"Nos rituais dos candomblés da Bahia, há uma parte desconhecida, tanto para leigos como para os estudiosos do problema." Assim começa a apresentação escrita pelo fotógrafo José Medeiros (1921-1990) no livro Candomblé, publicado em 1957, e agora em nova versão com adição de imagens inéditas, pelo Instituto Moreira Salles (IMS) que acompanha sua exposição na sede do instituto em São Paulo.
Nascido em Teresina, no Piauí, Medeiros mudou-se em 1939 para o Rio de Janeiro e passou a colaborar para as revistas Tabu e Rio. Em 1946, convidado pelo fotógrafo francês Jean Manzon (1915-1990), foi trabalhar para então famosa revista O Cruzeiro. Ficou por lá quinze anos e em 1962 fundou a agência Image, juntamente com Flávio Damm e Yedo Mendonça. Medeiros também cuidou da fotografia de filmes importantes como Xica da Silva, de Cacá Diegues e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos.

De origem africana, o candomblé, muitas vezes confundido como religião, a grosso modo é o lugar onde se realiza uma liturgia onde a autoridade absoluta é o “pai de santo” (ou a mãe). Em sua hierarquia estão figuras peculiares e não ortodoxas que se distinguem da cultura judaico-cristã disseminada no Brasil. Por isso, o livro antes mesmo de ser publicado pela primeira vez, há mais de 50 anos, já causava controvérsias.
O primeiro ensaio de Medeiros sobre o tema saiu na revista O Cruzeiro em 1951, com o sugestivo título de “As noivas dos deuses sanguinários” e tratava do ritual secreto de iniciação das chamadas “filhas de santo”. Curiosamente era a contrapartida a uma matéria publicada por outra famosa revista da época, a francesa Paris Match, assinada por George Clouzout (1907-1977), cujo título também sugestivo, As possuídas da Bahia, por certo hoje arrepiaria os ativistas de plantão, como naquela época, assim aconteceu. Curiosamente, Clozout ficou mais conhecido por sua obra cinematográfica. Entre seus filmes mais famosos está o experimental Os mistérios de Picasso, de 1955, feito em stop-motion.

Independente das particularidades filosóficas ou religiosas de sua temática, a obra de Medeiros é essencialmente documental, extremamente respeitosa com os ritos e brilhantemente fotografada. Significa uma pequena parte de um vasto trabalho de um dos mais respeitados fotojornalistas brasileiros, cuja inspiração ainda se faz presente e necessária. As imagens para o livro foram digitalizadas e tratadas pela equipe do IMS no Rio de Janeiro.
As legendas e textos originais que pincelam a liturgia registrada pelo fotógrafo, foram devidamente revisadas por Vagner Gonçalves da Silva, do departamento de antropologia da USP. A edição foi aumentada com uma série de 13 imagens inéditas e reproduz, em imagens reduzidas, sua primeira versão completa*. É interessante notar que o projeto gráfico de 1957 é mais arrojado que o atual. Nele, Medeiros abusa de páginas sangradas, mesmo quando são duplas, sem perder a acutância de seus precisos registros. A capa, também preciosa, foi composta pelo brilhante artista plástico cearence Aldemir Martins (1922-2006).

*Quem tiver interesse, pode consultar a edição original na Biblioteca e Centro de Documentação do Museu de Arte de São Paulo-MASP, de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h. Agendamento prévio pelo telefone (11) 3253-6483.
Candomblé
Imagens de José Medeiros
Edição Instituto Moreira Salles
ISBN- 978-85-86707-31-5
Exposição fica em cartaz na sede do IMS na rua Piaui,844, 1ºandar, até 05 de abril de 2009. Tel.11- 3825 2560
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