, uma cultura rica e nós temos um diferencial,
que é o nosso brazilian soul. Eu acho que o american dream
no mundo está caindo e está surgindo o momento agora do brazilian
soul. É um momento nosso de expressão, é uma oportunidade
nossa de aproveitar que o mundo inteiro está nos olhando e profissionalmente
a gente se colocar de uma forma forte e integrada, como o Bob falou aí,
a Itália fez isso há 30 anos atrás, os estilistas,
as marcas ninguém conhecia, só conhecia os estilistas e marcas
francesas. A indústria pegou, porque lá era muito parecido
com o Brasil, a indústria de moda, eram várias confecçõeszinhas,
sapatarias e tudo pequenininhas, e quando olharam disseram assim: bom, nós
temos que pegar desde o fabricante de tecidos aos estilistas e passando
com isso por todos os profissionais, jornalistas de moda, produtores de
moda, fotógrafos de moda e fizeram o que eles se impuseram ao mundo.
A Itália se impôs ao mundo como moda em toda a cadeia de moda,
não só os fotógrafos e marcas, ou só a indústria
têxtil, ou só as revistas. E o resultado está aí.
As grandes marcas italianas, agora então nestes últimos cinco
anos, que acabaram as marcas americanas, falar assim é ótimo,
e os italianos que pegaram o grande Mercado. Virou o main stream
da moda no mundo inteiro. A cadeia deles toda vai do pequeno confeccionista,
o cara que prepara o coro da roupa, do calçado até o estilista,
passando por tudo e agora as expressões, as revistas italianas, hoje
em dia são as grandes ditadoras de moda…
Daniel Klajmic – A Vogue Itália,
né? Oskar Metsavaht - …mais do que
a França, a Inglaterra e os Estados Unidos. Daniel
Klajmic – Não tem outra na Itália, tem?
Oskar Metsavaht – Eu acho que é um momento
de união nossa, não os fotógrafos ficarem reclamando
que não estão recebendo grana para fazer editorial. Não
é o momento das revistas dizerem assim: caramba, tenho que cobrar
muito mais dos anunciantes, etc. É um momento onde todo mundo dá
um pouco e fazermos uma revista que tenha a cara da gente e que supra as
necessidades de todos os profissionais da área, que respeite seus
momentos autorais, suas dificuldades econômicas, isso tudo, e ganhar
o momento especial nosso lá pra fora. O mundo inteiro vai comprar.
Qualquer cidade que eu viajei neste ultimo ano, eu ia a todas as livrarias
e quando chegava, em todas as línguas, tem sempre uma revista com
um editorial inteiro sobre o Brasil falando do que nós somos, e vendem.
Não precisa nem falar, todo mundo que viaja sabe que está
o Brasil verde e amarelo pra tudo que é lado. Só que daqui
a pouco isso vai passar, eles observaram e viram o material nosso e nós
não aproveitamos, daí nós vamos poder nos considerar
perdedores. A janela está aberta, é nossa. Daniel
Klajmic – É o que eu estou falando com ele, eu me
sinto não reclamando da falta, eu me sinto sempre aberto e dando
para a oportunidade. Eu continuo fazendo os editoriais, eu continuo pagando,
eu não estou reclamando, eu só estou colocando um fato real.
Eu estou desfantasiando, mas eu continuo ativo e vou continuar ativo até
a hora em que me colocarem na situação de entrar em algum
tipo de movimento, estou aqui para fazer sim, agora, não heroicamente
sozinho, junto com uma série de pessoas. Eu acho que nenhum fotógrafo,
nem Bob, nem Miro, nem quinhentos que não estão aqui pensam
diferente, todos eles têm esta mesma vontade. Oskar
Metsavaht – E a mesma coisa, nós marcas, designers
e jornalistas de moda, todo mundo. Bob Wolfenson
– Tudo isso que o Oskar falou é muito interessante, mas precisamos
saber como fazer isso, porque é muito, eu tenho esta revisteca, esta
S/N°, que é uma revista de 3 mil exemplars e a gente põe ela
lá fora, mas é uma dificuldade. Vender aqui é uma complicação,
imagina você fazer uma coisa que você consigue viabilizar lá
fora. É lógico que a gente teria que fazer um esforço
conjunto, todo mundo, um grupo enorme e tentar fazer isso. Eu acho bacana.
Oskar Metsavaht – Você imagina o
custo de fazer um catálogo, eu sozinho tentar lá fora.
Bob Wolfenson – Eu acho uma idéia genial
só que precisa combinar, fazer uma comissão. Platéia
– Sou Fernanda, sou fotógrafa de moda, mas a minha área
é passarela. Então, como foi dito aqui, a fotografia é
o que registra a moda. O que eu luto muito, foi que eu comecei com o analógico,
amo analógico, o filme, o cromo, eu acho que é realmente a
fotografia, onde o fotógrafo coloca a arte dele. Por outro lado,
fui imposta a usar o digital há quatro anos. Se eu não entrasse
no digital, não fotografava mais. Faço todas as passarelas
nacionais e comecei, há dois anos, entrar no internacional. E o que
eu noto? Falta um pouco é o designer brasileiro chegar e dar ouvidos
pra nós, porque realmente a fotografia final que vai sair é
uma outra visão da de vocês, que é mais editorial. Dar
ouvido ao fotógrafo que está lá registrando o momento
dele, chegar e falar: o que você acha desta luz? Porque ele vai trabalhar
esta imagem durante seis meses no mínimo, são poucos os designers
que dão esta opção pra gente. Eu estive agora em BH,
onde o Inácio Ribeiro, da Clements Ribeiro, virou pra mim e falou:
Fernanda, esta luz é boa para você fazer as fotos, não
agrade muito não a Suzane, chega pra mim e fala: é boa ou
não, porque eu vou trabalhar com esta imagem durante seis meses ou
mais, e não só estes 15, dez minutos que é a passarela.
O digital, realmente é uma praticidade, no mesmo minuto a foto está
lá fora. Hoje, participo de um dos maiores bancos de imagens, a Getty
Images, e vejo o que eles vendem das imagens brasileiras. São Paulo
Fashion Week, como você falou, é um movimento muito grande
que deu visibilidade do que é a moda brasileira lá fora. As
modelos brasileiras estão cada vez mais destacadas, nas passarelas
internacionais tem muita brasileira. É o momento do Brasil crescer,
se expor. Então, eu acho que a gente tem que realmente pegar. A gente
não pode deixar perder isso. Muitas vezes a gente é: “não
vou fazer com ela e vou fazer com o fotógrafo da esquina, que comprou
uma digital e se chama de fotógrafo”. E como você falou,
Daniel, perde a essência da fotografia, porque não aprendeu
como fotografar, e se acha o fotógrafo, faz um monte de burrada e
depois chegam pra gente: “ai, corrige?”. Não dá
pra corrigir, ou você contrata um bom fotógrafo ou não.
Na área digital, na área analógica, o que seja. Cada
um tem a sua visão, o seu olhar, sua história, seu background
e põe pra fora. Daniel Klajmic –
Eu acho que o que estamos tentando dizer é que este fenômeno
do Fashion Week, e o que a gente vê na TV aberta, na TV a cabo, não
esqueçam, na hora de dividir este bolo todo, da fotografia, seja
de passarela, seja da revista Vogue, da revista S/N°. Às
vezes, na hora de fazer um evento de moda da televisão, do video,
da GNT e da internet, e tudo isso, a outra parte fotográfica acaba
ficando com o que sobra, e é tão importante quanto o resto
da comunicação. Oskar Metsavaht
– Eu acho, até porque a minha marca é de life style,
eu gosto de expressar life style, o fotógrafo é life
style, entendeu? É estilo de vida, é comportamento, acho
que isso agrega o desenvolvimento da coleção, até por
referências. Os fotógrafos, dos profissionais de moda, são
os que são mais valorizados, bem mais do que os jornalistas, os produtores
de moda, do que os stylist. É mesmo. Daniel Klajmic
– O fenômeno do Fashion Week é gigantesco, e o resultado
que tem pra você é muito mais instantâneo e mais barato
do que produzir um catálogo com as dificuldades. Não tem como
o estilista negar a praticidade que é o Fashion Week. Eu acho que
na hora que você tem a possibilidade gigante de veicular a imagem
do Brasil, eu sinto que isto está andando muito mais rápido
do que a nossa discussão editorial, o mercado interno, verba para
revista, direção de revista, este que é o nosso trabalho
do dia-a-dia, produção de campanha, acaba andando um pouquinho
mais devagar do que este processo acelerado do desfile, do Fashion Week,
de mandar imagem, internet, TV a cabo. Isto está atropelando um pouco
o nosso local. Oskar Metsavaht – Não
substitui, Daniel. É claro que o Fashion Week não substitui
isso. Você tem que lembrar que as marcas brasileiras, na sua grande
maioria, começaram no fundo de quintal, com seu dinheiriho de bolso,
da mesma forma que você comprou a sua primeira câmera fotográfica.
Pra nós conseguirmos sobreviver neste país, com todas estas
coisas de impostos e colocar sua lojinha e ir aos poucos é um esforço
fenomenal para todos nós. Os faturamentos das nossas empresas são
infinitamente menores do que qualquer outra destas marcas de fora. A verba
que se tem para realizar são bastante pequenas. Claro que eu faço
questão da campanha, a nossa coisa nas revistas e interpretada por
um fotógrafo que se identifique comigo e com a coleção
e de ter uma coisa esteticamente bonita, estar em todas as revistas com
página dupla ou três páginas. É o sonho de todos
nós quando está expressando a sua coleção, o
seu estilo. Mas, o que acontece? Os custos são altos, tanto de fazer
catálogos quanto de fazer anúncios nas revistas. E, geralmente,
algumas revistas, que têm uma viabilidade econômica, não
têm tanta expressão no número de edição,
é bem a cara do Brasil, a gente tem talento, mas não tem dinheiro.
A gente é bonitinho, mas é pobre (risos). Platéia
– Meu nome é Marcelo, trabalho com criação publicitária.
Acho que tem um desafio exatamente aí, porque esta queixa de que
a gente não consegue efetivamente nenhum canal do dinheiro com a
expressão. Com esta idéia de globalização, eu
só tenho clientes, na grande maioria, que trabalham com verbas, com
margens dentro do sistema multinacional, e a gente tem que se adaptar a
esta realidade, que é muito difícil mesmo. Gera este gap enorme,
entre a capacidade que a gente tem de se expressar e a adequação
do top down, quer dizer, a gente tem que atender uma demanda que é
globalizada, efetivamente. Concordando com esta questão da cultura,
o grande desafio da gente que trabalha com comunicação é
produzir cultura que possa ser referência, não só para
o exterior consumir, mas para o mercado interno, porque hoje o que acontece
é uma falta de reconhecimento da competência técnica
das pessoas, a gente vive em um mercado que está estrangulado, onde
a gente fica submetido ao poder do dinheiro, que é capaz de ignorar
totalmente as competências técnicas. Neste quadro, a provocação
que eu tenho a vocês é: a gente tem excelentes fotógrafos,
temos uma editora, uma comunicóloga ali também e temos um
empresário com cultura, o que é raro também, né?
No sentido de reconhecer o valor e a competência dos profissionais.
Então, de alguma forma, este manifesto, este entendimento que é
preciso mudar, ele tem que produzir alguma coisa que possa sensibilizar
as pessoas que estão nos postos estratégicos, que tenham a
capacidade de tomar decisão de aprovação do processos,
entendeu? Porque a gente esbarra é neste monolito, na verdade eu
brinco, eu tenho uma cliente que é flanelinha de lay out, porque
como ela tem o poder da verba ela é capaz de ficar o tempo inteiro
mudando, como muda o seu céu, muda a marca e tal. Miro
– As pessoas que estão sentadas aqui não têm este
monolito, não. Podem fazer o que quiser, só não está
fazendo quem não quer. Platéia –
Então esta provocação é maior ainda (risos).
Bob Wollheim – Vamos aproveitar esta provocação
final e fazer uma última rodada? Depois a gente tem festinha, senão
as pessoas não aguentam mais ficar duas horas sentadas. Miro começa
e faz um pouquinho a sua provocação do monolito, que não
está na frente de cada um, e depois cada um pega o microfone e faz
a sua colocação final. Miro –
Eu acho muito maluco ficar falando coisas, por exemplo, do exterior, que
tem que levar pra fora. A gente tem que pensar na gente, se a gente não
estiver forte, todos juntos, são sonhos individuais, de você,
do Bob, como sempre foi do Brasil, cada um com um sonho particular. Eu quero
a minha marca lá fora na Bloomingdale’s, ou em Paris, eu acho
que cada um tem um sonho particular. Pessoas como ele e um monte de pessoas
neste país, que tem dinheiro para poder mexer com a coisa de investir,
estão pensando na coisa lá fora. É um momento que estamos
vivendo, tanto que há cinco, seis anos houve a onda de todos os donos
de confecções chamar fotógrafos de fora para fazer
todas as campanhas aqui dentro e cobraram o que quiseram e foram embora
e voltamos nós a fazer pela merreca de sempre (risos e palmas).
Oskar Metsavaht – Agora eu vou ter que me defender,
rapidinho. Em primeiro lugar estas marcas que você fala têm
30 a 35 anos, e a Osklen tem 15 anos, é outro momento de marca.
Nós estamos falando de fotografia de moda. Ela é autoral,
é mais artística do que fotografia comercial. Nós estamos
falando de elite cultural, porque a forma como vocês querem expressar
a fotografia de vocês é para poucos neste país. A expressão
de moda nossa também é para poucos neste país. O que
acontece é que o Brasil é um país popular. A nossa
mídia, onde as grandes empresas, que têm para pagar, para bancar
um trabalho teu, do Bob, ou do Miro, que vale o trabalho de vocês,
são estas grandes empresas que têm bala, o cacife, só
que são elas que, exatamente o público delas não é
elitisado, é o público popular. Então, a comunicação
é outra. Vocês se realizam financeiramente, mas não
artisticamente. Na moda existe uma simbiose muito boa, porque a moda quer
a fotografia artística, só que a moda não tem o cacife
para pagar. O trabalho de fotografia e moda é muito mais pelo tesão
de fazer, e claro, ser remunerado por isso, proporcional do que seja, do
que ser esta cobrança em cima das empresas de moda no país
em geral, com várias excessões de vários lados. E falando
a mesma coisa para as revistas, marcas de moda, designers não tinham
que anunciar em revista, tinham que fazer parte da linha editorial, porque
se elas são moda e vocês estão falando de moda elas
são protagonistas, não são cliente. E os anunciantes
de revistas não têm que ser as marcas de moda, os anunciantes
têm que ser as grandes empresas, que têm capital para bancar
e estar junto este comportamento, porque moda é comportamento, é
uma forma de expressão, que nem a fotografia… Bob
Wolfenson – Mas não pode assambarcar toda a sua identidade
e colocar no editorial dela. Oskar Metsavaht –
Mas, por que é que pode ter a sua assinatura lá dentro?
Bob Wolfenson – Porque eu sou um prestador de
serviço para a revista, eu sou um prestador de serviço para
a sociedade. Oskar Metsavaht – Mas não
pra revista. Bob Wolfenson – Por que não?
Você é para a sociedade porque você tem um canal de expressão
que é seu, que você vai bancar, vai veicular, vai fazer e fazer
da sua forma. Através de uma revista você tem um espaço,
que um espaço pequeno, editorial e um espaço publicitário,
é isso. Eu sou um prestador de serviço, eu sou do artesanato
da revista, o vestido, não. Oskar Metsavaht
– Não acho, sabe por que? Porque no momento em que tem o seu
nome, assinando embaixo a revista, está fazendo propaganda para você.
Bob Wolfenson - Eu não estou cobrando
nada para fazer uma revista. Eu estou trabalhando para uma revista e o pagamento
que a revista me faz é botar o meu nome, este é o pagamento.
Oskar Metsavaht – E a roupa que eu estou fazendo…
Bob Wolfenson – Mas você vai vender a
sua roupa, eu não vou vender a minha fotografia. Daniel
Klajmic – Você não quer comparar o crédito
do fotógrafo com a loja em Ipanema. Oskar Metsavaht
– Quando você vai fazer um anúncio que tiram o teu sol
e tudo, você está vendendo. Você está no acordo
que você comercializou. Daniel Klajmic –
A natureza de um trabalho editorial é diferente da natureza de um
trabalho publicitário. Bob Wolfenson –
Se eu tivesse uma loja de produtos, um estúdio, em um bom ponto de
venda, que chamasse o cliente, e eu assinasse na revista o meu estúdio
fotográfico, Bob estúdio, venham aqui, com o endereço
embaixo, aí seria diferente, mas eu faço parte do artesanato
da revista. Oskar Metsavaht – Mas quando
você faz uma campanha para alguma empresa que te chama, uma Telefônica,
que seja… Bob Wolfenson – Não
tem crédito. Oskar Metsavaht - Tudo bem,
mas como é que o cliente chegou nele? Bob Wolfenson
– Por um conjunto de coisas, como você disse, é histórico,
um conjunto de fatores que me levou àquilo. Daniel
Klajmic – Desde o pedido dele com o portfólio lá,
físico, indo lá e falando: este é o meu portfolio,
e todos os retornos. Oskar Metsavaht –
As minhas coleções, a cada semester, são meu portfólio.
Bob Wolfenson – Eu acho que você
está defendendo uma coisa estranha, que é pegar os anunciantes
de moda, os fazedores de moda e colocar eles no banco editorial da revista.
Isso assim, nunca vi. Jussara Romão –
É um absurdo. Nem seria possível, gente, revista não
é um barco em que todo mundo entra e dá opinião. Revista
é um meio de comunicação definido. Não dá
para dizer em uma revista: “olha, como eu anuncio, quero que funcione
deste jeito e eu quero que fale da minha roupa deste jeito”. Desculpa,
não é assim. Oskar Metsavaht –
Desculpa, eu falei isso aqui agora? Que tem que botar do jeito que a gente
quer? Não falei. Só que a revista de moda não existe
sem a fotografia e sem moda e sem modelo. Jussara Romão
– Evidente. Bob Wolfenson – Os ensaios
de moda, o cara que trabalha em uma revista, por exemplo a Jussara, que
é uma editora, ela não vai pegar uma roupa inteira sua…
Oskar Metsavaht – Mas eu não estou falando
isso. Vocês estão botando coisas. Bob Wolfenson
– Eu estou dizendo que neste sentido você está participando
da revista, porque ela pegou um casaco seu e colocou na calça do
Alexandre Herchcovitch, botou em um top da Glória e fez uma interpretação
daquela roupa, está sugerindo uma forma das pessoas usarem, propondo
uma forma de se vestir. Ela chama o fotógrafo para dar àquilo
um sonho, remeter aquilo artisticamente, fazer daquilo uma coisa que a pessoa
almeje. E você já está lá. Oskar
Metsavaht – Está na linha editorial. Então
é isso. Bob Wolfenson – Então
que outra parte você acha que poderia entrar? Oskar
Metsavaht – É esta, exatamente esta. Estou dizendo
para as revistas não ficarem em cima dos profissionais de moda, dos
designers e estilistas, vê-los como anunciantes. Jussara
Romão - Aí é o mercado publicitário,
não o nosso. Oskar Metsavaht – Estão
toda hora batendo na Osklen para anunciar dentro das revistas.
Bob Wolfenson – Aí acontece um fenômeno,
e eu estou falando aqui nem como fotógrafo, mas como alguém
que participa e vê, como ouvinte destas questões. Um anunciante
que anuncia em uma revista, ele quer ver a roupa dele em um editorial e
o contrário também, a revista bota uma roupa de alguém
em um editorial e vai buscar o anunciante. Isso é uma relação
comercial, que eu vejo claramente, não sei se ela é explícita,
mas que existe, existe. Esta relação já está
acordada, já existe, já é um acordo, que está
lá para que as revistas existam, para que os fotógrafos existam,
para que as editoras existam e para que os anunciantes existam. Bob
Wollheim – Você coloca uma questão macroeconômica,
de globalização, de restrição de verbas, de
concentração, de redução das redações,
e isso não escolhe um público. O mercado publicitário
e o editorial estão reduzidos, e mercado da fotografia também.
Nada mais, me parece que vocês estão retratando um bom corte
do que está acontecendo no mundo. Bob Wolfenson
– Exatamente. Daniel Klajmic – E isso
reflete diretamente nesta engrenagem que o Bob está falando, como
tem este acordo selado entre anunciante e editoria, tem o mesmo acordo selado
entre revista e fotógrafo, o fotógrafo vai fazer de graça.
E são relações que funcionariam e estavam funcionando
até certo ponto, onde existe um encolhimento econômico, onde
você começa a ser imposto uma visão dentro do editorial,
que passa a depor contra esta relação acordada, que era vantajoso
para todo mundo. No fim é isto que a gente está falando.
Bob Wolfenson – O mecanismo do mercado é
este, é exatamente este. Se você se indigna e isto te revolta,
eu acho que ele vai continuar sendo assim, só que este limite, que
a gente está chegando a uma conclusão aqui, se esgotou. A
forma como está sendo feito hoje está esgotada. Hoje não
é mais excelente como já foi, hoje é mais para o mediocre.
Daniel Klajmic – E para completar o que o Marcelo
falou, que eu achei interessante sobre o monolito. A partir do momento em
que os detentores de dinheiro, se é que existe esta coisa, que são
os nossos donos, e etc. e sei lá o quê, que contratam e fazem
a direção da revista, etc. e tal. Digamos que vai acontecer,
vai melhorar quando eles perceberem que aquilo, não porque ele é
legal, é mais bonito ou porque tem mais cultura, quando acharem que
aquilo é rentável, que cultura é rentável, este
comportamento é rentável, a foto de moda louca também
é rentável. É só uma questão de mentalidade,
de poder extrair, porque tudo é business, revista é
um business.
"Estamos em um
momento de crise, estamos discutindo aqui uma crise. A crise
é a mola propulsora da mudança, vai nos colocar
no caminho de mudar, da criatividade"
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Bob Wolfenson – As coisas andam e progridem de uma
crise, se está todo mundo satisfeito, vai todo mundo empurrando com
a barriga. Estamos em um momento de crise, estamos discutindo aqui uma crise.
A crise é a mola propulsora da mudança, vai nos colocar no
caminho de mudar, da criatividade. Ele está propondo uma maneira
da marca paticipar de uma revista, faz parte da crise. É uma crise
dele como anunciante, ele está infeliz e fala assim: “eu me
sinto só um anunciante da revista, ou coloco ali uma roupa minha
de qualquer jeito, como não gosto”. Quero participar de uma
outra forma. A gente não sabe como.
Oskar Metsavaht – Artisticamente, como vocês
fotógrafos. Bob Wolfenson – Exato,
mas isso precisa ser discutido e precisa ser conversado, criado e testado
para que exista um dia de alguma forma, para que a gente vá para
um outro patamar, um outro jeito de fazer a coisa. Bob
Wollheim – A Sabrina falou pouco, mas falou bem, disse que
o melhor do brasileiro é o brasileiro, ao contrário do que
a gente achou em uma parte desta conversa. Oskar Metsavaht
– Mas as brasileiras são melhores ainda, que os brasileiros.
Bob Wollheim – Queria agradecer novamente a
presença de vocês, a participação da Fnac, o
Miro, Daniel, Oskar, Jussara, Sabrina e Bob. Obrigado! |
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